{"id":10509,"date":"2007-02-15T00:00:00","date_gmt":"2007-02-15T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:58:30","modified_gmt":"2017-09-15T19:58:30","slug":"brasil-mostra-a-tua-cara","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/brasil-mostra-a-tua-cara\/","title":{"rendered":"Brasil, mostra a tua cara!"},"content":{"rendered":"<p>Atendo hoje ao pedido do amigo Walter da Silva, com quem trabalhei nos mais antigos dos anos na Reda\u00e7\u00e3o da ent\u00e3o combativa Gazeta do Ipiranga. Hoje, o Walt\u00e3o est\u00e1 no ABCD Jornal e, dias desses, veio me visitar aqui, na Metodista.<\/p>\n<p>O amigo me convenceu a replicar aqui a cr\u00f4nica que escrevi e publiquei em 7 de agosto de 1981. Segundo ele, o texto retrata ainda hoje a cara e o jeito do brasileiro ao enfrentar os desafios di\u00e1rios \u2013 e, por vezes, desoladores, como a morte do menino Jo\u00e3o H\u00e9lio.<\/p>\n<p>Expliquei:<\/p>\n<p>&#8212; \u201cUma Velha Hist\u00f3ria\u201d j\u00e1 est\u00e1 disponibilizado no site, pois faz parte da colet\u00e2nea \u201c\u00c0s Margens Pl\u00e1cidas do Ipiranga\u201d, lan\u00e7ada em 1997. <\/p>\n<p>Mas, ele foi taxativo.<\/p>\n<p>&#8212; No blog, d\u00e1 mais visibilidade, vai por mim&#8230;<\/p>\n<p>Como amigo n\u00e3o pede, manda. Ent\u00e3o, vamos l\u00e1&#8230;. <\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>UMA VELHA HIST\u00d3RIA<\/p>\n<p>(Ou: Ser\u00e1 que o s\u00e1bio malandro tem sempre raz\u00e3o?)<\/p>\n<p>Conta-se que, certa vez, numa pequena aldeia, existia um bem sucedido senhor.<br \/>\nPor mais que arrecadasse em suas m\u00faltiplas atividades, n\u00e3o abria m\u00e3o de qualquer verba para melhorar as condi\u00e7\u00f5es de sua fam\u00edlia. <\/p>\n<p>Registre-se, a bem da verdade, formada por mulher, quatro filhos, sogro, sogra e um cunhado solteir\u00e3o \u2013 todos devidamente acomodados (n\u00e3o sei se o termo \u00e9 bem esse, mas&#8230;) numa modesta casa de sala, quarto e cozinha.<\/p>\n<p>Todas as manh\u00e3s, quando partia para o trabalho, ouvia as desconsoladas lam\u00farias dos seus. Eles reclamavam que aquilo n\u00e3o era vida, que precisavam sair daquele \u201cburaco\u201d, que podia pensar mais na fam\u00edlia e coisa e tal. <\/p>\n<p>No finzinho da noite, ele chegava dos neg\u00f3cios, nem sempre bem humorado \u2013 diga-se, e novamente o coral das lamenta\u00e7\u00f5es atacava implacavelmente. <\/p>\n<p>Diga-se tamb\u00e9m que poucas vezes em conson\u00e2ncia com sua rala dose de paci\u00eancia. Determinado dia, cansado dos reclamos, foi visitar um amigo, tido e havido na regi\u00e3o por sua sapi\u00eancia e malandragem. <\/p>\n<p>Contou todo o drama de ser incompreendido &#8211; e o que ouviu, como resposta, o deixou at\u00f4nito!<\/p>\n<p>&#8211; Compre um bode e amarre na mesa sob o televisor, de modo que o animal movimente-se por toda a sala. E seus problemas v\u00e3o acabar logo logo. Desconfiou a princ\u00edpio. Mas, depois, achou conveniente seguir os conselhos do s\u00e1bio-malandro.<\/p>\n<p>&#8212; Afinal, n\u00e3o posso perder meus privil\u00e9gios , segredou aos bot\u00f5es.<\/p>\n<p>Dia seguinte, l\u00e1 estava ele. Trazia consigo um portentoso exemplar de bode catingueiro. E cumpriu todas as determina\u00e7\u00f5es do amigo. <\/p>\n<p>Obviamente, na casa, a chiadeira aumentou consideravelmente. Tomou-se insuport\u00e1vel. O cunhado, que dividia parte da sala com o novo h\u00f3spede, era o mais desalentado.<\/p>\n<p>Ao cabo de 30 dias, o pr\u00f3prio senhor j\u00e1 n\u00e3o ag\u00fcentava nem ouvir falar no bode. As press\u00f5es vinham de todos os lados &#8211; at\u00e9 do filho mais novo. Voltou a confabular com os bot\u00f5es. E resolveu consultar o s\u00e1bio-malandro. <\/p>\n<p>Outra resposta taxativa: <\/p>\n<p>&#8212; Livre-se do bode!