{"id":10482,"date":"2007-01-26T00:00:00","date_gmt":"2007-01-26T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T04:12:57","modified_gmt":"2017-09-14T04:12:57","slug":"borges","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/borges\/","title":{"rendered":"Borges"},"content":{"rendered":"<p>O recado era simples &#8211; e objetivo.<\/p>\n<p>Deveria estar na reda\u00e7\u00e3o da Revista Afinal antes das 17 horas. E mais n\u00e3o disse a voz do editor S\u00e9rgio Vaz do outro lado da linha. Corria o m\u00eas de junho do ano santo de 1986 e a informatiza\u00e7\u00e3o das reda\u00e7\u00f5es, em Terra Brasilis, passava distante dos projetos e planos das empresas de comunica\u00e7\u00e3o. Nem mesmo o dinoss\u00e1urico fax era cogitado. Portanto, tudo o que imaginei era passar no pr\u00e9dio antigo da rua Maria Ant\u00f4nia, pegar minha pauta &#8211; sempre modesta de frila &#8211; e cair fora. No dia seguinte, come\u00e7aria a fazer os contatos para as entrevistas e s\u00f3 depois pensaria no texto. Teria a noite livre para alguma andan\u00e7a l\u00fadica em S\u00e3o Paulo, onde amor \u00e9 imprevis\u00edvel como eu, voc\u00ea e o c\u00e9u&#8230;<\/p>\n<p>Para efeito de esclarecimento, pois ningu\u00e9m no mundo est\u00e1 obrigado a saber. A Revista Afinal foi criada no in\u00edcio dos anos 80 para ser uma alternativa \u00e0 semanal mais vendida do Pa\u00eds, ainda hoje \u00e9 assim, a Veja da Editora Abril. A revista Vis\u00e3o -de algum punch &#8211; nos anos 70 sa\u00edra de circula\u00e7\u00e3o &#8211; ou estava prestes a. E Isto\u00c9 perdera seu idealizador Mino Carta e tamb\u00e9m andava \u00e0 deriva. Um grupo de empresarios resolveu apostar numa revista de linha editorial mais solta &#8211; quase quase um \u00c9poca, eu arriscaria. Para tanto, fez uma limpa nas reda\u00e7\u00f5es dos jornais paulistanos e arrebatou o que havia de melhor na pra\u00e7a. Inclusive o editor-chefe Fernando Mitre que at\u00e9 ent\u00e3o comandava o mais combativo jornal do Pa\u00eds, o Jornal da Tarde.<\/p>\n<p>Como o projeto n\u00e3o deu caras de que iria vingar &#8211; as vendas e o apelo publicit\u00e1rio n\u00e3o atingiram os \u00edndices almejados -, o inevit\u00e1vel inevitou-se: come\u00e7aram as dificuldades &#8211; entre elas, os sal\u00e1rios atrasados e os rumores de que, a qualquer momento, a brincadeira poderia acabar. Inevit\u00e1vel tamb\u00e9m foi a debandada gradativa, mas efetiva, dos principais nomes. Nessa brecha, come\u00e7ou a aparecer espa\u00e7o para free-lancers, como o papai aqui&#8230;<\/p>\n<p>E a\u00ed voltamos para o in\u00edcio da hist\u00f3ria. Que para ser mais pr\u00e1tico, resumo agora: meu bate-e-volta acabou frustrado. Mal entrei na reda\u00e7\u00e3o, com um boa-noite que, como era praxe, ningu\u00e9m respondeu &#8211; h\u00e1 como questionar o mau-humor de quem n\u00e3o recebe em dia? -, Vaz me abasteceu com tr\u00eas pastas de recortes variados sobre a vida e a obra do escritor argentino Jorge Luis Borges.<\/p>\n<p>Borges acabara de morrer e eu deveria fazer um texto de duas p\u00e1ginas para ser entregue na manh\u00e3 seguinte.<\/p>\n<p>&#8212; Mais tardar ao meio-dia, lembrou o generoso editor.