{"id":10409,"date":"2006-11-07T00:00:00","date_gmt":"2006-11-07T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T04:24:46","modified_gmt":"2017-09-14T04:24:46","slug":"zazueira-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/zazueira-2\/","title":{"rendered":"Zazueira"},"content":{"rendered":"<p>I.<\/p>\n<p>Ben \u00e9 assim&#8230;<\/p>\n<p>De som em som. De sil\u00eancio em sil\u00eancio, o homem &#8211; sim, porque era um homem, n\u00e3o um rapaz, menos ainda um moleque, era um homem &#8220;no melhor momento da vida&#8221;, gostava de dizer &#8211; pois como eu dizia, o homem assim escrevia, passo a passo, a pr\u00f3pria hist\u00f3ria&#8230;<\/p>\n<p>Sempre se orgulhou de estar &#8220;no controle&#8221;, como tamb\u00e9m gostava de dizer. Ali\u00e1s, os prezados leitores j\u00e1 podem perceber, o dito-cujo gostava de dizer tantas coisas sobre ele mesmo, os outros e tantos e tamanhos. Ia de romances, aventuras, mist\u00e9rios. Que, para lhes ser sincero, n\u00e3o raras vezes seus interlocutores &#8211; entre os quais me incluo, para o bem ou para o mal &#8211; n\u00e3o sabiam se ele era ele ou se era uma das tantas hist\u00f3rias que contava\/inventava&#8230;<\/p>\n<p>Pois esse homem, creiam, um dia me disse que era capaz de se transformar em can\u00e7\u00e3o. Eu sei, voc\u00eas podem estar me achando maluco &#8211; e reconhe\u00e7o que n\u00e3o ser\u00e3o os primeiros, nem os \u00fanicos -, mas, s\u00f3 estou vendendo o peixe como comprei. Se quiserem, posso parar por aqui?<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>T\u00e1 bom. Ent\u00e3o, eu continuo&#8230;<\/p>\n<p>Como voc\u00eas, relutei em acreditar. Mas, deixei &#8211; ali\u00e1s, como voc\u00eas est\u00e3o fazendo agora &#8211; que a pedra da conversa rolasse, morro abaixo, para ver o estrago que causaria l\u00e1 em baixo. Mesa de bar \u00e9 zona franca. Ou n\u00e3o seria propriamente um bar onde est\u00e1vamos? Deixa pra l\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>E ele me contou como se dava o milagre&#8230;<\/p>\n<p>Eram necess\u00e1rias algumas conex\u00f5es. Um naco de saudades. Outro tanto \u201cde bons ou maus momentos intensamente vividos\u201d, essas coisas que se sente quando vem aquele abestalhamento natural dos apaixonados. Ele, por exemplo, estava h\u00e1 uns dois meses sem ver a mulher amada. Foi o que me disse e eu acreditei. Verdade verdadeira que, aqui vai um particular meu, acho que a mo\u00e7a que n\u00e3o sei quem \u00e9 faz muito bem de correr daquele mala. Mas, voltemos ao nosso roteiro.<\/p>\n<p>Sem v\u00ea-la, ouvi-la ou emeia-la, mesmo assim o mo\u00e7o estava convicto. O fim n\u00e3o era o fim. Ainda n\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Era uma impress\u00e3o, mais do que uma verdade absoluta. Dessas que s\u00f3 os raros e privilegiados sabem manter vivas, intactas. Andava triste, tristinho. Mas, para n\u00e3o plagiar mais o personagem do Zeca Baleiro, at\u00e9 porque ele n\u00e3o achava t\u00e3o sem gra\u00e7a a top-model magrela na passarela, decidiu ir ao show do Benjor.<\/p>\n<p>&#8220;Para levantar o astral&#8221;, argumentou consigo mesmo e depois ali comigo ao narrar os fatos que se seguem&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Show do Benjor, voc\u00ea imagina, \u00e9 sempre uma celebra\u00e7\u00e3o \u00e0 alegria. Uma festa.