<\/p>\n<p>Foi o que fez na manh\u00e3 seguinte. \u00c0 noite, de volta do labor, preparou os ouvidos para a audi\u00e7\u00e3o de conhecida cantilena. Ledo engano. Em casa estavam todos felizes, inclusive o cunhado ranzinza. <\/p>\n<p>Suprema gl\u00f3ria. Todos o saudaram com entusiasmo pela decis\u00e3o. Agora sim poderiam viver tranq\u00fcilos naquela agrad\u00e1vel moradia. E assistir a novela das oito, sem coment\u00e1rios e exclama\u00e7\u00f5es inoportunas.<\/p>\n<p>Enfim, o s\u00e1bio-malandro tinha mesmo raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Esta breve hist\u00f3ria, permita-me caro leitor, tem em sua ess\u00eancia muito a ver com o dia-a-dia de nossa gente. Tamb\u00e9m aqui sempre que reivindicamos \u201cmelhores condi\u00e7\u00f5es de vida\u201d, acabamos topando com \u201cbodes\u201d de bom tamanho como desemprego em massa, aumento de combust\u00edveis e, conseq\u00fcentemente, do custo de vida, majora\u00e7\u00e3o das taxas da Previd\u00eancia Social, aposentadoria s\u00f3 aos 60, 65 anos etc. Bodes brabos, mesmos. <\/p>\n<p>Por isso, quando ficamos livres de alguns deles \u2013 nem precisa ser de todos, acrescente-se &#8211; damo-nos por satisfeitos. E agradecemos penhoradamente a m\u00e3o que os levou embora. Seguimos, assim, felizes \u00e0 nossa maneira nesse Pa\u00eds \u201caben\u00e7oado por Deus e bonito por natureza\u201d. <\/p>\n<p>&#8212; Afinal, podia ser bem pior, h\u00e1 sempre algu\u00e9m a lembrar.<\/p>\n<p>Mas, ser\u00e1 que o s\u00e1bio-malandro tem sempre raz\u00e3o?<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Um adendo que se faz oportuno:<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se s\u00e1bio-malandro tem sempre raz\u00e3o. Mas, o Walter, sim. Principalmente quando diz que o texto \u2013 troque essa ou aquela quest\u00e3o \u2013 tem l\u00e1 sua atualidade. Por aqui, continuamos a fazer de conta que almejamos tudo mudar. Mas, na verdade, queremos mesmo \u00e9 que tudo permane\u00e7a como est\u00e1.<\/p>\n<p>Ainda mais agora. \u00c9 v\u00e9spera de Carnaval, gente. D\u00e1 para esperar? Claro! Depois a gente v\u00ea o que faz. D\u00e1 um jeito na coisa toda. Mas, olhe: temos a Semana Santa \u2013 e aquela viagem j\u00e1 programada? N\u00e3o vamos ser estraga-prazer, por favor.<\/p>\n<p>E assim caminha a brasilidade brasileiramente Brasil.<\/p>\n<p>Esquind\u00f4. Esquind\u00f4. \u00c9 Carnaval!<br \/>\nSapuca\u00ed. Camarote da cerveja. Ax\u00e9.<br \/>\nBahia, terra da felicidade&#8230;<\/p>\n<p>Mensal\u00e3o, Buraco do Metr\u00f4..<br \/>\nA barb\u00e1rie das ruas. Dossi\u00eas e PCC.<br \/>\nBrasil, mostra a tua cara&#8230;<\/p>\n<p>A cara infeliz de todos n\u00f3s&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Atendo hoje ao pedido do amigo Walter da Silva, com quem trabalhei nos mais antigos dos anos na Reda\u00e7\u00e3o da ent\u00e3o combativa Gazeta do Ipiranga. Hoje, o Walt\u00e3o est\u00e1 no ABCD Jornal e,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10509","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10509","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10509"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10509\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17375,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10509\/revisions\/17375"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10509"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10509"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10509"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}