{"id":10424,"date":"2006-11-18T00:00:00","date_gmt":"2006-11-18T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2018-03-28T23:09:55","modified_gmt":"2018-03-28T23:09:55","slug":"a-estrela-vermelha-ainda-nao-se-apagou","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-estrela-vermelha-ainda-nao-se-apagou\/","title":{"rendered":"A \u2018Estrela Vermelha\u2019 ainda n\u00e3o se apagou"},"content":{"rendered":"<p>A TRAJET\u00d3RIA DE TAIGUARA E A RELA\u00c7\u00c3O COM A M\u00cdDIA<\/p>\n<p>Por P\u00e2mela Lee Hamer<\/p>\n<p>\u201cHoje<br \/>\nAs minhas m\u00e3os enfraquecidas e vazias<br \/>\nProcuram nuas pelas luas, pelas ruas<br \/>\nNa solid\u00e3o das noites frias por voc\u00ea \u201c.<\/p>\n<p>A voz suave era uma constante na programa\u00e7\u00e3o das r\u00e1dios do eixo Rio-S\u00e3o Paulo. Cantava a ang\u00fastia t\u00edpica da juventude do final dos anos 60 e in\u00edcio dos 70. Falava de perda e de uma procura infinita na delicada letra da can\u00e7\u00e3o \u201cHoje\u201d. Os versos que faltavam para consagrar o cantor e compositor, Taiguara Charlar da Silva, como um grande nome da ent\u00e3o efervescente m\u00fasica popular brasileira. E ainda hoje, o m\u00fasico \u00e9 uma refer\u00eancia para os amigos e f\u00e3s.<\/p>\n<p>Um deles \u00e9 Cl\u00f3vis Monteiro, Duduka. O jornalista nunca se esqueceu de como o cantor foi aclamado na fase rom\u00e2ntica. \u201cEntre 1960 e 70, Taiguara era como um Roberto Carlos para a \u00e9poca\u201d, diz.<\/p>\n<p>O prest\u00edgio do m\u00fasico tamb\u00e9m foi percebido pelos produtores e diretores. Filmes como \u201cO Bol\u00e3o\u201d e \u201cCr\u00f4nica da Cidade Amada\u201d, com Billy Blanco, Blecaute e Grande Otelo, estavam no caminho do poeta entre 1966 e 1967. Mas alguns cr\u00edticos e m\u00fasicos nem sempre viam, no estilo rom\u00e2ntico do artista, um talento a ser exaltado. Para eles, can\u00e7\u00f5es de amor beiravam a aliena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os amigos e f\u00e3s de Taiguara n\u00e3o se intimidavam. Espalhavam aos quatro ventos que gostar do artista, uruguaio de nascen\u00e7a, representava bom gosto musical.<\/p>\n<p>O ARTISTA PELA OBRA<\/p>\n<p>\u201cJunto ao Morro da Coroa, dois mundos:<br \/>\no mundo do samba na rua e o mundo<br \/>\ndo tango em casa, que rapidamente se<br \/>\nfez samba-can\u00e7\u00e3o\u201d.<br \/>\n(Taiguara, sobre os tempos em que vivia<br \/>\nem Santa Tereza \u2013 RJ).<\/p>\n<p>Taiguara j\u00e1 nasceu com a m\u00fasica no sangue. Em 9 de outubro de 1945, ainda beb\u00ea, dormia ao som de composi\u00e7\u00f5es populares do av\u00f4, Glaciliano Correia da Silva. O pai, Ubirajara Silva, completava com o bandoneon. E a m\u00e3e, Olga Charlar, s\u00f3 para variar, cantava, em espanhol.<\/p>\n<p>Aos quatros anos, veio morar no Rio de Janeiro. E sua integra\u00e7\u00e3o foi tanta, que lhe valeu o apelido de \u201cCarioca\u201d. Aos 15 anos, mudou-se para S\u00e3o Paulo. Tinha decidido estudar Direito na Universidade Mackenzie. A \u00faltima mulher do compositor, Ana Lasevicius, acredita que foi por influ\u00eancia do nome. \u201cO nome Taiguara veio do livro Ubirajara. Significa, na origem, livre senhor de si e, na ess\u00eancia, representa um diplomata\u201d, afirma.