<\/p>\n<p>Dif\u00edcil ouvir um estranho que falava em tom professoral, que bem conhe\u00e7o. Parece que estou a me ouvir&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; O Caetano (Velloso) j\u00e1 definiu Benjor como o maior poeta da m\u00fasica popular brasileira. Exagero de amigo, concordo. Mas, s\u00e3o divertidas e pontuam a melodia maravilhosamente . O ritmo e as palavras nos envolvem e arrastam, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Nunca havia pensado nisso. Portanto, n\u00e3o sabia o qu\u00ea dizer. Mas, sei l\u00e1 o porqu\u00ea, enquanto falava, a voz do homem e o lugar se transformavam. Melhor: o ambiente fora tomado por uma s\u00fabita onda de realismo fant\u00e1stico. Uma can\u00e7\u00e3o se espalhava. Solta. Suingada. Inebriante. A projetar sonhos e palavras que nunca me ocorreram. Mas, ops, me eram conhecidas&#8230;<\/p>\n<p>Ela vem chegando<br \/>\nE feliz vou esperando<br \/>\nA espera \u00e9 dif\u00edcil<br \/>\nMas eu espero cantando<\/p>\n<p>Seria o homem virando can\u00e7\u00e3o? Entre um verso e outro, ouvia a voz do homem &#8212; ou seria a minha? &#8212; a interpretar a letra em tom narrativo e coloquial, a seguir os pr\u00f3prios pensamentos&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Sabe, pensei em usar H mai\u00fasculo para narrar a nossa hist\u00f3ria. Mas achei exagero. Quem sabe se um de n\u00f3s ou os dois virarmos celebridade. Vai saber?<\/p>\n<p>Era como se ele (ou eu, sei l\u00e1) falasse \u00e0 mulher amada. E a m\u00fasica de novo, a girar. Que lugar \u00e9 esse? E essas pessoas que se divertem e cantam e dan\u00e7am?<\/p>\n<p>Pois uma flor \u00e9 uma rosa<br \/>\nUma rosa \u00e9 uma flor<br \/>\n\u00c9 um amor essa menina<br \/>\nEssa menina \u00e9 o meu amor<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>&#8212; Disse. Repeti. Falei dezenas de vezes. Somos todas as can\u00e7\u00f5es. Voc\u00ea n\u00e3o acreditou. E agora? Acredita? Essa, do Benjor, \u00e9 das antigas. No primeiro verso, voc\u00ea e eu. &#8220;Me espera?&#8221; E aqui ainda estou, com a sensa\u00e7\u00e3o que voc\u00ea veio ou est\u00e1 vindo \u2013 n\u00e3o, n\u00e3o voc\u00ea veio mesmo, mas pode voltar, fugir a qualquer momento. \u201cE se algu\u00e9m na balada me fizer rir?\u201d E toca eu explicar o inexplic\u00e1vel&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; A segunda estrofe \u00e9 quase um esclarecimento que o poeta nos faz. Ou seja, flor e rosa = a rosa e flor. Amor menina = menina amor&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o estou sabendo explicar todos esses parangol\u00e9s. Seria mais uma hist\u00f3ria do homem que gostava de contar hist\u00f3rias? Ou aquilo era uma casa de shows e eu ouvia a m\u00fasica e, em pensamento, dialogava comigo mesmo?<\/p>\n<p>&#8212; Somos assim. Assim que somos. Entendeu???<\/p>\n<p>Se a tal mo\u00e7a estivesse aqui, responderia de pronto: \u201cEntendi\u201d. E continuaria em sil\u00eancio. E ele (ou eu) sem nada entender. At\u00e9 porque ele ou eu, os diletos leitores ou seja quem for, ningu\u00e9m nada est\u00e1 entendendo de tanta, digamos, liberdade po\u00e9tica.<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea gosta do meu amor que tem um jeito especial. E eu tenho um jeito especial de amar voc\u00ea. Pelas conven\u00e7\u00f5es do tempo. Do vento. Da sociedade. Do \u00f3bvio. E dos iguais&#8230;<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Por isso e aquilo, voc\u00ea e eu (ou ele?) ou qualquer um, at\u00e9 o amigo leitor \u2013 j\u00e1 que chegou aqui agora \u00e9 considerado c\u00famplice &#8211; prefere ficar quieto no seu canto. Dormir num mundo onde essas alegorias n\u00e3o estivessem \u00e0 espreita. Quantas vezes, n\u00e3o preferimos fazer de conta que n\u00e3o \u00e9 com a gente. Melhor mesmo, \u00e9 sempre se auto-incluir fora dessas roubadas. Ou, no m\u00ednimo, dar uma \u201cescapadinha\u201d para sentimentos e pr\u00e1ticas que n\u00e3o nos envolvam por inteiro.<\/p>\n<p>Mas, \u00e9 inexor\u00e1vel. Ningu\u00e9m foge ao Destino&#8230;<br \/>\nN\u00f3s tamb\u00e9m, mesmo que por segundos, n\u00e3o escapamos. E fomos e seremos?<\/p>\n<p>Talvez&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Sempre disse que queria lhe contar a Hist\u00f3ria do mundo (agora sim com agaz\u00e3o)&#8230;<\/p>\n<p>Outra vez a voz, o pensamento, a can\u00e7\u00e3o. Se bem come\u00e7o a decifrar o enigma, a ess\u00eancia desta Hist\u00f3ria \u2013 que fique claro &#8211; \u00e9 o amor de um homem por uma mulher, pelo tempo que for e \u00e9. Sei que, a partir dessa alquimia, se chega a uma tal e t\u00e3o sonhada Felicidade, mas nos custa tanto.