{"id":10455,"date":"2006-12-11T00:00:00","date_gmt":"2006-12-11T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:59:57","modified_gmt":"2017-09-15T19:59:57","slug":"o-futuro-do-jornalismo-5","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-futuro-do-jornalismo-5\/","title":{"rendered":"O futuro do jornalismo 5"},"content":{"rendered":"<p>O rep\u00f3rter policial Ram\u00e3o Gomes Port\u00e3o<br \/>\nsentiu-se o \u00faltimo dos homens, o esquecido dos deuses,<br \/>\no renegado das reda\u00e7\u00f5es. Seus olhos n\u00e3o queriam<br \/>\nacreditar no que liam. Mas, o teletipo da Central<br \/>\nde Pol\u00edcia era inquestion\u00e1vel. O Bandido da Luz Vermelha<br \/>\nacabara de se entregar. Ou seja, era de todos &#8211; at\u00e9 do<br \/>\nmais chinfrim dos rep\u00f3rteres &#8211; a not\u00edcia que,<br \/>\nat\u00e9 instantes atr\u00e1s, imaginava ser s\u00f3 dele.  <\/p>\n<p>Foram para o buraco negro do tempo perdido<br \/>\nos dias e dias que andou atr\u00e1s de Luz Vermelha.<br \/>\nDe nada adiantaram as dezenas de campanas<br \/>\nque fez madrugadas adentro at\u00e9 encontrar<br \/>\no homem na Boca do Lixo, do centro de S\u00e3o Paulo. <\/p>\n<p>Entre uma tacada e outra, um gole de Fogo Paulista<br \/>\ne outro, Luz jurara que, antes de se entregar<br \/>\n\u00e0 Pol\u00edcia, chamaria Ram\u00e3o para escrever sobre<br \/>\nos seus feitos, anunciar que era hora de parar,<br \/>\ne saldar seus erros para com a sociedade. <\/p>\n<p>Os bandidos de antigamente tinham l\u00e1 seus<br \/>\nc\u00f3digos de \u00e9tica, &quot;um nome a zelar&quot;, como diziam.<br \/>\nMas, alguma coisa deu errada nessa hist\u00f3ria &#8211;<br \/>\ne o rep\u00f3rter  perdeu o que, \u00e0quela altura,<br \/>\nconsiderava o furo de reportagem da sua vida&#8230; <\/p>\n<p>II. <\/p>\n<p>Corriam soltos os anos 50 e o Brasil ainda<br \/>\nn\u00e3o havia sido contemplado com a Redentora.<br \/>\nJK era o presidente, e havia uma \u00e1urea<br \/>\nde otimismo solta no ar. <\/p>\n<p>O jornalismo brasileiro vivia um momento,<br \/>\ndiria, m\u00e1gico. O protagonista da a\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica<br \/>\neram os rep\u00f3rteres. O que garantia a sobreviv\u00eancia<br \/>\ndos jornais eram as manchetes,<br \/>\navidamente disputadas todas as manh\u00e3s. <\/p>\n<p>\u00c0 \u00e9poca, os jornaleiros costumavam<br \/>\nestampar os jornais abertos nas bancas em<br \/>\nbusca do olhar dos leitores, famintos por novidades.<br \/>\nA TV estava apenas engatinhando &#8211; nem o v\u00eddeo tape<br \/>\nhavia sido inventado. E o r\u00e1dio existia principalmente<br \/>\npara tocar m\u00fasica, transmitir radio novelas<br \/>\ne programas humor\u00edsticos. <\/p>\n<p>Jornalismo mesmo, para valer,<br \/>\ns\u00f3 nos matutinos e vespertinos di\u00e1rios&#8230; <\/p>\n<p>III. <\/p>\n<p>Ram\u00e3o Gomes de Port\u00e3o era o rep\u00f3rter t\u00edpico.<br \/>\nGanhava mal, morava modestamente,<br \/>\nn\u00e3o era reconhecido pelo p\u00fablico.