<\/p>\n<p>A paix\u00e3o pela diplomacia n\u00e3o durou muito: depois de dois anos, Taiguara abandonou a faculdade. Tempo suficiente para organizar e participar de festivais universit\u00e1rios, como o Mac-Dam de Jograis. Jogo do destino para que conhecesse Vin\u00edcius de Morais, Toquinho e Chico Buarque.<\/p>\n<p>O jornalista Assis \u00c2ngelo era rep\u00f3rter da Folha de S. Paulo quando foi fazer uma mat\u00e9ria sobre o novo nome do cen\u00e1rio musical brasileiro: Taiguara. Entre conversas e depoimentos, come\u00e7ava ali uma amizade. \u201cUm dia, ele foi \u00e0 minha casa, e minha mulher era \u201capaixonada\u201d por ele. At\u00e9 aut\u00f3grafo ela pediu\u201d, conta Assis.<\/p>\n<p>A conviv\u00eancia com o m\u00fasico possibilitou ao comunicador conhecer mais sobre a personalidade do artista, inclusive sobre a participa\u00e7\u00e3o em shows universit\u00e1rios. \u201cEle participou muito de festivais, mas dizia que queria ir al\u00e9m\u201d, destaca o jornalista.<\/p>\n<p>O \u201calgo mais\u201d n\u00e3o demorou muito. Ao 18 anos, o \u201cCarioca\u201d passou a cantar no Sebasti\u00e3o Bar. A ponte para que a Polygram visse o seu talento e o contratasse. O primeiro LP foi gravado em 1965.<\/p>\n<p>No mesmo ano, participou do show Primeiro Tempo 5 x 0, de Miele e Ronaldo Boscoli. Ao lado de Claudete Soares e do Jongo Trio, ganhou o primeiro lugar como int\u00e9rprete. A m\u00fasica era nada menos que \u201cHelena, Helena, Helena\u201d:<\/p>\n<p>\u201cTalvez,&#8230;um dia<br \/>\nPor descuido ou fantasia<br \/>\nHelena,&#8230;Helena, Helena<br \/>\nNos meus bra\u00e7os debru\u00e7ou\u201d.<\/p>\n<p>Taiguara e os f\u00e3s n\u00e3o sabiam, mas tudo estava prestes a mudar.<\/p>\n<p>E O C\u00c9U FICOU CINZA<\/p>\n<p>\u201cPaci\u00eancia e coragem<br \/>\nseguem a mesma viagem\u201d<br \/>\n(Taiguara)<\/p>\n<p>Em 1968, o sol parecia brilhar menos para os brasileiros. Botas, quepes e cintur\u00f5es com armas representavam a marca dos \u201cescolhidos\u201d. Os militares detinham o poder e decidiam o que a popula\u00e7\u00e3o podia saber, dentre abusos de autoridade, torturas, ex\u00edlios e jogos esportivos, como a Copa de 70.<\/p>\n<p>Como no Brasil, algo tamb\u00e9m havia mudado em Taiguara. As m\u00fasica rom\u00e2nticas n\u00e3o faziam mais sentido para ele. Ent\u00e3o, o poeta decidiu fazer composi\u00e7\u00f5es mais engajadas politicamente. Com o \u00e1lbum \u201cA Ilha\u201d, de 71, come\u00e7avam os problemas com a censura.<\/p>\n<p>A segunda esposa do cantor, Eliane Potiguara, presenciou as persegui\u00e7\u00f5es. \u201cReceb\u00edamos telefonemas, cartas an\u00f4nimas, e isso desestabilizava a nossa fam\u00edlia\u201d, diz a escritora e professora ind\u00edgena.<\/p>\n<p>Uma das filhas do casal, Mo\u00edna Potiguara, tamb\u00e9m se lembra do quanto o pai sofreu com a ditadura. \u201cEle teve 68 m\u00fasicas proibidas, o que o impediu de dar continuidade ao seu trabalho no Brasil\u201d, fala Mo\u00edna.<\/p>\n<p>Pela press\u00e3o da ditadura, os m\u00fasicos se comunicavam por meio de m\u00fasicas. Enquanto Taiguara cantava \u201cUniverso do Teu Corpo\u201d (Eu desisto \/ N\u00e3o existe essa manh\u00e3 que eu perseguia), por exemplo, Raul Seixas respondia com \u201cTente Outra Vez\u201d.