<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 um bem raro, para poucos. N\u00e3o sei porqu\u00ea \u2013 mas, certamente h\u00e1 um bom motivo \u2013 isto aconteceu com a gente desde a primeira hora. E vem sendo assim, a cada dia, mais assim. E que seja assim enquanto \u00e9&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; M\u00e1gico, misterioso, \u00fanico. Indiz\u00edvel aos olhos do mundo. Um tal Planeta Sonho onde o tempo \u00e9 apenas uma conven\u00e7\u00e3o. Existe o existir. Ser o que se \u00e9&#8230;<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>\u00c9 muito prov\u00e1vel que todo esse del\u00edrio seja mesmo conseq\u00fc\u00eancia de algum show do Benjor. J\u00e1 fui a dezenas deles vida afora. Desde que, aos dez, onze anos, pela primeira vez algu\u00e9m chamou a minha aten\u00e7\u00e3o para a levada diferente de um crioulo carioca, Jorge Du\u00edlio Lima de Meneses, que ent\u00e3o atendia pelo nome art\u00edstico de Jorge Ben. Suas letras singelas \u2013 e h\u00e1beis \u2013 falam de viv\u00eancias de todos n\u00f3s. E s\u00e3o eternas&#8230;<\/p>\n<p>Mas, \u00e9 ol\u00edmpica a sua beleza<br \/>\na alegria da minha tristeza.<\/p>\n<p>Bem, n\u00e3o vou perder tempo agora em analisar a obra benjorniana. J\u00e1 me perdi do homem que virou can\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tenho not\u00edcias da mo\u00e7a que o inspirou ou ao Benjor ou a mim. Daqui a pouco d\u00e1 um pane no computador e perco at\u00e9 esse devaneio em forma de cr\u00f4nica.<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>No fundo, no fundo, quero dizer que sempre estamos \u00e0 espera de algo, de uma emo\u00e7\u00e3o, um novo emprego, um projeto que nos entusiasme, uma causa nobre, um amanh\u00e3 que nos reinvente&#8230;<\/p>\n<p>Como dizem a can\u00e7\u00e3o, o poeta e a voz, a espera \u00e9 dif\u00edcil. Mas, o melhor \u00e9 esperar cantando. Ou sonhando. Inicialmente, a letra dizia &#8216;sambando&#8217;. Sei que os tempos s\u00e3o confusos, os sentimentos arredios. Mas, creiam, a esperan\u00e7a se renova a cada sorriso&#8230;<\/p>\n<p>VIII.<\/p>\n<p>De volta \u00e0 vida. \u00c0 sa\u00edda do espet\u00e1culo, ouvi \u2018o homem que virou can\u00e7\u00e3o\u2019 dizer para algu\u00e9m que n\u00e3o estava l\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Eu gostaria de apostar na gente. E voc\u00ea? Eu vou com voc\u00ea. Preferiria que fosse inteiro. Mas, tamb\u00e9m posso ser metade&#8230;<\/p>\n<p>Como ningu\u00e9m respondeu, o pr\u00f3prio completou:<\/p>\n<p>&#8212; Um beijo, Zazueira. Te espero \u2013 e quero \u2013 pelo tempo que for. Mas, n\u00e3o demora&#8230;<\/p>\n<p>E se perdeu no escuro do estacionamento. Caminhou, passo a passo, com o secreto prazer de quem est\u00e1 no controle e escreve corajosamente a pr\u00f3pria hist\u00f3ria. Com a mo\u00e7a ou sem. N\u00e3o tive d\u00favidas. Ele sempre saber\u00e1 enfeitar a vida com uma alegre trilha sonora&#8230;<\/p>\n<p>Assim \u00e9 Ben&#8230;<\/p>\n<p>Ou eu ou voc\u00ea. Que sejamos todos&#8230;<\/p>\n<p>Nota do Autor: Essa cr\u00f4nica foi descaramente baseado na m\u00fasica Zazueira que Benjor fez e Wilson Simonal consagrou antes da explos\u00e3o de Pa\u00eds Tropical, meados dos anos 60. Baseou-se tamb\u00e9m no mon\u00f3logo de Pedro Cardoso, Alto Falante, que narra a hist\u00f3ria de um homem que tem o h\u00e1bito de falar consigo mesmo. De tanto falar sozinho, n\u00e3o sabe se ele \u00e9 ele ou a pessoa com quem fala e discute a vida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>I.<\/p>\n<p>Ben \u00e9 assim&#8230;<\/p>\n<p>De som em som. 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