{"id":10473,"date":"2007-01-19T00:00:00","date_gmt":"2007-01-19T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T17:43:40","modified_gmt":"2017-09-14T17:43:40","slug":"minha-melhor-reportagem","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/minha-melhor-reportagem\/","title":{"rendered":"Minha melhor reportagem"},"content":{"rendered":"<p>01. &quot;&#8230; sou obrigado a lhe confiar um segredo. Minha melhor reportagem n\u00e3o foi publicada. Pois \u00e9. N\u00e3o sei onde anda, menos ainda que fim levou. Como assim? Vou lhe explicar tintim por tintim.<\/p>\n<p>02. Trata-se de uma entrevista exclusiva que realizei com Elis Regina nos camarins do Teatro Tupi em 1978. Eu e o amigo Cl\u00f3vis Naconecy, rec\u00e9m-sa\u00eddos da USP, t\u00ednhamos a id\u00e9ia de escrever uma enciclop\u00e9dia sobre a m\u00fasica popular brasileira e, nessa toada, catalogamos centenas de nomes de cantores e compositores que seriam ouvidos por n\u00f3s. Fraternalmente dividimos a longa lista em duas partes &#8212; a que me coube come\u00e7ava justamente pela cantora ga\u00facha Elis Regina de Carvalho Costa, codinome Pimentinha por seu jeito contundente de tratar circunstanciais desafetos e antipatias.<\/p>\n<p>03. Munido de um gravador daqueles antigos, do tamanho de caixa de sapato, rumei para a avenida Luiz Ant\u00f4nio, com cara, coragem e manancial de 20 perguntas. Na inquietude dos meus 27 anos, queria que Elis falasse sobre tudo, de Ernesto Nazareth a Roberto Carlos, passando por Pixinguinha, Elizeth Cardoso, Beatles e os novos autores que acabara de lan\u00e7ar, Belchior e Jo\u00e3o Bosco. Afinal, imaginava que solenemente est\u00e1vamos escrevendo a pr\u00f3pria hist\u00f3ria da MPB.<\/p>\n<p>04. Elis estava em cartaz com o show &quot;Transversal do Tempo&quot; e, mais uma vez, era sucesso de p\u00fablico e cr\u00edtica. Chegava por volta das 17h30\/18h ao teatro para preparar-se para o espet\u00e1culo. Ficava sozinha no camarim. Naquela sexta-feira, chegaria um pouco mais cedo para a entrevista. E assim foi&#8230;<\/p>\n<p>05. A mulher que encontrei no teatro foi de uma surpreendente simplicidade. Mostrou-se interessada no projeto e feliz por ser uma das primeiras a ser ouvida. Respondeu objetivamente a todas as perguntas. Sempre com muita convic\u00e7\u00e3o. M\u00fasicos s\u00e3o os rapazes do Zimbo Trio, ironizou os grupos de rock da Jovem Guarda. Jair Rodrigues \u00e9 melhor cantor do Brasil. Deveria ter o sucesso do Roberto Carlos. S\u00f3 n\u00e3o tem porque somos um povo preconceituoso &#8212; enfatizou sem deixar de sorrir. Fazemos a melhor m\u00fasica do mundo. S\u00f3 que as r\u00e1dios &quot;esquecem&quot; de tocar &#8212; disse comentando os acertos entre gravadoras e emissoras de r\u00e1dio.<\/p>\n<p>06. A entrevista prolongou-se por horas. Quando deixava o camarim, notei que j\u00e1 era noite e a camareira preparava a roupa com que Elis, nossa melhor cantora, entraria em cena. Dias depois, bateu uma dessas pregui\u00e7as est\u00fapidas, ent\u00e3o pedi ao Cl\u00f3vis que &quot;passasse&quot; a fita para depois fazermos o texto final. O projeto da enciclop\u00e9dia perdeu-se nas obriga\u00e7\u00f5es di\u00e1rias. E, com o tempo, perdi a fita e o amigo de vista&#8230; E l\u00e1 se foi a melhor reportagem deste escriba trapalh\u00e3o&#8230;&quot;<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Replico essa hist\u00f3ria aqui, pois hoje, 19 de janeiro, reverencia-se os 25 anos da morte de Elis. Um tempo e tanto. Uma perda inestim\u00e1vel para a MPB. Todos os anos, sempre que se fala de Elis, n\u00e3o h\u00e1 como n\u00e3o lembrar dessa hist\u00f3ria&#8230; E penso que acontece o mesmo com outro amigo (que a vida me tornou distante), o Rui Conde, que foi comigo e, de p\u00e9 num canto do camarim, assistiu a entrevista com os olhos de quem v\u00ea uma estrela de rara e infinita beleza. <\/p>\n<p>Me \u00e9 tambem obrigat\u00f3rio reverenciar a mem\u00f3ria de outro saudoso amigo, Jos\u00e9 do Nascimento. Est\u00e1vamos juntos na reda\u00e7\u00e3o, quando a programa\u00e7\u00e3o musical da emissora para que o locutor, com a voz apalermada de quem n\u00e3o quer acreditar na not\u00edcia que l\u00ea, anunciou a morte de nossa melhor cantora.<\/p>\n<p>Os teclados das velhas Olivettis silenciaram&#8230;<\/p>\n<p>Minutos depois, sem que nada lhe pedissem, ouviu-se o toc-toc da m\u00e1quina de escrever do Nasci dava forma \u00e0 manchete do dia.<\/p>\n<p>&quot;Elis revolucionou a maneira de interpretar. Mostrou uma for\u00e7a extraordin\u00e1ria e se agigantou no palco, apesar dos seus 1,53 de altura. Essa foi Elis Regina. Regina. Rainha. Maior cantora do Brasil&quot;.<\/p>\n<p>Nasci era produtor da TV Record \u00e0 \u00e9poca que Elis explodiu em &quot;O Fino da Bossa&quot;, ao lado de Jair Rodrigues. Dizia que o contrato da ent\u00e3o jovem cantora com a emissora foi assinado, de improviso, na sua sala. Pois, a TV Tupi tamb\u00e9m estava de olho na mo\u00e7a. Trancaram a mo\u00e7a ali, quase num benfazejo seq\u00fcestro &#8211; e s\u00f3 a liberaram depois do documento assinado. Elis n\u00e3o pediu nenhuma avalanche de dinheiro para o acerto. Queria a garantia &#8211; tamb\u00e9m por contrato &#8211; que Jair Rodrigues e o Zimbo Trio estariam com ela na condu\u00e7\u00e3o do programa que mudou a hist\u00f3ria da MPB e da TV brasileira nos anos 60.<\/p>\n<p>Lembro os olhos vermelhos do veterano jornalista e o ritmo lento de quem datilografava s\u00f3 com os dois indicadores&#8230; Nasci chorava, ali, a dor de todos os brasileiros&#8230;<\/p>\n[Texto editado e publicado no livro \u201cVolteios &#8211; Cr\u00f4nicas, lembran\u00e7as e devaneios&quot;]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>01. &quot;&#8230; sou obrigado a lhe confiar um segredo. Minha melhor reportagem n\u00e3o foi publicada. Pois \u00e9. N\u00e3o sei onde anda, menos ainda que fim levou. Como assim? Vou lhe explicar tintim por tintim.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-10473","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-parangoles"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10473","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10473"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10473\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14080,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10473\/revisions\/14080"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10473"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10473"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10473"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}