{"id":10498,"date":"2007-02-05T00:00:00","date_gmt":"2007-02-05T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T04:11:10","modified_gmt":"2017-09-14T04:11:10","slug":"bia-partes-i-e-ii","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/bia-partes-i-e-ii\/","title":{"rendered":"Bia (Partes I e II)"},"content":{"rendered":"<p>Para Fabi, que leu antes<br \/>\ne achou divertido&#8230;<\/p>\n<p>I.<\/p>\n<p>Era um h\u00e1bito antigo:<br \/>\no de falar sozinho, em voz alta,<br \/>\nquando est\u00e1 ao volante<br \/>\ndo velho Santana prata. <\/p>\n<p>Chega at\u00e9 a gesticular e, n\u00e3o raras vezes,<br \/>\naltera-se nesse bate-boca dele<br \/>\npara com ele. Quer dizer, h\u00e1 sempre<br \/>\num interlocutor imagin\u00e1rio, como<br \/>\nse estivesse ali, no banco do passageiro. <\/p>\n<p>Pode ser algu\u00e9m que lhe seja caro, querido<br \/>\nmesmo, a precisar de bons conselhos.<br \/>\nOu ent\u00e3o a discuss\u00e3o \u00e9 s\u00e9ria, pra valer,<br \/>\ncom advers\u00e1rios moment\u00e2neos<br \/>\nque lhe prop\u00f5em pol\u00eamicas transcendentais:<br \/>\na mesa redonda esportiva de ontem<br \/>\nou o que escreveu o Cony na coluna de hoje.<\/p>\n<p>\u00c9 bem verdade que, via de regra,<br \/>\nos desafetos se d\u00e3o por vencidos e<br \/>\nreconhecem seus argumentos inabal\u00e1veis&#8230;<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Era o que fazia naquela manh\u00e3<br \/>\nde s\u00e1bado. Dirigia-se para o trabalho \u2013<br \/>\nquer dizer, n\u00e3o para o trabalho; mas,<br \/>\numa dessas reuni\u00f5es fora do expediente<br \/>\nem que, sabia de antem\u00e3o, ouviria<br \/>\ntudo o que o supervisor seria obrigado<br \/>\na dizer em nome da empresa.<\/p>\n<p>Assim que ganhou a rua, por\u00e9m,<br \/>\no aborrecimento deu lugar \u00e0 curiosidade.<br \/>\nEm frente ao pr\u00e9dio onde mora,<br \/>\nviu um rapaz a ajeitar, na ca\u00e7amba<br \/>\nde uma dessas picapes pesadonas,<br \/>\nas tralhas de quem iria surfar.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Foi o suficiente para lembrar de Bia,<br \/>\na surfista misteriosa que, vez ou outra,<br \/>\naparecia no escrit\u00f3rio, atr\u00e1s do pai,<br \/>\no bendito supervisor. O &#8216;velho&#8217; se<br \/>\nderretia pela mo\u00e7a, a\u00ed pelos seus<br \/>\n20 quase 30 de fina estampa.<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 um belo &#8216;peda\u00e7o&#8217; essa minha filha, n\u00e3o?<\/p>\n<p>Na reparti\u00e7\u00e3o, os marmanjos concordavam,<br \/>\nmas silenciosamente. Com um breve<br \/>\nbalan\u00e7ar de cabe\u00e7a. Temiam se indispor<br \/>\ncom pai t\u00e3o zeloso e chefe t\u00e3o imprevis\u00edvel.<\/p>\n<p>Lembrou a cena e logo achou de incluir<br \/>\na loira &#8211; sim, porque Bia era loira &#8211; no grupo<br \/>\ndas pessoas que lhe eram queridas \u2013 e,<br \/>\nnum instante, a mo\u00e7a tomou<br \/>\nassento ao seu lado. Magia, encantamento,<br \/>\nimagina\u00e7\u00e3o. Ele n\u00e3o soube explicar,<br \/>\nmas ficou feliz pra caramba.<\/p>\n<p>&#8212; Alucina\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o, \u00e9 bom v\u00ea-la<br \/>\npor aqui, disse com o cora\u00e7\u00e3o a mil.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Lembrou que, noite dessas,<br \/>\nencontraram-se num desses chats<br \/>\nde bate-papo &#8211; ou seria no msn? Conversaram<br \/>\namenidades. E sequer se despediram. <\/p>\n<p>De qualquer forma, come\u00e7ou<br \/>\na conversa por a\u00ed: o sim e o n\u00e3o<br \/>\nda &#8216;virtualidade&#8217; nossa de cada dia. <\/p>\n<p>&#8212; Ser\u00e1 que essa manifesta\u00e7\u00e3o resiste,<br \/>\nem muitos casos, porque se vale da prote\u00e7\u00e3o<br \/>\nestrat\u00e9gica da telinha e do liga e desliga<br \/>\nque o computador permite?