{"id":10423,"date":"2006-11-18T00:00:00","date_gmt":"2006-11-18T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T04:22:51","modified_gmt":"2017-09-14T04:22:51","slug":"dois-dos-nossos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/dois-dos-nossos\/","title":{"rendered":"Dois dos nossos&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>Diguinho e Escova, dois dos nossos diletos, estavam ali a chorar o leite derramado. Choravam tamb\u00e9m uma baita ironia do destino&#8230;<\/p>\n<p>Aquele boteco onde o Sacom\u00e3 torce o rabo, no cruzamento da rua Bom Pastor com a rua Greenfeld, em frente a ag\u00eancia dos Correios, era nosso ponto de encontro. <\/p>\n<p>Acontecesse o que acontecesse. Sol ou chuva, alegria ou tristeza. Pass\u00e1vamos l\u00e1 todos os dias para bater o ponto e principalmente ouvir o guru Nasci filosofar, a bordo do seu indefect\u00edvel cachimbo, enquanto os \u00f4nibus F\u00e1brica-Pinheiros abriam o bico na curva para n\u00e3o atropelar incautos e mulambentos. <\/p>\n<p>Todo uma margin\u00e1lia tosca e inofensiva vivia por ali a dar cor, hist\u00f3rias e folclore ao lugar e a n\u00f3s, disc\u00edpulos fi\u00e9is e amigos do mais famoso de seus convivas. Claro que estou falando do Nasci&#8230;<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Mas, como dizia, Diguinho e Escova choravam, a bem da verdade, a perda do que consideravam &quot;o grande amor da minha (deles) vida&quot;.<\/p>\n<p>Cada um, cada um &#8211; vale a pena ressaltar. Mas, ambos tanto fizeram, tanto abusaram da regra tr\u00eas, tanto chamaram Jesus de Gen\u00e9sio de tr\u00eabados que viviam, que um dia aconteceu. As disitintas e mui amadas noivas esgotaram toda a cota de paci\u00eancia e deram um chega pra l\u00e1 nos dois.<\/p>\n<p>Algumas semanas de diferen\u00e7a, mas o fato \u00e9 que um depois do outro aportaram por ali pedindo arrego, apatetados e avulsos. <\/p>\n<p>No princ\u00edpio, \u00e9 bom que se diga, fingiram ignorar o solene pontap\u00e9 no traseiro que bem receberam. Diziam-se livres e cousa e lousa e mariposa, sempre regadas a cerveja e uns goles de staineger para rebater.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>A coisa encrespou aos poucos. Mas, curioso, sempre em dupla. Tivemos not\u00edcias que as mo\u00e7as haviam arranjado namorados &#8211; mo\u00e7os s\u00e9rios, trabalhadores, desses que d\u00e3o sentido \u00e0 vida e n\u00e3o perdem tempo em conversa fiada e m\u00e1s companhias. Parecia coisa feita por alguma m\u00e3e de santo, protetora das mo\u00e7as casadoiras. <\/p>\n<p>N\u00e3o os abandonamos. Demos toda for\u00e7a para os rapazes que ensaiavam um choror\u00f4. Mas, cuidamos, a mando do Nasci, de n\u00e3o esticar a corda com as nossas dign\u00edssimas. Cautela e caldo de galinha, \u00f3&#8230;.<\/p>\n<p>&#8212; A bruxa est\u00e1 solta &#8211; profetizou.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>E estava mesmo. \u00c0 boca pequena, come\u00e7ou a circular a not\u00edcia que Deolinda, a ex do Escova, havia marcado a data do casamento. Evitamos comentar na frente do amigo, mas fizemos l\u00e1 as nossas patacoadas. <\/p>\n<p>&#8212; O Escova, voc\u00ea vai jogar domingo? <\/p>\n<p>&#8212; Onde \u00e9?<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 no Uni\u00e3o M\u00fatua. Pode ir tranq\u00fcilo, \u00e9 futebol de campo.