{"id":10413,"date":"2006-11-10T00:00:00","date_gmt":"2006-11-10T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T04:24:24","modified_gmt":"2017-09-14T04:24:24","slug":"novembro-eleicoes-e-carnaval","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/novembro-eleicoes-e-carnaval\/","title":{"rendered":"Novembro. Elei\u00e7\u00f5es e Carnaval"},"content":{"rendered":"<p>Meninos, eu vi&#8230;<br \/>\nJuro que vi&#8230;<br \/>\nE o que vi vou lhes contar&#8230;<\/p>\n<p>Foi h\u00e1 muitas e muitas elei\u00e7\u00f5es atr\u00e1s. Nos idos de 90, provavelmente. L\u00e1 estava eu, intr\u00e9pido rep\u00f3rter, a cobrir um desses ensaios de escola de samba em que tudo pode acontecer, inclusive nada acontecer. Era a tal noite que a Diretoria escolhe o melhor samba, o melhor enredo, a melhor mulata&#8230;<\/p>\n<p>Nessas ocasi\u00f5es, a escola arranja um convidado especial. Que, ali\u00e1s, \u00e9 comum arcar com todo custo da festa, inclusive o da contrata\u00e7\u00e3o do show de sambistas, como Leci Brand\u00e3o.<\/p>\n<p>E aqui cabe um parenteses.<\/p>\n<p>Houve uma \u00e9poca em que o pessoal das escolas de samba adorava levar a Leci Brand\u00e3o para fazer o &#8220;esquenta&#8221; da noitada. O motivo era simples. Ela era comentarista dos desfiles para a TV Globo. Quando a escola passava, era inevit\u00e1vel o recado da mo\u00e7a saudando a comunidade: &#8220;Um abra\u00e7o para o cumpadre Fulano, para a comadre Sicrana e para Sinh\u00e1 Bletrana, chefe da ala das baianas dos Acad\u00eamicos de Canga\u00edba\u201d.<\/p>\n<p>Um del\u00edrio. Quem era citado pela comadre Leci virava celebridade nacional, ao vivo e em cores.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Voltemos \u00e0 trama, pois&#8230;<\/p>\n<p>Era in\u00edcio de novembro, \u00e0s v\u00e9speras de mais uma elei\u00e7\u00e3o, realizada sempre no dia 15, feriado da Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica. Fazia um frio de incomodar esquim\u00f3. Mesmo assim, n\u00e3o demorou e quem chegou? Ora o convidado especial: o Sr. Candidato a Deputado Estadual a bordo de um Opala preto e de uma camisa maneira, toda florida, dessas t\u00edpicas dos freq\u00fcentadores dos bailes do Hawa\u00ed. Uma breve avalia\u00e7\u00e3o e n\u00e3o erraria quem dissesse que tanto o Opala como a &#8220;estampada&#8221; j\u00e1 haviam virado os 100 mil quil\u00f4metros rodados.<\/p>\n<p>Chegaram ele e seu brancale\u00f4nico staff de cumpinchas a distribuir &#8220;santinhos&#8221; e calend\u00e1rios. Quanta alegria! Que noite, prometia ser aquela&#8230;<\/p>\n<p>Pouco mais de 22 horas. A quadra lotada de gente. Todos animad\u00edssimos.<\/p>\n<p>O baticum comia solto. De 15 em 15 minutos, entre uma leva e outra de sambas absurdamente iguais, o locutor (vou chama-lo de Sr. Apresentador porque \u00e9 meu conhecido e n\u00e3o quero encrenca) anunciava ali a presen\u00e7a da ilustre futura autoridade e prometia: &#8220;Daqui a alguns instantes, o Sr. Candidato vai anunciar os projetos que bancar\u00e1 para levar nossa gloriosa escola ao Grupo Especial do carnaval paulistano&#8221;.<\/p>\n<p>Em campanha eleitoral, o exagero \u00e9 praxe&#8230;<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>O homem era s\u00f3 sorrisos. Mas, aos poucos, foi murchando. O tempo passava e passava \u2013 e nada de ele falar.<\/p>\n<p>Eram duas da manh\u00e3, e nada. A situa\u00e7\u00e3o permanecia inalterada. Samba, suor, cerveja e, de 15 em 15 minutos, o locutor dava o recado: &#8220;Em poucos instantes, o Sr. Candidato a deputado patati e patata&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Duas e trinta, duas e quarenta e cinco, tr\u00eas da matina&#8230;<\/p>\n<p>O pessoal da Escola j\u00e1 estava pra l\u00e1 de tr\u00eabado. O desafortunado sorria e ainda amea\u00e7ava uns passinhos tr\u00f4pegos. Mas, os olhos ca\u00eddos denunciavam um sono daqueles a lhe rondar o corpo e a alma. O locutor firmava o pacto: &#8220;Em poucos instantes, o Sr. Candidato&#8230; &#8220;.