{"id":10503,"date":"2007-02-08T00:00:00","date_gmt":"2007-02-08T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T04:10:47","modified_gmt":"2017-09-14T04:10:47","slug":"recorte-de-jornal","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/recorte-de-jornal\/","title":{"rendered":"Recorte de jornal"},"content":{"rendered":"<p>Desde a semana passada, um recorte de jornal est\u00e1 a me provocar \u2013 e pedir publica\u00e7\u00e3o. Os tons s\u00e9pia da c\u00f3pia e a ilustra\u00e7\u00e3o da velha m\u00e1quina de escrever sugerem um passado bonito, bom de recordar. J\u00e1 o arrazoado de letrinhas finge n\u00e3o estar nem a\u00ed. Mas, traz em si uma amea\u00e7a:<\/p>\n<p>&#8212; Cuida que posso desaparecer de novo \u2013 e a\u00ed?<\/p>\n<p>Vou lhes contar. Trata-se de uma coluna Caro Leitor que escrevi em 23 de janeiro de 1981, um texto que me \u00e9 caro, pois fala da escola onde estudei, dos tempos de crian\u00e7a e das comemora\u00e7\u00f5es do IV Centen\u00e1rio de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Quando escolhi os textos para a colet\u00e2nea de cr\u00f4nicas que lancei em 1997 \u2013 \u00c0s Margens Pl\u00e1cidas do Ipiranga, meu primeiro e at\u00e9 agora \u00fanico livro &#8211;, queria por que queria incluir esse artigo. Mas, por uma dessas \u2018brincadeiras\u2019 do acaso, n\u00e3o consegui encontr\u00e1-lo e, olhem, tinha \u00e0 minha disposi\u00e7\u00e3o o arquivo inteiro do jornal.<\/p>\n<p>Maluquice, n\u00e9? Mas, foi exatamente o que aconteceu.<\/p>\n<p>Publiquei o livro e esqueci do artigo. Os anos se passaram \u2013 tantos, quantos. Mudei eu, mudou voc\u00ea, mudou S\u00e3o Paulo. Mas, na ess\u00eancia, continuamos os mesmos. \u00c9 assim e sempre ser\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>Devaneios \u00e0 parte, eis que, em meio \u00e0 correspond\u00eancia de janeiro, me aparece um envelope desses comuns, sem remetente. N\u00e3o lhe dou nenhuma aten\u00e7\u00e3o. Havia chegado de viagem \u2013 uma muvuca s\u00f3 de jornais, revistas e cartas \u2013 muitas, quase todas comerciais. O \u2018bolo\u2019 de contas a pagar me cobrou aten\u00e7\u00e3o imediata \u2013 mesmo que, posteriormente, retardasse a a\u00e7\u00e3o do pagamento. Mas, isso \u00e9 outra hist\u00f3ria&#8230;<\/p>\n<p>E o envelope ali! Quase, quase o chuto para o lixo sem sequer abri-lo. Imaginei uma dessas \u2018correntes da felicidade\u2019 e&#8230;<\/p>\n<p>Bem, vamos encurtar essa hist\u00f3ria. Noite dessas abri o dito-cujo e l\u00e1 estava o Caro Leitor. Brincadeiras do acaso ou alguma boa alma \u2013 provavelmente, leitor do blog \u2013 que soube do meu interesse em resgatar velhas publica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei \u2013 e n\u00e3o saberei. De qualquer forma, agrade\u00e7o penhoradamente.<\/p>\n<p>Fiquei tentado a esperar pelo 25 de janeiro de 2008 para public\u00e1-lo; anivers\u00e1rio da cidade e tal e cousa e lousa e mariposa. Dava pinta at\u00e9 de um sujeito organizado a planejar o blog com um ano de anteced\u00eancia. Estava preste a dar parab\u00e9ns a mim mesmo. Mas, deu um vento e o tal voou para os confins da estante, como a dizer:<\/p>\n<p>&#8212; Cuida que posso desaparecer de novo \u2013 e a\u00ed?<\/p>\n<p>A\u00ed, que resolvi public\u00e1-lo hoje mesmo.<\/p>\n<p>Dizem que recordar \u00e9 viver.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Tomara que gostem!<\/p>\n<p>CARO LEITOR,<\/p>\n<p>\u201cSurpreende-me a not\u00edcia de que o velho casar\u00e3o da Bom Pastor que, durante longos anos, foi sede do Col\u00e9gio IV Centen\u00e1rio est\u00e1 sendo demolido \u201ca toque-de-caixa\u201d. Caminho quarteir\u00e3o e meio e constato a veracidade da informa\u00e7\u00e3o. Uma dezena de homens num trabalho cont\u00ednuo p\u00f5e abaixo as paredes do tradicional estabelecimento de ensino.