<\/p>\n<p>&#8212; Beleza&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Se fosse futebol de sal\u00e3o em gin\u00e1sio coberto, a gente n\u00e3o lhe chamaria&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; U\u00e9, por qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8212;  Os chifres, companheiro. Os chifres iriam enroscar no teto&#8230;<\/p>\n<p>Amigos, amigos, piadas \u00e0 parte&#8230;<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Outra not\u00edcia triste Quest\u00f5es de dias mesmo, soubemos que Belinha, a ex do Diguinho, babau&#8230; Tamb\u00e9m estava de data marcada para o cas\u00f3rio. E a\u00ed o Sr. Destino resolveu &quot;zuar&quot; &#8211; como diz meu sobrinho-neto Renatinho. As duas casariam em igrejas diferentes, mas na mesma data. Lembro bem o dia e a cara dos amigos: 15 de setembro&#8230;<\/p>\n<p>E agora, h\u00e1 dois dias do cas\u00f3rio, estavam ali os dois, insuportavelmente b\u00eabados e chorosos&#8230;<\/p>\n<p>Era uma quinta-feira abrasada (gostaram?). Fizera um baita sol o dia todo e a noite estava estalando de boa para o pessoal derrubar todas. Mas, aqueles dois malajambrados, ali, num canto da mesa, a se debulhar em l\u00e1grimas, cortavam o barato de todos. <\/p>\n<p>Ou quase todos&#8230;<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Nasci resolveu dar um fim naquilo. Para ele, n\u00e3o havia sentido nenhum.<\/p>\n<p>&#8212; Escova, velho. Diguinho, voc\u00ea \u00e9 quase um filho pra mim. Vamos acertar os ponteiros pra n\u00e3o perder a hora, o bonde e a esperan\u00e7a. Por que voc\u00eas est\u00e3o chorando?<\/p>\n<p>Fez-se um sil\u00eancio sepulcral no boteco e adjac\u00eancias. Creio mesmo que nem os \u00f4nibus ousaram estrebuchar na curva. Passavam de fininho, na ponta dos pneus&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; \u00d4 Nasci!!! &#8211; responderam em coro, com exclama\u00e7\u00e3o e tudo. <\/p>\n<p>&#8212; A Deolinda&#8230; &#8211; a voz do Escova mal se ouvia entrecortada pelos solu\u00e7os.<\/p>\n<p>&#8212; A Belinha, as duas&#8230; v\u00e3o casar s\u00e1bado, entende? &#8211; disse Diguinho, socorrendo o amigo de infort\u00fanio, num rasgo de dor.<\/p>\n<p>&#8212; E da\u00ed? <\/p>\n<p>\u00c0s vezes, o Nasci parecia n\u00e3o ter cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; P\u00f4, Nasci&#8230; &#8211; era Diguinho, o quase filho, que insistia, tipo respeitem a minha tristeza.<\/p>\n<p>&#8212; P\u00f4, Nasci, o caramba. Caras, acordem&#8230; S\u00e1bado, as princesas e os pr\u00edncipes s\u00f3 v\u00e3o assinar o papel. O que tinha de acontecer, meus considerados, desculpem a franqueza, mas j\u00e1 aconteceu. E vou dizer o \u00f3bvio dos \u00f3bvios: n\u00e3o doeu nada em voc\u00eas e elas, pelo jeito e de todos os jeitos, gostaram&#8230;<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>E foi assim que, nesta triste noite divertida, rimos a valer, bebemos outro tanto &#8211; inclusive os dois not\u00e1veis &#8211; e o Sacom\u00e3 escapou de se transformar num vale de l\u00e1grimas&#8230;<\/p>\n<p>Um reparo.<br \/>\nEu os acompanhava diariamente, mas bebendo coca light&#8230;<br \/>\n\u00c9 minha sina.<\/p>\n[Texto publicado no livro &quot;Meus Caros Amigos \u2013 Cr\u00f4nicas sobre jornalistas, bo\u00eamios e paix\u00f5es&quot;]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diguinho e Escova, dois dos nossos diletos, estavam ali a chorar o leite derramado. 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