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Percebi que havia um certo descompasso. Ele estava ali h\u00e1 horas e horas. E nada. Pior foi o que, na falta de outro interlocutor de confian\u00e7a, o homem me confidenciou: o Sr. Apresentador era amigo do Sr. Candidato. Inclusive jogavam futebol juntos e tal e cousa e lousa.<\/p>\n<p>&#8212; P\u00f3, ser\u00e1 que esse (&#8230;) esqueceu que estou aqui?<\/p>\n<p>(Repito este \u00e9 um site fam\u00edlia, n\u00e3o ouviremos\/leremos palavr\u00f5es. Prezamos a verdade, mas temos nossas regras.)<\/p>\n<p>&#8212; Por que o Sr. Candidato n\u00e3o sobe ao palco e acaba com essa espera. Fale r\u00e1pido e pronto. \u00c9 s\u00f3 um lance de escadas &#8212; disse de enxerido que sou.<\/p>\n<p>Foi o que o homem fez&#8230;<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Num ato de coragem e ousadia, o Sr. Candidato foi &#8216;peitar&#8217; o Sr. Apresentador em nome inclusive da velha amizade e das tabelas \u00e1geis que faziam no campo de so\u00e7aite do Clube Atl\u00e9tico Ypiranga, defendendo as cores do n\u00e3o menos nobre Sucat\u00e3o.<\/p>\n<p>(Ops, estou igual carteiro b\u00eabado, entregando tudo errado.)<\/p>\n<p>Corri para ver a cena. E foi inesquec\u00edvel&#8230;<\/p>\n<p>O Sr. Apresentador estava atr\u00e1s do palco, visivelmente &#8216;passado&#8217;. Ali\u00e1s, o que n\u00e3o faltava, al\u00ed, nos bastidores, eram garrafas, devidamente esvaziadas&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Oh, meu. Se \u00e9 para falar, deixa eu falar logo. Todo mundo j\u00e1 me viu. Cumprimentei a todos. S\u00f3 falta saberem que o candidato sou eu. Me passa o microfone e vamos para o palco.<\/p>\n<p>Quando o Sr. Apresentador viu o Sr. Candidato arregalou um olhar de surpresa. Sacudiu a cabe\u00e7a, como se encarasse uma assombra\u00e7\u00e3o. Logo, fincou um largo sorriso de quem rev\u00ea um velho e querido pra\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8212; \u00d4 amig\u00e3o, que beleza, voc\u00ea aqui, cara! Quer desfilar, quer?<\/p>\n<p>Um balde de \u00e1gua gelada numa noite fria. Todas as fichas ca\u00edram em todos os &#8216;orelh\u00f5es&#8217; da cidade. O Sr. Candidato desistiu de falar &#8212; e dos votos que soube, no mesmo instante, daquele fuzu\u00ea n\u00e3o viriam.<\/p>\n<p>Olhou pra mim e teve um rasgo de sinceridade.<\/p>\n<p>&#8212; Meu caro rep\u00f3rter, o Sr. Apresentador \u00e9 meu amigo de longa data e gritou centenas de vezes o meu nome. Agora, se ele que \u00e9 ele n\u00e3o estava prestando aten\u00e7\u00e3o no que dizia, imagine o resto do pessoal que nunca soube (nem saber\u00e1) da minha exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Fiquei com pena do Sr. Candidato. Quase pego um \u2018santinho\u2019 daqueles que os amigos distribu\u00edam. Assim a noite n\u00e3o seria de todo perdida. N\u00e3o deu tempo. Escafederam-se r\u00e1pidos. Mesmo assim, conclui sobre a hist\u00f3rica cena:<\/p>\n<p>\u2013 O cara n\u00e3o vai se eleger. N\u00e3o \u00e9 do ramo. Nunca vi pol\u00edtico algum, eleito ou n\u00e3o, ter rasgos de sinceridade?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meninos, eu vi&#8230;<br \/>\nJuro que vi&#8230;<br \/>\nE o que vi vou lhes contar&#8230;<\/p>\n<p>Foi h\u00e1 muitas e muitas elei\u00e7\u00f5es atr\u00e1s. Nos idos de 90, provavelmente. 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