{"id":10475,"date":"2007-01-21T00:00:00","date_gmt":"2007-01-21T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T04:14:24","modified_gmt":"2017-09-14T04:14:24","slug":"o-castelo-de-san-martino","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-castelo-de-san-martino\/","title":{"rendered":"O castelo de San Martino"},"content":{"rendered":"<p>\u00c0 Pri, que lembrou de mim<br \/>\nquando morou por uns tempos em Napoli.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Olhamos o mapa da cidade e o castelo de San Martino, onde existe um museu e uma igreja, ficava a dois dedos de dist\u00e2ncia do hotel. Um al\u00edvio. No dia anterior, havia caminhado \u00e0 exaust\u00e3o para conhecer atra\u00e7\u00f5es, becos e bocas de Napoli. Um aspecto cansado era indisfar\u00e7\u00e1vel em mim, e em cada um de n\u00f3s. Mas, vamos l\u00e1&#8230; Ao primeiro desafio do dia. Uma passada no cal\u00e7ad\u00e3o \u00e0 beira mar. Mais uma vez, olhar o porto onde meus av\u00f3s, l\u00e1 nos confins do tempo, partiram para tentar a vida no Brasil e \u201cperna pra quem te quer\u201d. Uma \u00faltima conferida no mapa para nos orientar e a surpresa que me deixou um pouco triste e outro tanto feliz. Triste porque bastou erguer os olhos, do mapa para o interior da cidade, e divisarmos uma fortaleza, l\u00e1 distante, no alto de uma montanha \u2013 uns 650 metros de altura, por a\u00ed. Em s\u00fabito protesto, meu corpo cansado despencou desalentado no primeiro banco de pra\u00e7a que apareceu. N\u00e3o conseguiria. A cidade \u00e9 um labirinto de ruas estreitas e tortuosas, vielas, escadarias, cantos &#8211; tudo devidamente ornamentado pelas roupas estendidas nos varais e expostas aos olhares de quem passar. D\u00e1 a sensa\u00e7\u00e3o de que estamos sempre no mesmo lugar. Imposs\u00edvel o acesso. A\u00ed veio o motivo da felicidade. Por consenso, decidimos: iremos de \u00f4nibus. Me pus de p\u00e9 de pronto. \u201cVamos!\u201d, dei voz de comando \u00e0 tropa. \u201cMas, qual \u00e9 o autobus?\u201d, algu\u00e9m lembrou. D\u00e1-lhe de andar \u00e0s tontas pela cidade. E outro descobre uma loja da Armani \u2013 e \u00e9 um entra sai de gente sem nada comprar, \u00f3bvio -, um \u201csaldi\u201d imperd\u00edvel na Piazza It\u00e1lia \u2013 e tome outra excurs\u00e3o dentro da nossa quase excurs\u00e3o. H\u00e1 sempre quem queira parar para tomar um caf\u00e9. \u201cUm caf\u00e9 s\u00f3, gente!\u201d e invadimos a cafeteria. Resultado: duas horas depois, \u00e9 hora de almo\u00e7ar que ningu\u00e9m \u00e9 de ferro. Fomos descobrir o roteiro mesmo s\u00f3 l\u00e1 pelo meio da tarde, mais do que cansados, a carregar pacotes e casacos \u2013 pois, o tal do rigoroso inverno europeu n\u00e3o deu \u00e0s caras \u2013 e eu a arrastar um fastio, uma sonol\u00eancia gerados pela generosa por\u00e7\u00e3o de tortellini que derrubei na refei\u00e7\u00e3o. Ah!, o biquieri de vinho rosso tamb\u00e9m ajudou minha alma a clamar, baixinho, para os bot\u00f5es do meu sobretudo a lamber estoicamente aquele ch\u00e3o hist\u00f3rico:<br \/>\n&#8212; Meu reino por uma cama. Meu reino por uma cama.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Um detalhe.<br \/>\nN\u00e3o era um simples autobus que nos levaria ao destino que planejamos. Ter\u00edamos que tomar \u2018o funiculare\u2019, uma esp\u00e9cie de \u201ctatuz\u00e3o\u201d em forma de bondinho que leva penca de turistas e moradores montanha acima, por dentro da pr\u00f3pria. S\u00f3 que a Esta\u00e7\u00e3o Chiaia \u2013 jamais esquecerei esse belo nome \u2013 n\u00e3o estava funcionando naquele dia. Chiusa! Portanto, outra caminhada pela via Toledo para enfim, j\u00e1 na esta\u00e7\u00e3o, errarmos a linha do tal \u201cmetr\u00f4zinho\u201d e irmos parar do outro lado da cidade.