{"id":10505,"date":"2007-02-11T00:00:00","date_gmt":"2007-02-11T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:58:30","modified_gmt":"2017-09-15T19:58:30","slug":"eufrazio","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/eufrazio\/","title":{"rendered":"Eufr\u00e1zio"},"content":{"rendered":"<p>Eufr\u00e1zio n\u00e3o nasceu aqui.<br \/>\nVeio menino de tudo para c\u00e1.<br \/>\nTinha l\u00e1 seus dez, doze anos.<br \/>\nChegou mais pai, m\u00e3e e<br \/>\numa penca de irm\u00e3os. <\/p>\n<p>N\u00e3o sabiam o que iriam enfrentar.<br \/>\nMas, vieram com a cara, a coragem,<br \/>\nuns trapinhos e uma baita fome<br \/>\nde muitos dias. <\/p>\n<p>Na bol\u00e9ia do pau-de-arara<br \/>\nque os trouxe, comiam era p\u00f3<br \/>\ne um naco de esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo j\u00e1 \u00e0quela \u00e9poca dava a pala<br \/>\nda cidade louca e envolvente que ainda<br \/>\nhoje \u00e9. Estudantes nas ruas.<br \/>\nO Santos de Pel\u00e9. Os festivais da Record&#8230; <\/p>\n<p>(\u00c0 primeira impress\u00e3o que teve<br \/>\nao ouvir &quot;Domingo no Parque&quot;<br \/>\nnum radinho Speaker foi de imensa tristeza,<br \/>\ncomo se conhecesse Jo\u00e3o e Jos\u00e9.<br \/>\n&quot;Eles eram t\u00e3o amigos&quot;, lamentou). <\/p>\n<p>&#8230; Os autom\u00f3veis, \u00f4nibus, o Viaduto do Ch\u00e1<br \/>\n&#8212; enfim, os atribulados anos 60 a mudar<br \/>\nas fei\u00e7\u00f5es da cidade\/locomotiva que<br \/>\nlevaria &quot;o Brasil rumo ao seu grande destino&quot;.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Tinha consci\u00eancia de que n\u00e3o era<br \/>\num pioneiro. Desde meados da d\u00e9cada anterior,<br \/>\ntocadas pela seca e pela mis\u00e9ria,<br \/>\nlevas e levas de nordestinos migraram<br \/>\npara o que imaginavam ser o sulmaravilha. <\/p>\n<p>Vinham como podiam. <\/p>\n<p>Traziam um balaio de tralhas,<br \/>\num aboio de saudade no peito e<br \/>\no \u00e1spero sonho de uma vida melhor. <\/p>\n<p>\u00c1spero porque n\u00e3o enternecia,<br \/>\nn\u00e3o encantava&#8230; <\/p>\n<p>Debandavam porque a terra estorricada<br \/>\nn\u00e3o lhes dava outra alternativa. <\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Eufr\u00e1zio e os seus foram dar<br \/>\ncom os costados (ou o que restou deles)<br \/>\nnum corti\u00e7o, l\u00e1 no Cambuci. <\/p>\n<p>O galp\u00e3o de uma f\u00e1brica abandonada<br \/>\ntransformara-se no abrigo de uma dezena<br \/>\nde fam\u00edlias aparentadas ou simplesmente<br \/>\nvindas das mesmas paragens. <\/p>\n<p>Velhos len\u00e7\u00f3is e grandes peda\u00e7os<br \/>\nde lona usada tomavam forma de paredes<br \/>\ne delimitavam os c\u00f4modos<br \/>\nque cada grupo ocupava. <\/p>\n<p>Notou os vincos de arrependimento<br \/>\nno rosto do pai. Os irm\u00e3os reclamavam<br \/>\nentre si. Falavam em fugir, falavam em voltar,<br \/>\nfalavam da besteira que fizeram em vir,<br \/>\ndo cinza do c\u00e9u, da pressa e amargor do<br \/>\npovo nas ruas, indo e vindo,<br \/>\nindo e vindo, sem rumo, sem prumo,<br \/>\nindo e vindo, indo e vindo,<br \/>\nsem nada entender, sem nada conquistar.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Amea\u00e7aram ir ao pai.<br \/>\nLogo entenderam que seria em v\u00e3o.<br \/>\nN\u00e3o era coisa de cabra-macho dar para tr\u00e1s.<br \/>\nDecis\u00e3o tomada era decis\u00e3o cumprida. <\/p>\n<p>Vieram para S\u00e3o Paulo e<br \/>\nn\u00e3o tinham sequer como voltar.<br \/>\nTeriam de se aguentar. <\/p>\n<p>Aquela espelunca era um bafo quente s\u00f3.<br \/>\nFedia a urina e a suor.<br \/>\nAs crian\u00e7as menores choravam&#8230;<\/p>\n<p>Em compensa\u00e7\u00e3o, o cimento<br \/>\ndo ch\u00e3o \u00e0 noite era gelado, duro&#8230;<br \/>\nN\u00e3o havia como dormir.<br \/>\nN\u00e3o havia como n\u00e3o sonhar.<br \/>\nN\u00e3o haveria volta&#8230;<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>&#8212; Um dia, a gente pega o caminho<br \/>\nde volta &#8212; era o irm\u00e3o mais velho,<br \/>\no Belgrado (que mais tarde ficou conhecido<br \/>\nno peda\u00e7o como Becec\u00ea, nome<br \/>\nde um ponta-esquerda baiano,<br \/>\nde chute forte, que o Palmeiras<br \/>\nacabara de trazer da Bahia). <\/p>\n<p>Era o \u00fanico que se preocupava<br \/>\nem lhe consolar sempre que,<br \/>\ndesolado num canto, enfiava<br \/>\na cabe\u00e7a entre os joelhos, procurava<br \/>\nesconder o choro e a humilha\u00e7\u00e3o<br \/>\nde estar ali, naquele momento,<br \/>\nnum lugar que n\u00e3o era o seu,<br \/>\nnum tempo que teimava em n\u00e3o passar. <\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>De nada valeu o desespero.<br \/>\nDe nada valeu a amea\u00e7a de rebeli\u00e3o.<br \/>\nO sil\u00eancio do pai anunciava a decis\u00e3o. <\/p>\n<p>Aos poucos, o cimento se<br \/>\nentranhou no corpo e na alma.<br \/>\nEra o jeito de amoldarem \u00e0 nova vida. <\/p>\n<p>Foram se deixando ficar. <\/p>\n<p>O pai arranjou um emprego numa constru\u00e7\u00e3o.<br \/>\nOs irm\u00e3os cresciam, davam rumo<br \/>\n\u00e0s suas vidas. Nada era maravilhoso.<br \/>\n\u00d3bvio que n\u00e3o. Nada era f\u00e1cil. <\/p>\n<p>Mas, tem uma coisa,<br \/>\ncomida j\u00e1 n\u00e3o faltava&#8230;<\/p>\n<p>*AMANH\u00c3 CONTINUA&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eufr\u00e1zio n\u00e3o nasceu aqui.<br \/>\nVeio menino de tudo para c\u00e1.<br \/>\nTinha l\u00e1 seus dez, doze anos.<br \/>\nChegou mais pai, m\u00e3e e<br \/>\numa penca de irm\u00e3os. <\/p>\n<p>N\u00e3o sabiam o que iriam enfrentar.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10505","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10505","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10505"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10505\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17379,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10505\/revisions\/17379"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10505"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10505"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10505"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}