<\/p>\n<p>N\u00e3o entendo minha surpresa. H\u00e1 alguns anos o IV Centen\u00e1rio deixou de funcionar, \u201ctornou-se invi\u00e1vel\u201d. E mesmo que discretamente o casar\u00e3o, desabitado faz um bom tempo, ostentava a indefect\u00edvel placa de \u201cVende-se\u201d.<\/p>\n<p>Indiferentes \u00e0s minhas observa\u00e7\u00f5es, os trabalhadores seguem empenhados em n\u00e3o deixar pedra sobre pedra. Assalta-me uma estranha sensa\u00e7\u00e3o de desconforto, de vazio. Volto \u00e0 Reda\u00e7\u00e3o a remoer as raz\u00f5es de tais sentimentos.<\/p>\n<p>Puxo pela mem\u00f3ria. Mexo e remexo. Recordo-me que outras perdas j\u00e1 me passaram a mesma amarga impress\u00e3o. Assim como o velho casar\u00e3o, o cine Paroquial, o bonde F\u00e1brica, o futebol do Clube Atl\u00e9tico Ypiranga, a pra\u00e7a de esportes do Sinclair, a avenida Dom Pedro como um boulevard estritamente residencial \u2013 todos esses s\u00e3o hoje apenas reminisc\u00eancias. Transformaram-se em s\u00edmbolos de um tempo que ficou para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Um tempo em que as pessoas ainda acreditavam transformar S\u00e3o Paulo numa grande metr\u00f3pole. Mas, entendiam que esse desenvolvimento estaria diretamente ligado \u00e0 conquista de uma vida melhor. Para todos os paulistanos.<\/p>\n<p>Volto para a Reda\u00e7\u00e3o e tomo contato com a programa\u00e7\u00e3o oficial de anivers\u00e1rio da cidade, minuciosamente preparada pela Secretaria Municipal de Cultura. Durante toda a semana teremos shows, passeios, exposi\u00e7\u00f5es e inaugura\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Certamente induzido pelas cenas que acabo de ver, penso logo na S\u00e3o Paulo semi-provinciano de 1954, justamente quando reverenciou festivamente o IV* Centen\u00e1rio. N\u00e3o lembro bem se, por aquela \u00e9poca, j\u00e1 havia o slogan \u201ca cidade que mais cresce no mundo\u201d. Talvez sim. Mas, estou certo de que no fundo, no fundo, seus poucos milh\u00f5es de habitantes mostravam-se determinados a igualar S\u00e3o Paulo \u00e0s maiores cidades do planeta. Estavam determinados ao progresso, ao que modernamente passou se a chamar desenvolvimento.<\/p>\n<p>Lembro que, na noite de 25 de janeiro de 1954, uma \u2018chuva\u2019 de finas l\u00e2minas prateadas \u2013 fen\u00f4meno, diga-se, forjado com o inestim\u00e1vel aux\u00edlio de alguns teco-tecos \u2013 inundou a cidade. As l\u00e2minas tinham forma triangular e, se n\u00e3o me engano, aproximadamente 15 cent\u00edmetros de comprimento. Ca\u00edam do c\u00e9u para curiosidade dos adultos e festa da garotada \u2013 decidida a recolher o maior n\u00famero delas. Traziam, al\u00e9m dos dizeres alusivos \u00e0 data, o imponente escudo da cidade.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se meus olhos de crian\u00e7a impressionaram-se demais com a promo\u00e7\u00e3o. Mas, n\u00e3o tenho d\u00favidas ser esta a lembran\u00e7a mais agrad\u00e1vel que tenho dos anivers\u00e1rios de S\u00e3o Paulo. Algo que permanece inesquec\u00edvel pela singela, pelo extraordin\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u201cOs tempos eram outros\u201d, h\u00e1 de intervir o amigo leitor. E com raz\u00e3o. S\u00e3o Paulo apenas sonhava ser o que hoje \u00e9. Ou melhor: de l\u00e1 para c\u00e1, a cidade cresceu, como se prop\u00f4s. Mais e mais. Chegou mesmo ao n\u00edvel das metr\u00f3poles mundiais. N\u00e3o contava, entretanto, com as deformidades inerentes a tamanho e t\u00e3o r\u00e1pido desenvolvimento. Nem com a inc\u00faria dos administradores que, n\u00e3o raras vezes, puseram a perder o trabalho e os ideais de toda uma comunidade.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde a semana passada, um recorte de jornal est\u00e1 a me provocar \u2013 e pedir publica\u00e7\u00e3o. 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