<br \/>\nN\u00e3o pensava em outra coisa que n\u00e3o fosse<br \/>\no furo de reportagem. N\u00e3o se imaginava<br \/>\neditor ou coisa que o valha. Vivia<br \/>\nmais na rua do que nas reda\u00e7\u00f5es. <\/p>\n<p>E vejam: que ironia! Nisso, ele se parecia<br \/>\ncom o nosso amigo americano, cuja hist\u00f3ria<br \/>\ndeu origem a esta s\u00e9rie intermin\u00e1vel, de seis posts. <\/p>\n<p>No entanto, fa\u00e7o a ressalva: s\u00e3o essencialmente<br \/>\ndiferentes. Pelo comprometimento, que cada<br \/>\num tem com seu trabalho. Mais: pelo que<br \/>\na empresa espera dos nossos jovens hoje.<\/p>\n<p>Querem algu\u00e9m que d\u00ea conta do recado &#8211; e s\u00f3.<br \/>\nN\u00e3o d\u00e1 para o jornalista ir atr\u00e1s de<br \/>\num furo de reportagem. Ele precisa postar<br \/>\nnot\u00edcias a cada minuto no site.<br \/>\nMesmo que n\u00e3o seja uma grande not\u00edcia,<br \/>\no site precisa se renovar.<br \/>\nE assim ficamos ref\u00e9m do imediatismo&#8230;<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Mas, n\u00e3o vamos culpar s\u00f3 os patr\u00f5es.<br \/>\nA profiss\u00e3o hoje tem um poder de sedu\u00e7\u00e3o,<br \/>\num glamour que n\u00e3o possu\u00eda antes.<br \/>\nFantasioso, fake. Mas, tem&#8230;<\/p>\n<p>H\u00e1 quem entenda que o jornalista \u00e9<br \/>\ncelebridade, e logo se imagina no sof\u00e1<br \/>\nda Hebe, no Castelo de Caras ou mesmo<br \/>\ncomo entrevistado do programa do J\u00f4&#8230;<\/p>\n<p>Por outra, como todo e qualquer ser<br \/>\nhumano, queremos morar numa boa casa,<br \/>\nter um carrinho da hora, um sal\u00e1rio<br \/>\ncompat\u00edvel com nossos sonhos.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 mal nenhum nisso. \u00d3bvio que n\u00e3o.<br \/>\nMas, acredite, at\u00e9 os anos 60\/70 essas<br \/>\n\u2018gostosas tolices\u2019 n\u00e3o passavam pela<br \/>\ncabe\u00e7a de um Pena Branca \u2013 rep\u00f3rter policial<br \/>\nao estilo de Rom\u00e3o, que inspirou a s\u00e9rie<br \/>\nPlant\u00e3o de Pol\u00edcia na Globo, com Hugo Carvana<br \/>\nno papel de Waldomiro Pena, \u201co \u00faltimo dos<br \/>\nrep\u00f3rteres policiais rom\u00e2nticos\u201d.<\/p>\n<p>De alguma forma, essas conquistas<br \/>\nacabam por nos enredar no perigoso jogo<br \/>\ndas conveni\u00eancias e do registro em carteira.<\/p>\n<p>VI. <\/p>\n<p>Claro que fa\u00e7o aqui a generaliza\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas generaliza\u00e7\u00f5es. Mas, o que \u00e9 esta s\u00e9rie<br \/>\nde textos sen\u00e3o um convite \u00e0 reflex\u00e3o?<\/p>\n<p>\u00d3bvio que a net mudou o jornalismo.<\/p>\n<p>Hoje, os blogueiros s\u00e3o a bola da vez.<br \/>\nChegam a pautar as reda\u00e7\u00f5es.<br \/>\nMas importante mesmo \u00e9 saber que<br \/>\nenquanto houver um rep\u00f3rter, ao estilo de<br \/>\nRam\u00e3o, de Pena Branca, Kotscho,<br \/>\nZ\u00e9 Hamilton Ribeiro e tantos outros,<br \/>\no jornalismo sobreviver\u00e1. Tenha a forma que tiver.<br \/>\nSeja qual for o ve\u00edculo&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O rep\u00f3rter policial Ram\u00e3o Gomes Port\u00e3o<br \/>\nsentiu-se o \u00faltimo dos homens, o esquecido dos deuses,<br \/>\no renegado das reda\u00e7\u00f5es. Seus olhos n\u00e3o queriam<br \/>\nacreditar no que liam. 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