{"id":10506,"date":"2007-02-12T00:00:00","date_gmt":"2007-02-12T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:58:30","modified_gmt":"2017-09-15T19:58:30","slug":"eufrazio-o-da-bahia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/eufrazio-o-da-bahia\/","title":{"rendered":"Eufr\u00e1zio, o &quot;Da Bahia&quot;"},"content":{"rendered":"<p>Parte 2<\/p>\n<p>VIII.<\/p>\n<p>O menino entendeu logo do que<br \/>\na cidade \u00e9 feita. Pelo menos, ouviu dizer.<br \/>\nE se apoderou do recado.<br \/>\nDe f\u00e9, trabalho e perseveran\u00e7a. <\/p>\n<p>Sempre foi de fazer suas ora\u00e7\u00f5es,<br \/>\nmesmo sem freq\u00fcentar a igreja.<br \/>\nAcreditava em Deus e se considerava<br \/>\num homem (um menino!) de f\u00e9. <\/p>\n<p>Quanto a tal perseveran\u00e7a,<br \/>\nn\u00e3o sabia exatamente o que significava,<br \/>\nmas com o tempo aprenderia.<br \/>\nN\u00e3o devia ser bicho de sete cabe\u00e7as, n\u00e3o.<\/p>\n<p>Restou-lhe, de imediato, o trabalho. <\/p>\n<p>IX.<\/p>\n<p>Pois, foi a luta&#8230; <\/p>\n<p>Come\u00e7ou por carregar as sacolas e<br \/>\nos carrinhos das madames que voltavam<br \/>\nda feira-livre. Lavou vidros na farm\u00e1cia<br \/>\ndo seo Nestor &#8212; o que lhe garantia at\u00e9<br \/>\nuns trocados para a matin\u00e9 do cine Riviera<br \/>\nnas tardes de domingo.<\/p>\n<p>Mais crescidinho foi parar<br \/>\nna cozinha de um restaurante l\u00e1<br \/>\nno centro da cidade. <\/p>\n<p>Ajudava no que podia.<br \/>\nCobria as folgas de quem lhe desse uns tost\u00f5es.<br \/>\nEra prestativo e atencioso com todos. <\/p>\n<p>X.<\/p>\n<p>Caiu nas gra\u00e7as do patr\u00e3o que<br \/>\nlogo o promoveu a assistente de cozinha.<br \/>\nUma quest\u00e3o de tempo e virou cozinheiro,<br \/>\ndepois gar\u00e7om (com direito a gorjeta) e maitre. <\/p>\n<p>Por essa \u00e9poca achou conveniente<br \/>\nfazer um curso madureza. O novo cargo<br \/>\nexigia uma certa cultura. <\/p>\n<p>Ademais, a essa altura da sua vida,<br \/>\nestava casado e, como convinha \u00e0s regras<br \/>\nda cidade, tinha um casal de filhos,<br \/>\num Fusca e um viol\u00e3o, em que por vezes<br \/>\nmatava a saudade da terrinha,<br \/>\nentoando um forr\u00f3zinho lascado.<\/p>\n<p>Mas, o tempo era pouco.<br \/>\nO trabalho, muito. Sete dias por semana,<br \/>\nsem folga. De domingo a domingo.<\/p>\n<p>Ele agradecia por isso.<\/p>\n<p>&#8212; Gra\u00e7as a Deus, \u00e0 Virgem Imaculada,<br \/>\naos anjos e a todos os santos. Am\u00e9m!<\/p>\n<p>XI.<\/p>\n<p>Quando o patr\u00e3o se cansou da lida,<br \/>\nprop\u00f4s um trato. Coisa de pai pra filho.<\/p>\n<p>&#8212; O &quot;Da Bahia&quot; (apelido com que um dos<br \/>\nfregueses lhe presenteou junto a gra\u00fadas<br \/>\ngorjetas) quer \u2018tocar\u2019 a Casa? <\/p>\n<p>Em troca, queria uma pens\u00e3o<br \/>\nmensal &#8212; e vital\u00edcia. Nenhum absurdo. <\/p>\n<p>Ele (o patr\u00e3o) n\u00e3o tinha filhos,<br \/>\nnem mulher (s\u00f3 uma velha conhecida<br \/>\nque visitava de vez em quando,<br \/>\nmais para conversar do que<br \/>\npropriamente para outras finalidades).<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 pegar ou largar?<br \/>\nMas fa\u00e7o gosto que aceite&#8230;<\/p>\n<p>XII.<\/p>\n<p>Pegou. Aceitou. Agradeceu.<br \/>\nA Deus, \u00e0 Virgem Imaculada, aos anjos<br \/>\ne a todos os santos. E ao patr\u00e3o,<br \/>\nagora s\u00f3cio, claro&#8230;<\/p>\n<p>Era mais do que justo.<br \/>\nO velho sempre gostou do empenho<br \/>\ncom que o &quot;Da Bahia&quot; demonstrou<br \/>\npara tocar o restaurante, como<br \/>\nse ele pr\u00f3prio fosse o dono&#8230; <\/p>\n<p>De resto, sabiamente, o velho<br \/>\nnunca confiou em parentes. <\/p>\n<p>&#8212; Parente \u00e9 serpente \u2013 dizia com<br \/>\nsorriso de quem j\u00e1 viveu o suficiente<br \/>\npara saber o que est\u00e1 dizendo&#8230;<\/p>\n<p>*AMANH\u00c3 TERMINA&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Parte 2<\/p>\n<p>VIII.<\/p>\n<p>O menino entendeu logo do que<br \/>\na cidade \u00e9 feita. 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