<\/p>\n<p>Sua pergunta ficou sem resposta,<br \/>\npois a surfistinha \u2013 que n\u00e3o era a Bruna \u2013<br \/>\nn\u00e3o estava mais ali, ao seu lado. A bem da<br \/>\nverdade, sabemos todos, ela nunca esteve&#8230;<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o queria perd\u00ea-la.<br \/>\nEnt\u00e3o, ent\u00e3o foi ao seu encontro.<\/p>\n<p>Fra\u00e7\u00f5es de segundos&#8230;<\/p>\n<p>Imaginou ela e o mar, tipo filminho.<br \/>\nConfirmou: estava apaixonado!<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, desarvorou-se num delirio.<br \/>\nViu-se numa dessas praias do Litoral Norte<br \/>\ne discretamente notou que ela<br \/>\ntamb\u00e9m acabara chegar. <\/p>\n<p>&#8212; Cheguei a tempo, parabenizou-se.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>\u00c0 essa altura, o carro, como podem<br \/>\nperceber, seguia no piloto autom\u00e1tico.<\/p>\n<p>&#8212; Que lindeza!<\/p>\n<p>Bia vestia aquela roupa estranha, justa,<br \/>\nemborrachada, colada ao corpo;<br \/>\nde pele queimada e pelos claros.<\/p>\n<p>&#8212; Meu Deus!<\/p>\n<p>Ela cortou a areia, praia adentro,<br \/>\nrumo ao mar. Suas pegadas deixavam<br \/>\num rastro sinuoso, como um convite<br \/>\npara que ele a seguisse&#8230;<\/p>\n<p>Conteve-se, por\u00e9m.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m pudera&#8230;<br \/>\nEstava de camisa, jeans, sapat\u00eanis.<br \/>\nEnfim, a roupa com que ia para a reuni\u00e3o. <\/p>\n<p>R\u00e1pido, pegou o \u00f3culos<br \/>\nde sol para disfar\u00e7ar&#8230; <\/p>\n<p>E, percebam, nem estava<br \/>\nesse sol todo, n\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>VII. <\/p>\n<p>Mar revolto, sol, ela sobre a prancha<br \/>\n\u00e0 espera do grande desafio&#8230; <\/p>\n<p>Vivam a cena que desenhou a imagina\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo rapaz, agora sob as lentes do amor.<br \/>\nA silhueta \u2013 sempre bonita \u2013 enfeitava<br \/>\no cen\u00e1rio alguns cent\u00edmetros<br \/>\naqu\u00e9m da linha do horizonte&#8230;.<\/p>\n<p>E ele diante \u2013 e distante \u2013<br \/>\nde tudo aquilo desconfiou:<br \/>\nca\u00edra na cilada que o acaso armou.<\/p>\n<p>N\u00e3o tinha a menor intimidade<br \/>\ncom o esporte, com as tais manobras,<br \/>\no falar, a m\u00fasica, o modo de ser e<br \/>\nestar dessa trupe a que ela pertence. <\/p>\n<p>Desistir, nunca. Abra\u00e7ou o nada<br \/>\ne se p\u00f4s a devanear dentro do devaneio. <\/p>\n<p>Se \u00e9 que isso \u00e9 poss\u00edvel? <\/p>\n<p>VIII. <\/p>\n<p>Simples. S\u00f3 precisaria de<br \/>\numa boa argumenta\u00e7\u00e3o para ficar<br \/>\nna boa com Bia. <\/p>\n<p>Era o que melhor sabia fazer&#8230;<\/p>\n<p>Na primeira oportunidade,<br \/>\nEle lhe diria, sem qualquer hesita\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>Aspas, no lugar de travess\u00e3o,<br \/>\npara o nosso her\u00f3i, e tamb\u00e9m<br \/>\npara que o leitor n\u00e3o se perca&#8230;<\/p>\n<p>\u201dPegar onda \u00e9 muito pr\u00f3ximo ao<br \/>\nque vivemos em nosso dia-a-dia.<br \/>\nClaro, claro, sem a mesma poesia. <\/p>\n<p>Mas, em um contexto mais amplo,<br \/>\ntudo o que precisamos \u00e9 nos manter de p\u00e9,<br \/>\nsingrando ondas e obst\u00e1culos. <\/p>\n<p>Olhar o nada, imaginar caminhos,<br \/>\nsegurar o equil\u00edbrio. Fazer o melhor. <\/p>\n<p>De prefer\u00eancia, e se poss\u00edvel<br \/>\n(sei que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil assim),<br \/>\nter algu\u00e9m encantado a nos<br \/>\nesperar, ali, a 50 metros da areia.\u201d <\/p>\n<p>IX. <\/p>\n<p>Sentiu o calor do sol encharcar<br \/>\nsuas roupas. Mas, estava t\u00e3o comovido<br \/>\ncom sua filosofia beira-mar. N\u00e3o podia<br \/>\nperder agora o fio da meada. <\/p>\n<p>Ele falava como se ela estivesse,<br \/>\noutra vez, ali ao seu lado. Agora<br \/>\nde cabelo molhado e um jeito de<br \/>\nquem concorda com tudo o que ele diz&#8230;<\/p>\n<p>Aspas, de novo:<\/p>\n<p>\u201cRepare, sempre e sempre toda<br \/>\na\u00e7\u00e3o come\u00e7a definitiva (um ir sem volta)<br \/>\nnum brev\u00edssimo impulso nosso&#8230;<br \/>\nE \u00e9 uma voz l\u00e1 no fundinho<br \/>\nque manda: vai&#8230; <\/p>\n<p>E vamos ou n\u00e3o. Esperamos<br \/>\noutro momento, outra onda a se erguer<br \/>\nno mar aberto da vida&#8230; <\/p>\n<p>A performance vale-se da t\u00e9cnica.