<\/p>\n<p>Sem resultados concretos e por n\u00e3o se conformar com a situa\u00e7\u00e3o do Brasil, Taiguara partiu para o auto-ex\u00edlio. Eliane acredita que foi a maneira que ele encontrou para n\u00e3o deixar para tr\u00e1s o que acreditava. \u201cComo um rinoceronte que possui o caso duro e amadurecido, nunca desistiu de sua ideologia e patriotismo, ressalta<\/p>\n<p>BUSCA PELA IDENTIDADE<\/p>\n<p>\u201cEm 73 eu parei de cantar em p\u00fablico<br \/>\ne me comprometi a s\u00f3 voltar quando<br \/>\nhouvesse menos censura e mais direito<br \/>\npara os trabalhadores da minha sofrida<br \/>\nTerra das Palmeiras. Fui embora.<br \/>\nFui indo. Europa e \u00c1frica me<br \/>\nfizeram amer\u00edndio\u201d.<br \/>\n(Taiguara)<\/p>\n<p>Em 71, estudou um ano e meio na escola de M\u00fasica Guidhall. O m\u00fasico ingl\u00eas Paul Nieman trabalhou com o compositor durante essa fase, e considera essa uma etapa decisiva na vida do cantor. \u201cFoi importante para suas composi\u00e7\u00f5es se tornarem mais ousadas e desafiadoras\u201d, observa ele.<\/p>\n<p>Em maio de 76, no Rio Grande do Sul, o show de lan\u00e7amento do \u00e1lbum Ymira, Tayra, Ipy, que contaria com a participa\u00e7\u00e3o de Hermeto Pascoal, Ubirajara Silva, Toninho Horta e Novelli, foi cancelado. Mais uma vez Taiguara partia para um novo ex\u00edlio. Esteve em Paris (1976), Tanz\u00e2nia e Eti\u00f3pia (1978).<\/p>\n<p>Para Duduka, os auto-ex\u00edlios eram a vontade de buscar a pr\u00f3pria identidade. \u201cTaiguara sentia necessidade de saber quem ele era na origem, por isso, foi estudar l\u00ednguas e caminhou para a \u00c1frica\u201d, completa. A contempla\u00e7\u00e3o das id\u00e9ias marxistas-leninistas lhe valeu o apelido de \u201cEstrela Vermelha\u201d.<\/p>\n<p>Por declarar o que pensava, o poeta pagou um pre\u00e7o bem caro. A partir do primeiro auto-ex\u00edlio, foi esquecido pela m\u00eddia e por alguns f\u00e3s. De 1983 a 1994, ficou sem gravar uma s\u00f3 m\u00fasica. Para Eliane, a m\u00eddia n\u00e3o entendeu o que \u201cCarioca\u201d quis mostrar. \u201cOs jornalistas que iam \u00e0 nossa casa deturpavam as suas palavras na imprensa, ignoravam a ess\u00eancia de sua nova filosofia e o achavam transtornado\u201d, revela a educadora.<\/p>\n<p>ACEITA\u00c7\u00c3O PELOS SEUS PARES<\/p>\n<p>Taiguara tamb\u00e9m nem sempre foi compreendido por outros m\u00fasicos. Os bossa-novistas, como Jo\u00e3o Gilberto, o adequavam como \u2018moderno demais\u2019 para a \u00e9poca (1965-1975).<\/p>\n<p>Na vis\u00e3o do maestro Chico de Moraes, manter uma certa dist\u00e2ncia de Taiguara era como estabelecer um patamar seguro para n\u00e3o cair no abismo da loucura. \u201cO sucesso dele, para n\u00f3s que vivemos nesse meio, \u00e9 um alerta\u201d, assume.<\/p>\n<p>A cantora Claudete Soares tem uma percep\u00e7\u00e3o diferente de Moraes. \u201cO que o destruiu e tamb\u00e9m a outros cantores, como Elis Regina, foi o talento porque talento demais incomoda\u201d,afirma.