{"id":10487,"date":"2007-01-28T00:00:00","date_gmt":"2007-01-28T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T04:12:14","modified_gmt":"2017-09-14T04:12:14","slug":"eu-era-feliz-e-nao-sabia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/eu-era-feliz-e-nao-sabia\/","title":{"rendered":"Eu era feliz e n\u00e3o sabia&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 gostosamente dif\u00edcil permanecer concentrado no trabalho mais do que alguns instantes nessas tardes de sol. <\/p>\n<p>Creio que, como eu, voc\u00ea tamb\u00e9m, amigo leitor, j\u00e1 se surpreendeu a olhar o horizonte por mais cinzento que seja, com pensamento a viajar por plagas nem nunca dantes imaginadas pelo seu imediatamente superior chefe. Na mesa ao lado, ele esbraveja e nada entre ondas e rodamoinhos de pap\u00e9is a despachar. <\/p>\n<p>E resmunga e bufa e tem piripaques&#8230;<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Mal sabe ele que voc\u00ea agora invade o t\u00fanel do tempo e aporta num ancoradouro do lago de \u00e1guas ent\u00e3o serenas do Parque da Aclima\u00e7\u00e3o. Cal\u00e7a rancheira Far West (cal\u00e7\u00e3o por baixo, para eventuais mergulhos), conga azulzinho e camisa esgar\u00e7ada, pronto para o que der e vier. A aula no Grupo Escolar Oscar Thompson j\u00e1 ficou para tr\u00e1s (pela manh\u00e3, o tempo passa mais r\u00e1pido), almo\u00e7o bom e agora s\u00f3 espera chegar o resto do pessoal para um &quot;racha&quot; no barranc\u00e3o. <\/p>\n<p>Algu\u00e9m falou que o Orelhano tem uma bola de capot\u00e3o. Um luxo inimagin\u00e1vel para a garotada pobre da Muniz de Souza e arredores. Tr\u00eas times, no m\u00ednimo. Quem ganha, fica. Quem perde, espera vez. <\/p>\n<p>\u00c9 preciso sorte para cair no melhor time e jogar at\u00e9 se estourar. Todo mundo descal\u00e7o, n\u00e3o h\u00e1 &quot;tampa&quot; de ded\u00e3o que resista intacta, ralando at\u00e9 escurecer&#8230; \u00d4 jeito bom de levar a vida&#8230;<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>\u00c0 noite, banho tomado, roupa limpinha, era hora de ficar perambulando pelas ruas, de t\u00eanue ilumina\u00e7\u00e3o. Ouvir o Bilex contar os causos que na hora inventava e nos transformava em super-her\u00f3is, capazes de proezas e feitos mirabolantes. <\/p>\n<p>Melhor: pod\u00edamos escolher a pr\u00f3pria namorada que, nesses enredos fantasiosos, era apaixonada por aquele que primeiro falasse seu nome. &quot;Eu quero a L\u00edgia&quot; &#8211; gritavamos quase ao mesmo tempo. <\/p>\n<p>Cabia a imponder\u00e1vel jurisprud\u00eancia do Bilex a senten\u00e7a final: a quem pertenceria a bela L\u00edgia naquela noite. <\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Pura imagina\u00e7\u00e3o&#8230; <\/p>\n<p>Nunca sentimos sequer o perfume infanto-juvenil da menina que aprendia piano com a professora Antonia e, aos domingos, suprema magia, dan\u00e7ava no programa da TV Record, Grande Gincana Kibon. <\/p>\n<p>E a mais triste das tristezas: ela, aos 11 anos, namorava &#8212; e de verdade, aos beijos sugados que nos matavam de inveja &#8212; o Dalton, de 16. O que para n\u00f3s que mal t\u00ednhamos feito 12 era o absurdo dos absurdos.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Mas, nem por isso sofr\u00edamos. <\/p>\n<p>Havia sempre uma venturosa aventura a ser vivida na pr\u00f3xima esquina. Podia ser a estrepitosa estr\u00e9ia do filme Help dos Beatles no cine Riviera. Ou mesmo os empolgantes &quot;pegas&quot; de carrinho de rolem\u00e3, ladeira abaixo na Dom Duarte Leopoldo. Alguns preferiam as intermin\u00e1veis &quot;fam\u00edlia&quot; na mesa de ping-pong (acho que t\u00eanis de mesa n\u00e3o existia) na sede do glorioso Santos Futebol Clube do Cambuci. <\/p>\n<p>Outra alternativa \u2013 para dias de bobeira generalizada &#8211; era ir a p\u00e9 at\u00e9 a Pra\u00e7a da S\u00e9, cabe\u00e7a baixa a procurar carteira de cigarros estrangeiras. Malboro, Lucky Strike, Chesterfield, Camelot, Parlyament, Pall Mall eram raridades disputad\u00edssimas por nossos atentos e sonhadores olhares. <\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Particularmente, gostava de ficar nas proximidades do Maloc\u00e3o da Muniz de Souza. Era ali que, duas ou tr\u00eas vezes por semana (domingo era certeza), os batuqueiros da Imp\u00e9rio do Cambuci reuniam-se para cantar velhos e inesquec\u00edveis sambas de Ataulfo Alves e outros autores da mesma estirpe.<\/p>\n<p>Faziam um baticum mais cadenciado que sei l\u00e1 por onde e porque tocava fundo minhalma e cora\u00e7\u00e3o. Havia um encanto, algo acima do bem ou do mal, acima dos Beatles ou dos emergentes Rolling Stones. <\/p>\n<p>Foi por essa \u00e9poca que, pela primeira vez, senti a garganta embargada por um n\u00f3 ao ouvir uma can\u00e7\u00e3o dolente que levou \u00e0s l\u00e1grimas o v\u00f4 Carlito, aposentado da se\u00e7\u00e3o de chapelaria do Ramenzzoni. <\/p>\n<p>Os versos falavam em &quot;jogo de bot\u00e3o pela cal\u00e7ada&quot; e numa pungente saudade da professorinha que lhe &quot;ensinou o b\u00ea-\u00e1-b\u00e1&quot;. S\u00f3 hoje, quase quase meio s\u00e9culo depois, sou capaz de entender a genialidade do velho Ata\u00falfo ao lembrar de sua inf\u00e2ncia na pequenina Mira\u00ed.<\/p>\n<p>&quot;Eu era feliz e n\u00e3o sabia&#8230;&quot;<\/p>\n[Texto publicado no livro \u201cVolteios &#8211; Cr\u00f4nicas, lembran\u00e7as e devaneios&quot;]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 gostosamente dif\u00edcil permanecer concentrado no trabalho mais do que alguns instantes nessas tardes de sol. <\/p>\n<p>Creio que, como eu, voc\u00ea tamb\u00e9m, amigo leitor, j\u00e1 se surpreendeu a olhar o horizonte por mais cinzento que seja,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-10487","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-parangoles"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10487","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10487"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10487\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13983,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10487\/revisions\/13983"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10487"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10487"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10487"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}