<\/p>\n<p>Como pouco ou quase nada sabia sobre o homem, dei um muito prazer \u00e0 papelada, prometi orar por arquivistas t\u00e3o competentes e escarafunchei-me naqueles textos noite a dentro e parte da madrugada. Quando o dia amea\u00e7ava despontar o texto estava nos trinques &#8211; e posteriormente selecionei-o para constar da colet\u00e2nea que lancei em 97, \u00c0s Margens Pl\u00e1cidas do Ipiranga, tamb\u00e9m aqui postado.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Ao longo de toda sua exist\u00eancia, Borges revelou-se uma personalidade contradit\u00f3ria, surpreendente. Dono de uma vasta obra, hoje traduzida em 20 idiomas, foi aclamado internacionalmente como um dos expoentes do realismo fant\u00e1stico. Chegou mesmo a ser comparado a Cervantes \u2013 o principal nome da literatura em idioma espanhol.<\/p>\n<p>Morreu aos 86 anos, ao lado da ex-secret\u00e1ria e esposa Marisa Kodama, na cidade de Genebra, Su\u00ed\u00e7a, onde viveu a inf\u00e2ncia e a juventude.<\/p>\n<p>Sua obra de 41 t\u00edtulos abrange poesia, narra\u00e7\u00e3o, ensaio e fic\u00e7\u00e3o. Borges foi tamb\u00e9m um mestre na arte de condensar todo o pensamento numa s\u00f3 frase, ou duas. Com humor, ceticismo e pitadas de lirismo.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Vejam alguns exemplos do que aprendi naquela noite<br \/>\n&#8211; e depois lendo seus livros. Poetar e viver:<\/p>\n<p>\u201cUm destino liter\u00e1rio n\u00e3o seria o melhor,<br \/>\nmas o \u00fanico para mim\u201d.<\/p>\n<p>\u201cA poesia \u00e9 um h\u00e1bito eterno que n\u00e3o<br \/>\nprecisa inspirar-se na realidade externa\u201d.<\/p>\n<p>\u201cAgora sei que a felicidade pode acontecer<br \/>\na qualquer momento. Mas que<br \/>\nnunca poderia ser buscada\u201d.<\/p>\n<p>\u201cA tristeza \u00e9 inevit\u00e1vel,<br \/>\nmas n\u00e3o \u00e9 vantajosa\u201d.<\/p>\n<p>\u201cTalvez possa falar do que n\u00e3o tenho.<br \/>\nDa prud\u00eancia e sabedoria que n\u00e3o tenho\u201d.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o gosto do que escrevo.<br \/>\nGosto do que os outros escrevem\u201d.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o pretendo compreender meu pa\u00eds<br \/>\ncomo n\u00e3o pretendo entender a mim mesmo\u201d.<\/p>\n<p>\u201cNunca vi um latino-americano.<br \/>\nE ningu\u00e9m se apresenta a mim como tal\u201d.<\/p>\n<p>\u201cMais grave do que a ru\u00edna, do que a derrota<br \/>\nna guerra, \u00e9 a decad\u00eancia moral\u201d.<\/p>\n<p>\u201cS\u00e3o poucos os pol\u00edticos que sabem<br \/>\nfazer pol\u00edtica. Mas, quando um intelectual<br \/>\ntenta entrar nesse meio, ent\u00e3o \u00e9 o fim de tudo\u201d.<\/p>\n<p>\u201cA cegueira influiu, sem d\u00favida, em minha obra.<br \/>\nMas, n\u00e3o influiu no amor\u201d.<\/p>\n<p>\u201cNingu\u00e9m entende as mulheres, tampouco eu\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEspero que a morte seja total.<br \/>\nTenho a esperan\u00e7a de ser totalmente aniquilado\u201d.<\/p>\n<p>\u201cTemo que a qualquer momento<br \/>\nas pessoas se d\u00eaem conta de que<br \/>\nme superestimaram. Serei, ent\u00e3o, esquecido<br \/>\nou, pior, tratado como um impostor\u201d.<\/p>\n<p>&#8220;Voc\u00ea pode tudo nesta vida.<br \/>\nS\u00f3 n\u00e3o pode se fazer infeliz&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O recado era simples &#8211; e objetivo.<\/p>\n<p>Deveria estar na reda\u00e7\u00e3o da Revista Afinal antes das 17 horas. 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