{"id":10500,"date":"2007-02-07T00:00:00","date_gmt":"2007-02-07T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:59:53","modified_gmt":"2017-09-15T19:59:53","slug":"made-in-cambuci","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/made-in-cambuci\/","title":{"rendered":"Made in Cambuci"},"content":{"rendered":"<p>A id\u00e9ia era aproveitar o dia ensolarado,<br \/>\nde um inverno at\u00edpico, para percorrer<br \/>\nas cidades da Costa Malfitana. Est\u00e1vamos<br \/>\nem dia com a programa\u00e7\u00e3o da viagem,<br \/>\ne n\u00e3o pretend\u00edamos fazer nenhum pernoite.<br \/>\nHavia uma certa pressa por tornar a Roma.<\/p>\n<p>A estrada estreita e sinuosa corta<br \/>\nas encostas rochosas e oferece<br \/>\nvisuais lind\u00edssimos. O mar Tirreno \u00e9 parceiro<br \/>\nde viagem. Est\u00e1 sempre ali \u00e0 sua direita.<br \/>\nTamb\u00e9m s\u00e3o presen\u00e7as constantes<br \/>\nas cidadezinhas incrustadas nos montes,<br \/>\no desenho irregular dos penhascos<br \/>\nque quebram sobre o mar, as baias<br \/>\ne a linha do horizonte. <\/p>\n<p>De tempos em tempos, aparece<br \/>\numa \u00e1rea de descanso. T\u00eam como fundo,<br \/>\npara variar, cen\u00e1rios deslumbrantes<br \/>\n\u2013 e voc\u00ea se sente, como na velha can\u00e7\u00e3o,<br \/>\na um passo do para\u00edso: o azul do Tirreno,<br \/>\no azul do c\u00e9u, os raios solares e o sil\u00eancio.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Sa\u00edmos de Sorrento, far\u00edamos o p\u00e9riplo<br \/>\nde cidadezinhas e pretend\u00edamos chegar<br \/>\nem Salerno \u2013 a \u00faltima e maior cidade da Costa.<br \/>\nDe l\u00e1, retomar\u00edamos a auto-estrada \u2013<br \/>\nsem limite de velocidade, onde os carros<br \/>\nvoam \u2013 e voltar\u00edamos para Roma.<\/p>\n<p>Esta era a id\u00e9ia&#8230;<\/p>\n<p>&#8230; at\u00e9 chegarmos a Maiori, pouco mais<br \/>\nque uma aldeia \u00e0 beira-mar. Nada muito<br \/>\ndiferente de Ponciano, Castelo del Mare,<br \/>\nRavello, Minori e outras tantas que comp\u00f5em<br \/>\na del\u00edcia daquela da regi\u00e3o, com duomo<br \/>\nno alto da colina, cal\u00e7ad\u00e3o arborizado<br \/>\nonde as pessoas v\u00e3o `palestrar` no<br \/>\nfim de tarde, um pequeno ancoradouro,<br \/>\npescadores solit\u00e1rios e seus barcos e<br \/>\nalgumas plataformas mar adentro&#8230;<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Eram pouco depois das tr\u00eas da tarde.<br \/>\nNesta \u00e9poca, escurece cedo na It\u00e1lia,<br \/>\npor voltas das 17h30. Ent\u00e3o,<br \/>\num bem-aventurado lembrou<br \/>\na possibilidade de assistirmos<br \/>\na um indescrit\u00edvel p\u00f4r-do-sol,<br \/>\nmas ter\u00edamos que mudar nossos planos&#8230;<\/p>\n<p>Ou seja, h\u00e1 uma Maiori no meio do caminho.<br \/>\nNo meio do caminho, h\u00e1 uma Maiori \u2013 e nos<br \/>\ndeixamos ficar entre embevecidos e apaixonados.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Numa ruazinha paralela \u00e0 avenida da praia<br \/>\nde areia escura, o hotel San Francesco<br \/>\nnos acolheu alegremente, diria.<br \/>\nPara um s\u00e1bado de inverno,<br \/>\nnovas levas de turistas s\u00e3o sempre<br \/>\nbem-vindas num balne\u00e1rio europeu.<\/p>\n<p>Rapidamente, acomodamos as bagagens<br \/>\nnos dormit\u00f3rios e sa\u00edmos a explorar a cidade.<br \/>\nO que significa dizer: andar pra l\u00e1 e pra c\u00e1,<br \/>\nsem rumo, nem destino. <\/p>\n<p>\u00c0 noite, nos encontramos para jantar<br \/>\ne comentar as pequenas \u2013 e important\u00edssimas \u2013<br \/>\ndescobertas que cada um fez: uma cafeteria<br \/>\n\u201cque \u00e9 uma gracinha\u201d, uma igrejinha barroca,<br \/>\no pres\u00e9pio \u2013 obrigat\u00f3rio em todas as cidades,<br \/>\num objeto t\u00edpico, coisas assim&#8230; <\/p>\n<p>Todos concordavam: o p\u00f4r do sol foi deslumbrante&#8230;<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Me imaginei um escritor de sucesso.<br \/>\nN\u00e3o teria d\u00favidas em l\u00e1 me estabelecer.<br \/>\nSeria meu ref\u00fagio para escrever romances<br \/>\n`hist\u00f3ricos`&#8211; ali\u00e1s, na It\u00e1lia, uma das palavras<br \/>\nque mais se ouve \u00e9 \u201chist\u00f3rico\u201d. Com alguma raz\u00e3o,<br \/>\nmas outro tanto de exagero, tudo \u00e9 hist\u00f3rico&#8230;<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Mas, isso n\u00e3o chega a incomodar.<br \/>\nNa verdade, est\u00e1vamos mesmo a um passo<br \/>\ndo para\u00edso; n\u00e3o fosse um dos sol\u00edcitos gar\u00e7ons<br \/>\ndo restaurante onde jantamos. <\/p>\n<p>Ele cismou que eu era \u00edtalo-americano<br \/>\ne desandou a falar ingl\u00eas comigo. Eu nada<br \/>\nentendia, e me socorri do meu filho<br \/>\npara desfazer o equ\u00edvoco.<\/p>\n<p>&#8212; Diz para ele que eu sou brasileiro. B r a s i l e i r o!<\/p>\n<p>Acho que entendeu. Mas continuou a falar<br \/>\nem ingl\u00eas com o grupo. Estava se achando, pensei. <\/p>\n<p>Confesso que fiquei invocado.<br \/>\nMas, estava tudo t\u00e3o bom que deixei pra l\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>\u00c0 sa\u00edda, por\u00e9m, o mo\u00e7o veio para o meu lado.<br \/>\nSimp\u00e1tico, arranhou, como p\u00f4de, uma<br \/>\ndespedida num portugu\u00eas macarr\u00f4nico. <\/p>\n<p>&#8212; At\u00e9 a pr\u00f3xima, amigo.<\/p>\n<p>Fiquei t\u00e3o surpreso quanto arrependido.<br \/>\nSem gra\u00e7a mesmo&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ok, ok, ok&#8230;, respondi toscamente, como<br \/>\naut\u00eantico \u00edtalo-americano made in Cambuci.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A id\u00e9ia era aproveitar o dia ensolarado,<br \/>\nde um inverno at\u00edpico, para percorrer<br \/>\nas cidades da Costa Malfitana. Est\u00e1vamos<br \/>\nem dia com a programa\u00e7\u00e3o da viagem,<br \/>\ne n\u00e3o pretend\u00edamos fazer nenhum pernoite.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10500","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10500","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10500"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10500\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17383,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10500\/revisions\/17383"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10500"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10500"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10500"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}