{"id":10465,"date":"2006-12-20T00:00:00","date_gmt":"2006-12-20T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T04:14:57","modified_gmt":"2017-09-14T04:14:57","slug":"presepio-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/presepio-2\/","title":{"rendered":"Pres\u00e9pio"},"content":{"rendered":"<p>Dia claro que logo se fez noite.<\/p>\n<p>Andava por ruas estreitas, de uma cidade antiga. Iguais a tantas que conheci ao longo da minha solit\u00e1ria peregrina\u00e7\u00e3o, mundo afora. N\u00e3o pude identificar exatamente onde est\u00e1vamos. \u00c9ramos muitos e caminh\u00e1vamos ao som do vento e da luz das estrelas que logo pontilharam naquele c\u00e9u rasgado e aberto.<\/p>\n<p>Quis descobrir quem eram aqueles senhores, de fisionomia austera e congelada,<br \/>\nos \u00fanicos a olhar o infinito e entender o rumo que a caravana tomava a cada passo.<\/p>\n<p>Para onde iria toda aquela gente?<\/p>\n<p>Por que estavam assim felizes?<\/p>\n<p>Havia uma boa nova. Qual a boa nova?<\/p>\n<p>Sentia-me \u2013 ali\u00e1s, como sempre me senti \u2013 um forasteiro, perdido em mim mesmo e pelos lugares por onde andei. Minhas roupas pesadas protegiam-me<br \/>\ndas lambadas de ar e do frio.<\/p>\n<p>Eu apenas caminhava junto a outras pessoas, fam\u00edlias, grupos. \u00cdamos em sil\u00eancio e esparsamente. N\u00e3o sabia ao certo como chegara ali. Sentia-me bem, no entanto. De bem com a vida, como h\u00e1 tempos n\u00e3o acontecia. N\u00e3o havia temores. N\u00e3o sabia bem o porqu\u00ea, mas tinha a convic\u00e7\u00e3o de que eram do bem as pessoas que me cercavam. De certa forma, guiavam-me para uma celebra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Atravessamos uma ponte sobre um riacho, cujas \u00e1guas pareciam ter o formato e<br \/>\no brilho artificial de um espelho. Mesmo \u00e0quela hora da noite, um pescador<br \/>\nde chap\u00e9u verde nos saudou:<\/p>\n<p>&#8212; Sejam todos bem-vindos \u00e0 morada do Senhor.<\/p>\n<p>De repente, percebi: os muros da cidade ficaram para tr\u00e1s, perdiam-se na linha do horizonte. E uma estrela, que parecia ter cauda de cometa, projetava clar\u00f5es de luz sobre uma gruta, abrigo de humildes viajantes.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m lembrou que est\u00e1vamos em \u00e9poca de festas e todas as hospedarias estavam ocupadas.<\/p>\n<p>&#8212; Ningu\u00e9m deu guarida \u00e0 esta humilde fam\u00edlia &#8211; comentou um pastor que trazia uma ovelha sobre os ombros. Que, me pareceu, seria ofertada a outros rec\u00e9m-chegados.<\/p>\n<p>S\u00f3 a\u00ed me dei conta de que era um privilegiado, pois amigos me deram abrigo: um leito para descansar o corpo mo\u00eddo de tantas jornadas, o p\u00e3o para matar a fome que s\u00f3 o sonhar n\u00e3o saciava e o vinho para dar fim \u00e0 sede e reverenciar o novo tempo.<\/p>\n<p>N\u00e3o era exatamente uma pra\u00e7a.<\/p>\n<p>Mas, um descampado que cercava o abrigo, onde se podia avistar um senhor de barba e cabelos grisalhos e sua jovem esposa. Dividiam o pequeno espa\u00e7o com um burrico \u2013 prov\u00e1vel meio de transporte do casal \u2013 e uma vaca a mugir de quando em quando&#8230;<\/p>\n<p>Al\u00e9m deles, havia uma crian\u00e7a ali &#8211; um beb\u00ea rec\u00e9m-nascido.<\/p>\n<p>Por Ele est\u00e1vamos ali.<\/p>\n<p>Por Ele se fez aquela noite com sol.<\/p>\n<p>Tornei a olhar a cidade distante e me encantei.<\/p>\n<p>Fiquei mais em paz ainda com essa imagem e ao ver a alegria das pessoas que<br \/>\nse abra\u00e7avam e anunciavam \u201ca boa nova\u201d.<\/p>\n<p>Todo esse regozijo parece ter inspirado inclusive o vento que se p\u00f4s a soprar melodioso.<\/p>\n<p>Gostaria, mas n\u00e3o sei descrever o encantamento de todos. O olhar luminoso<br \/>\ndas pessoas que se puseram a bailar suavemente.<\/p>\n<p>Dei alguns passos para tr\u00e1s para sair daquele c\u00edrculo de bem-aventurados. N\u00e3o me sentia digno de&#8230;<\/p>\n<p>Sempre fui s\u00f3 e nunca soube dan\u00e7ar.<\/p>\n<p>Ouvi algu\u00e9m cantar versos que diziam:<\/p>\n<p>&#8212; De reinos distantes, magos vir\u00e3o para saudar o Rei dos Reis.<\/p>\n<p>Todo aquele cen\u00e1rio embevecia-me.<\/p>\n<p>Tive a sensa\u00e7\u00e3o que tudo o que andei vida afora foi para estar ali naquele exato instante.<\/p>\n<p>A felicidade banhou minha alma triste.<\/p>\n<p>Da multid\u00e3o, saiu uma mo\u00e7a que me procurou com os olhos. Veio em minha dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tomei um susto porque a mo\u00e7a era voc\u00ea e eu n\u00e3o a conhecia. Mas, sabia que era voc\u00ea.<\/p>\n<p>Estava de frente para mim enquanto todos rodopiavam sem nos ver.<\/p>\n<p>Assim as \u00fanicas pessoas que existiam naquele mundo, verdadeiramente, \u00e9ramos<br \/>\nn\u00f3s dois. Voc\u00ea dava passos largos de bailarina, suaves, cadenciados pelo som e ritmo do vento.<\/p>\n<p>Fiquei at\u00f4nito diante da imagem.<\/p>\n<p>Surpreso, feliz. Com medo. Mas, ia lhe dizer:<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o sei dan\u00e7ar.<\/p>\n<p>Voc\u00ea acenou para que eu nada dissesse.<\/p>\n<p>Insistiu no o convite \u00e0 dan\u00e7a. Estendeu a m\u00e3o,e pude ouvir sua voz, como num sonho.<\/p>\n<p>&#8212; Nasceu o Menino Deus. Venha festejar. Bem-aventurados os que v\u00eam em nome do Amor.<\/p>\n<p>\u00c9 o que lhes desejo &#8211; e pe\u00e7o &#8211; amigo leitor.<\/p>\n<p>Bem aventurados os que ainda hoje &#8211; 2007 anos depois &#8211; vivem para celebrar o Amor. Ser\u00e3o estes, os contemplados pelo Filho de Deus que se fez Homem e, neles, renasce a cada manh\u00e3&#8230;<\/p>\n<p>Feliz Natal. Bom ano para todos&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dia claro que logo se fez noite.<\/p>\n<p>Andava por ruas estreitas, de uma cidade antiga. 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