<br \/>\nMas o final-feliz fica na depend\u00eancia<br \/>\ndas chamadas for\u00e7as da natureza&#8230; <\/p>\n<p>Queiramos ou n\u00e3o, \u00e9 assim.\u201d <\/p>\n<p>X.<\/p>\n<p>Sei l\u00e1, sei l\u00e1&#8230;<br \/>\nA hora do sim \u00e9 o descuido do n\u00e3o&#8230;<br \/>\nSei l\u00e1, Sei l\u00e1<br \/>\nS\u00f3 sei que \u00e9 preciso paix\u00e3o<br \/>\nSei l\u00e1, Sei l\u00e1,<br \/>\na vida tem sempre raz\u00e3o&#8230; <\/p>\n<p>As vozes de Vin\u00edcius e Toquinho<br \/>\nsa\u00edram do r\u00e1dio para se aninhar<br \/>\nna mente criativa do pobre rapaz.<br \/>\nO port\u00e3o eletr\u00f4nico do pr\u00e9dio<br \/>\nespelhado, onde trabalha, o trouxe<br \/>\nde volta \u00e0 realidade. Ou quase&#8230; <\/p>\n<p>S\u00f3 ent\u00e3o percebeu que estava<br \/>\nde vidros fechados e sequer tivera<br \/>\ntempo de ligar o ar condicionado.<\/p>\n<p>XI. <\/p>\n<p>Lentamente, o port\u00e3o se abriu.<br \/>\nE ele entrou no \u2018buraco negro\u2019 da garagem<br \/>\ne do que ainda lhe restava do s\u00e1bado,<br \/>\ncom uma reuni\u00e3o chat\u00edssima de permeio. <\/p>\n<p>De pronto, aparece o bom<br \/>\ne simp\u00e1tico manobrista&#8230; <\/p>\n<p>&#8212; Pode deixar que eu levo. Est\u00e1<br \/>\nchovendo pros lados onde o doutor mora? <\/p>\n<p>O suor empapara suas roupas e rosto.<\/p>\n<p>Dispensou a ironia e seguiu<br \/>\nintr\u00e9pido para o elevador. <\/p>\n<p>Arrastava consigo o cansa\u00e7o<br \/>\nda semana de trabalho. Mas, agora<br \/>\nlevava tamb\u00e9m a acolhedora certeza<br \/>\nde que, em algum lugar deste Litoral,<br \/>\nBia se divertia entre patu\u00e1s, raios de sol,<br \/>\nondas, golfinhos e pranchas. <\/p>\n<p>XII.<\/p>\n<p>No elevador, alguns colegas<br \/>\nse surpreenderam com o estado<br \/>\nl\u00e1stim\u00e1vel do mancebo. Mais ainda, com<br \/>\na express\u00e3o de felicidade no rosto. <\/p>\n<p>Foram doze andares a pensar<br \/>\ncomo tratar o supervisor de agora<br \/>\nem diante. Se devia ou n\u00e3o,<br \/>\ndar ci\u00eancia a ele da nova realidade&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; A\u00ea, sogr\u00e3o, bel\u00ea&#8230;<\/p>\n<p>Saiu naturalmente o cumprimento.<br \/>\nSentiu o peso dos olhares<br \/>\ne, \u00f3bvio, do pr\u00f3prio ex-futuro &#8216;sogr\u00e3o&#8217;.<br \/>\nN\u00e3o conseguiu segurar<br \/>\num sorriso quase desculpa.<\/p>\n<p>Desconfiou, por\u00e9m, que o emprego<br \/>\ncorria s\u00e9rios &#8211; ser\u00edssimos &#8211; riscos.<br \/>\nMas, consolou-se. Valeu: por 20 segundos<br \/>\nfoi o mais feliz dos homens&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para Fabi, que leu antes<br \/>\ne achou divertido&#8230;<\/p>\n<p>I.<\/p>\n<p>Era um h\u00e1bito antigo:<br \/>\no de falar sozinho, em voz alta,<br \/>\nquando est\u00e1 ao volante<br \/>\ndo velho Santana prata.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-10498","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-parangoles"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10498","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10498"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10498\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13981,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10498\/revisions\/13981"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10498"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10498"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10498"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}