{"id":10438,"date":"2006-11-28T00:00:00","date_gmt":"2006-11-28T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:59:58","modified_gmt":"2017-09-15T19:59:58","slug":"agua-com-gas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/agua-com-gas\/","title":{"rendered":"\u00c1gua com g\u00e1s"},"content":{"rendered":"<p>L\u00e1 estava Dinoel&#8230; <\/p>\n<p>No mesmo apartamento,<br \/>\no inesquec\u00edvel n\u00famero 54,<br \/>\ndo mesmo flat, numa importante<br \/>\navenida da grande cidade.<\/p>\n<p>N\u00e3o estava triste, nem feliz.<br \/>\nEsperaria por Dagmar,<br \/>\ncomo tantas vezes esperou&#8230;<\/p>\n<p>Era igual, mas diferente.<\/p>\n<p>H\u00e1 tempos n\u00e3o se viam, mal se falavam,<br \/>\num e outro email. Quando ela se deixava<br \/>\nlevar pelos descompassos do cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\nfazia contato. Com aquele jeitinho,<br \/>\nsabe qual?, pois \u00e9 aquele&#8230;  <\/p>\n<p>N\u00e3o era por nada, n\u00e3o.<br \/>\nQueria s\u00f3 ouvir sua voz ou<br \/>\nler na telinha a resposta que<br \/>\nele lhe daria. Resposta \u00f3bvia:<br \/>\n\u201cEu te amo\u201d, era assim que sempre<br \/>\nterminava, fosse email, fosse telefonema&#8230;<\/p>\n<p>Ela, ent\u00e3o, se sentia aliviada, feliz.<br \/>\nMas, como de h\u00e1bito, confusa.<br \/>\nGostava dele, mas n\u00e3o queria<br \/>\nse entregar. Tanta coisa pra viver&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o quero sua amizade como<br \/>\npr\u00eamio de consola\u00e7\u00e3o \u2013 repetia Dinoel.<br \/>\nAli\u00e1s, n\u00e3o quero nada que n\u00e3o seja<br \/>\nverdadeiramente meu.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Um dia marcaram uma conversa s\u00e9ria.<br \/>\nPara definir o sim e o n\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Olho no olho, como ensina<br \/>\na tradi\u00e7\u00e3o dos velhos e bons romances.<br \/>\nPrimeiro passo, desligar o celular.<\/p>\n<p>&#8212; As novas tecnologias s\u00e3o um avan\u00e7o<br \/>\nda humanidade \u2013 dizia um amigo &#8211;, mas criam<br \/>\npessoas dependentes, esquizofr\u00eanicas&#8230;<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m para a honrar a tradi\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque desenvolveu a partir das longas<br \/>\nesperas por Dagmar , ele procurou<br \/>\nno frigobar uma \u00e1gua com g\u00e1s. Para<br \/>\nrefrigerar o corpo e alma&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o encontrou. Fez o pedido na recep\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Como sempre, ela se atrasaria \u2013 e chegaria<br \/>\ncom uma desculpa absurda. Ele relegaria<br \/>\nem nome dos momentos felizes que<br \/>\nsempre viveram quando se encontravam&#8230;<\/p>\n<p>Andou pelo quarto, pela pequena sala&#8230;<br \/>\nDeixou a porta apenas encostada.<br \/>\nSem televis\u00e3o, sem m\u00fasica. Sil\u00eancio,<br \/>\nqueria ouvir a mo\u00e7a chegar&#8230;<\/p>\n<p>Pela janela olhou a linha do horizonte,<br \/>\no contorno dos pr\u00e9dios, a cidade iluminada&#8230; <\/p>\n<p>Sentiu-se estranho. Tudo t\u00e3o seu e dela.<br \/>\nTudo t\u00e3o distante&#8230;<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Passos no corredor. O barulho<br \/>\ninconfund\u00edvel do salto plataforma \u2013<br \/>\nnunca entendeu porque as mulheres insistem<br \/>\nnessa moda, n\u00e3o vivemos na Europa,<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1 neve por aqui&#8230;<\/p>\n<p>Estranhou o tocar da campainha.<br \/>\nNunca foi disso. Talvez a dist\u00e2ncia,<br \/>\na aus\u00eancia&#8230; Ela estava mais formal,<br \/>\ntalvez. Mais bonita com certeza&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Entre, fique \u00e0 vontade,<br \/>\ndisse com o cora\u00e7\u00e3o acelerado.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Sentiu o baque. Poderia fraquejar.<br \/>\nR\u00e1pido, sem pensar, adotou<br \/>\numa estrat\u00e9gia. Continuaria a olhar<br \/>\npela janela, e diria tudo o que queria<br \/>\ndizer. Tudo. S\u00f3 depois se voltaria<br \/>\ne enfrentaria, de peito aberto,<br \/>\nos encantos da morena Dagmar,<br \/>\ndesde sempre a mulher da sua vida&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Olha, deixa-me falar. Ali\u00e1s, sempre<br \/>\nfui eu quem procurou dizer as coisas,<br \/>\nmostrar os caminhos e os sinais. Nunca<br \/>\nentendi o seu sil\u00eancio. Ora me parecia<br \/>\nque voc\u00ea concordava com tudo. Ora parecia<br \/>\nque n\u00e3o queria me magoar. Ora me<br \/>\nparecia que \u00e9 o jeito que voc\u00ea leva a vida.<br \/>\nAssim como quem n\u00e3o quer nada.<br \/>\nSem dar aten\u00e7\u00e3o ao que digo, ao que fa\u00e7o,<br \/>\nao meu amor por voc\u00ea, ao nosso amor.<br \/>\nSim, porque nos amamos&#8230;<br \/>\nNem sei porque ainda estou nesse barulho.<br \/>\nVoc\u00ea n\u00e3o foi legal comigo. Com os sonhos<br \/>\ne os projetos que fizemos&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Hum, hum, mo\u00e7o, mo\u00e7o&#8230; <\/p>\n<p>Estranhou o tom de voz \u2013 diferente, anasalado&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Olha, um minuto, por favor.<br \/>\nEu s\u00f3 vim lhe trazer a \u00e1gua com g\u00e1s&#8230;<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Enquanto a copeira se afastava com<br \/>\nseus tamancos de madeira e a bandeja<br \/>\nvazia, Dinoel recolhia os cacos<br \/>\ndos sentimentos dilacerados. <\/p>\n<p>No mesmo instante, dois andares acima,<br \/>\nDagmar conversava com uma amiga<br \/>\nno bendito celular. E andava perdida<br \/>\npelos corredores. Quase conscenciosa&#8230;<\/p>\n<p>&#8212;  Preciso desligar agora. N\u00e3o consigo<br \/>\nlembrar o n\u00famero. Era 74 ou 84.<br \/>\nA\u00ed, n\u00e3o me lembro. Pode ser 64&#8230;<\/p>\n<p>T\u00e3o cedo eles n\u00e3o se reencontrariam.<br \/>\nTalvez fosse melhor assim<\/p>\n[Texto publicado no livro \u201cVolteios &#8211;  Cr\u00f4nicas, lembran\u00e7as e devaneios\u201d]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>L\u00e1 estava Dinoel&#8230; <\/p>\n<p>No mesmo apartamento,<br \/>\no inesquec\u00edvel n\u00famero 54,<br \/>\ndo mesmo flat, numa importante<br \/>\navenida da grande cidade.<\/p>\n<p>N\u00e3o estava triste, nem feliz.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10438","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10438","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10438"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10438\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17430,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10438\/revisions\/17430"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10438"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10438"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10438"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}