{"id":10437,"date":"2006-11-27T00:00:00","date_gmt":"2006-11-27T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:59:58","modified_gmt":"2017-09-15T19:59:58","slug":"ismael-peninha-e-caetano","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/ismael-peninha-e-caetano\/","title":{"rendered":"Ismael, Peninha e Caetano"},"content":{"rendered":"<p>Para o grande p\u00fablico, o cantor e compositor Peninha apareceu em 76 ou 77, se bem me lembro. Veio com o romantismo exacerbado de &quot;Sonhos&quot;, um sucesso extraordin\u00e1rio. Tocou direto no r\u00e1dio, mesmo com a pecha de &quot;brega&quot; &#8211; \u00e0 \u00e9poca, se dizia &quot;cafona&quot;, &quot;bokomoko&quot;&#8230;<\/p>\n<p>Certa tarde, o amigo e colunista de TV, Ismael Fernandes, chegou todo lampeiro \u00e0 Reda\u00e7\u00e3o. Acabara de conhecer o artista que, por sinal, morava perto da sua casa, entre os bairros do Ipiranga e Vila Prudente. Prestativo como de h\u00e1bito, Isma n\u00e3o se acanhou em marcar uma entrevista exclusiva para o jornal em que trabalh\u00e1vamos. <\/p>\n<p>O saudoso amigo era uma figura \u00fanica, de dedica\u00e7\u00e3o e afeto.<\/p>\n<p>&#8212; Agora, \u00e9 s\u00f3 voc\u00ea confirmar por telefone, lembrou-me ao deixar sobre minha mesa um recorte de papel amarfanhado com o n\u00famero.<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea, est\u00e1 me tirando, n\u00e9? &#8211; respondi visivelmente contrariado. <\/p>\n<p>Escrevia sobre MPB &#8212; e, por vezes, me fazia purista demais no assunto. De resto, reconhe\u00e7o que o \u2018pavio curto\u2019 herdei dos meus av\u00f3s paternos, vindos da Cal\u00e1bria, sul da It\u00e1lia. Mas tenho melhorado consideravelmente&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Como assim? \u2013 devolveu um estupefato Ismael, sempre t\u00e3o generoso.<\/p>\n<p>&#8212; O Pa\u00eds vive um momento de transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica. Gil, Caetano, Chico, Milton, Elis. Tanto trabalho novo na pra\u00e7a, e voc\u00ea quer que eu saia atr\u00e1s do Peninha. Me poupe!<\/p>\n<p>\u00d3bvio que entramos numa discuss\u00e3o in\u00f3cua sobre arte e cultura, novelas, vanguardas, fun\u00e7\u00e3o social do jornalismo e quetais. Coisa t\u00edpica de uma reda\u00e7\u00e3o dos anos 70, onde tudo era motivo de pol\u00eamica e alterca\u00e7\u00f5es.  No fim, salvavam-se todos em alguma mesa de bar noite adentro. Neste caso, o pr\u00f3prio Ismael se responsabilizou pela reportagem que, verdade seja dita, teve \u00f3tima aceita\u00e7\u00e3o entre os leitores e na pr\u00f3pria editoria do jornal.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Anos depois, estou politicamente correto entre os espectadores do show de Caetano Veloso no Pal\u00e1cio das Conven\u00e7\u00f5es do Anhembi. Como sempre, esperava \u00e1vido a hora do banquinho e viol\u00e3o. \u00c9 quando os m\u00fasicos deixam o palco e o baiano repassa, de um jeito intimista e peculiar, algumas can\u00e7\u00f5es que podem n\u00e3o fazem parte do seu repert\u00f3rio &#8211; mas, que ele adora cantar. <\/p>\n<p>Caetano sempre surpreende. <\/p>\n<p>Foi assim que ouvi a ent\u00e3o in\u00e9dita &quot;Meu Bem, Meu Mal&quot; numa tocante leitura. Depois, Gal transformou a can\u00e7\u00e3o num dos hits dos anos 80. Neste mesmo dia, por\u00e9m, uma certa melodia me revirou do avesso Emo\u00e7\u00e3o pura. <\/p>\n<p>E, querem saber? A letra e a m\u00fasica n\u00e3o me eram inteiramente estranhas. Versos simples, verdadeiros, falavam de um amor que se perdeu. Havia, ali, um andamento mais cadenciado, talvez. Mas, de longe foi o momento mais bonito do espet\u00e1culo&#8230;<\/p>\n<p>Torci para que Caetano repetisse a can\u00e7\u00e3o na hora do bis. Depois, voltei para casa com a id\u00e9ia fixa de que ele deveria inclu\u00ed-la em seu repert\u00f3rio. E que o mo\u00e7o andava inspirad\u00edssimo&#8230;<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 seguinte, comentei o assunto na Reda\u00e7\u00e3o. Queria saber que m\u00fasica era aquela. E foi pr\u00f3prio Ismael que desvendou o mist\u00e9rio ao cantarolar toda uma estrofe da can\u00e7\u00e3o. Seu nome: &quot;Sonhos&quot;. Seu autor: Peninha, o pr\u00f3prio&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; As pessoas mudam, e esquecem de avisar os amigos, n\u00e9, rodolf\u00e3o? &#8211; ironizou Ismael.<\/p>\n<p>Da ala feminina da Reda\u00e7\u00e3o, veio outro coment\u00e1rio. Provocativo, diria.<\/p>\n<p>&#8212; O que faz uma dor de cotovelo&#8230; <\/p>\n<p>Fiquei na minha. <\/p>\n<p>Como consolo, restou-me a certeza de que falou mais alto o lado sentimental dos meus av\u00f3s maternos, de Floren\u00e7a e Mantova &#8211; norte da It\u00e1lia. E n\u00e3o tenho melhorado nada nesse aspecto.<\/p>\n<p>Ademais, que atire a primeira pedra, quem nunca sussurrou baixinho, com ou sem m\u00fasica, com ou sem rima, algo assim: <\/p>\n<p>&quot;Mas n\u00e3o tem revolta , n\u00e3o\/ Eu s\u00f3 quero que voc\u00ea se encontre<br \/>\nTer saudade at\u00e9 que \u00e9 bom\/ Melhor que caminhar vazio<br \/>\nA esperan\u00e7a \u00e9 um dom\/ Que eu tenho em mim<br \/>\nN\u00e3o tem desespero, n\u00e3o\/ Voc\u00ea me ensinou milh\u00f5es de coisas<br \/>\nTenho um sonho em minhas m\u00e3os\/ Amanh\u00e3 ser\u00e1 um novo dia<br \/>\nCertamente eu vou ser mais feliz &#8230;&quot; <\/p>\n<p>Seremos todos mais felizes. \u00c9 isso&#8230;<\/p>\n[Texto publicado no livro &quot;Meus Caros Amigos \u2013 Cr\u00f4nicas sobre jornalistas, bo\u00eamios e paix\u00f5es&quot;]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para o grande p\u00fablico, o cantor e compositor Peninha apareceu em 76 ou 77, se bem me lembro. 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