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Voltamos ao ponto de partida. E, por fim, tomamos o caminho do castelo que anunciei, aos quatro cantos desde a chegada \u00e0 It\u00e1lia, era de posse da fam\u00edlia. Ao chegarmos, a compensa\u00e7\u00e3o de todos os \u201cais\u201d: a tocante vis\u00e3o da ba\u00eda que se tem da pequena pra\u00e7a em frente \u00e0 fortaleza. Um encantar-se sem fim.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Uma pequena porta d\u00e1 acesso ao claustro, projetado por Dosio no s\u00e9culo 16, e \u00e0s diversas alas do castelo, todas no melhor estilo do barroco napolitano. Sempre me deslumbro diante desses monumentos seculares e suas hist\u00f3rias. Vai a\u00ed uma sensa\u00e7\u00e3o do ef\u00eamero da vida &#8211; a funda\u00e7\u00e3o do que chamam de &#8216;certoza&#8217; \u00e9 do s\u00e9culo 14. Do quanto somos nada e da obra que deixamos ou deixaremos. O nobre Martino (desculpe a\u00ed, em plebeus) era um homem de f\u00e9 e \u00edntegro. Generoso com os pobres, \u00e9 celebre o seu gesto de cortar o manto com a pr\u00f3pria espada e divid\u00ed-lo com quem encontrasse passando frio. \u00c9 bem verdade que n\u00e3o entendi porque o pr\u00edncipe n\u00e3o oferecia o manto todo. Bom, hist\u00f3ria \u00e9 hist\u00f3ria e h\u00e1 um quadro famoso que perpetua o gesto.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Ando pra c\u00e1, ando pra l\u00e1. Descubro um terra\u00e7o com outra vis\u00e3o linda sobre o bairro hist\u00f3rico de Santa Lucia. Um jardim; atr\u00e1s do jardim, um pomar com \u00e1rvores repletas de laranjas. Volto e entro por uma ala desconhecida.<\/p>\n<p>Ou\u00e7o uma voz:<\/p>\n<p>&#8212; Signore, signore. Chiuso. Capisce? Chiuso, signore&#8230;<\/p>\n<p>Meu paciente filho faz a tradu\u00e7\u00e3o, com um sorriso diante da minha cara de espanto.<\/p>\n<p>&#8212; Pai, a\u00ed n\u00e3o pode entrar. Est\u00e1 chiuso. Fechado, entendeu?<\/p>\n<p>Levei t\u00e3o a s\u00e9rio a hist\u00f3ria de estar numa propriedade da fam\u00edlia que, sinceramente, n\u00e3o estranharia se algu\u00e9m me viesse entregar a chave do castelo. Ou, no m\u00ednimo, de parte dele&#8230;<\/p>\n<p>Mesmo assim, n\u00e3o perco a pose. Mesmo com a temperatura ambiente, visto o sobretudo com a nobreza de um leg\u00edtimo Martino. Me desculpo com o atento funcion\u00e1rio e dou por encerrada a visita. Antes, por\u00e9m, fa\u00e7o a ressalva:<\/p>\n<p>&#8212; Por essa vez passa, filh\u00e3o. Mas, da outra vez, tiro o passaporte, mostro o sobrenome e digo ao lacaio o que pode, o que n\u00e3o pode e quem manda nessa birosca&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0 Pri, que lembrou de mim<br \/>\nquando morou por uns tempos em Napoli.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Olhamos o mapa da cidade e o castelo de San Martino, onde existe um museu e uma igreja,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-10475","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-parangoles"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10475","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10475"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10475\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13987,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10475\/revisions\/13987"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10475"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10475"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10475"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}