<\/p>\n<p>No entanto, o compositor n\u00e3o viveu s\u00f3 de cr\u00edticas. Chico Buarque nunca escondeu que sempre gostou do m\u00fasico e de suas composi\u00e7\u00f5es. Em entrevista a Jorge Cunha Lima em 1979, Chico ressalta sua admira\u00e7\u00e3o. \u201cCheguei a tocar (no Jo\u00e3o Sebasti\u00e3o Bar), mas foi o Taiguara quem conseguiu um contrato. Ele ganhava cinco cruzeiros por noite, e eu achava fascinante algu\u00e9m ganhando para tocar\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Rita Ruschel, jornalista especializada em m\u00fasica popular brasileira, e Vanda Helena Machado, radialista, s\u00e3o outras duas f\u00e3s do poeta uruguaio. As profissionais t\u00eam muitas id\u00e9ias diferentes quanto ao m\u00fasico, mas concordam em um aspecto. \u201cAt\u00e9 agora, n\u00e3o apareceu ningu\u00e9m com o talento dele\u201d, ressaltam.<\/p>\n<p>ENTRE AS RA\u00cdZES AFRICANAS E A TERRA DO SOL NASCENTE<\/p>\n<p>\u201cHoje a minha pele j\u00e1 n\u00e3o tem cor<br \/>\nVivo a minha vida, seja onde for\u201d.<br \/>\n(\u201cTeu sonho n\u00e3o acabou\u201d \u2013 \u201cBrazil-Afri\u201d)<\/p>\n<p>Quase no final da vida, o m\u00fasico j\u00e1 estava bem mais relaxado quanto \u00e0 conduta pol\u00edtica. Mas era tarde para recuperar o tempo perdido. Assim, aproveitou para estudar Jornalismo. O \u00faltimo \u00e1lbum \u201cBrazil Afri\u201d, de 1994, foi todo direcionado aos difusores da not\u00edcia. O pr\u00f3ximo trabalho de Taiguara seria dedicado ao samba carioca, com regrava\u00e7\u00f5es de Noel Rosa e Paulo Cesar Pinheiro. Sonho interrompido por um c\u00e2ncer na bexiga, que lhe arrancou o fio da vida em 14 de fevereiro de 1996, aos 50 anos.<\/p>\n<p>Mas a \u201cEstrela Vermelha\u201d ainda n\u00e3o se apagou. Existe uma campanha de repatriamento, conduzida por Cl\u00f3vis Monteiro, Ana Lasevicius e uma das filhas do cantor, Ymira Silva, para recuperar a obra dele. A motiva\u00e7\u00e3o foi o relan\u00e7amento, em 2002, do disco Tayra, Imira Ipy, no Jap\u00e3o.<\/p>\n<p>Para o jornalista Ricardo Schott, al\u00e9m da campanha, \u00e9 necess\u00e1ria uma postura mais ativa das gravadoras brasileiras. \u201cFoi uma bobeada n\u00e3o terem relan\u00e7ado o disco em algumas das s\u00e9ries de relan\u00e7amentos, at\u00e9 porque foram reeditados discos bem menos comerciais\u201d, explica.<\/p>\n<p>J\u00e1 para Assis \u00c2ngelo, \u201cquem d\u00e1 identidade ao Pa\u00eds \u00e9 o povo\u201d. Assim, \u00e9 preciso que a popula\u00e7\u00e3o perceba o que realmente importa e cuide do que faz parte da sua cultura, distuinguindo o que \u00e9 fato ou presen\u00e7a na m\u00eddia. S\u00f3 assim Taiguara e outros artistas de representatividade poder\u00e3o ser lembrados no futuro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A TRAJET\u00d3RIA DE TAIGUARA E A RELA\u00c7\u00c3O COM A M\u00cdDIA<\/p>\n<p>Por P\u00e2mela Lee Hamer<\/p>\n<p>\u201cHoje<br \/>\nAs minhas m\u00e3os enfraquecidas e vazias<br \/>\nProcuram nuas pelas luas,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-10424","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uns-e-outros"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10424","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10424"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10424\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18546,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10424\/revisions\/18546"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10424"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10424"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10424"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}