{"id":10513,"date":"2007-02-18T00:00:00","date_gmt":"2007-02-18T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:58:29","modified_gmt":"2017-09-15T19:58:29","slug":"pelos-caminhos-de-pedra-e-agua","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/pelos-caminhos-de-pedra-e-agua\/","title":{"rendered":"Pelos caminhos de pedra e \u00e1gua"},"content":{"rendered":"<p>Direto de S\u00e3o Jos\u00e9 do Barreiro,<br \/>\nao p\u00e9 da Serra da Bocaina.<br \/>\nVale do Paraiba. S\u00e3o Paulo. Brasil.<\/p>\n<p>A Hist\u00f3ria est\u00e1 sempre em constru\u00e7\u00e3o, garantem os historiadores. S\u00e3o t\u00e3o importantes os documentos que comprovam esse ou aquele fato como a mem\u00f3ria preservada de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o pelo relato dos caminheiros e viajantes. Diante dessa constata\u00e7\u00e3o, os caminhos de pedra e \u00e1gua da Serra da Bocaina (o  Mambucaba se insinua por toda a segunda parte da trilha) s\u00e3o igualmente ricos em hist\u00f3rias e est\u00f3rias. Quem chega \u00e0 clareira que antecede ao estu\u00e1rio do rio vem sempre com uma boa novidade para contar aos mais incr\u00e9dulos. H\u00e1 quem se divirta em aumentar um ponto ao contar um conto. Mas, h\u00e1 aqueles que se impressionam com os mist\u00e9rios seculares que ocultam as ladeiras da  Trilha do Ouro que corta os estados de Minas, S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>I.<\/p>\n<p>Conta-se que h\u00e1 muitos e muitos anos, mais de cem, uma numerosa caravana de ca\u00e7adores, vinda dos centros de Minas, embrenhou-se mata adentro atr\u00e1s de suas presas. Uns foram para os Sert\u00f5es da Mem\u00f3ria nos altos da Serra do Mar. Outros ficaram nas cabeceiras da Serra da Bocaina, atr\u00e1s das pegadas de uma enorme on\u00e7a predadora e de bote implac\u00e1vel.<\/p>\n<p>A noite chegou e o grupo reuniu-se ao redor da fogueira para jantar, contar prosas e proezas e engendrar as ca\u00e7adas do dia seguinte. Um negro escravo, um tanto idoso, camarada e companheiro, guarda e vigia do acampamento, queixou-se do frio que passara na noite anterior. <\/p>\n<p>\u201cDeus me acuda&#8230;Eu voumembora se esse frio continuar. Ah! eu voumembora&#8230;\u201d<\/p>\n<p>O chefe do ca\u00e7adores apiedou-se do vigia e pediu que lhe dessem um couro de boi para proteg\u00ea-lo. Era \u00e9poca de muito frio. Junho j\u00e1 andava em meio. O escravo enrolou-se como p\u00f4de, recostou-se ao ch\u00e3o \u2013 e n\u00e3o deixou sequer a cabe\u00e7a ao relento.<\/p>\n<p>L\u00e1 pelas tantas, quando todos dormiam pesadamente e o fogo j\u00e1 se apagara, entrou no rancho a destemida e, como era de seu feitio, num salto s\u00f3 arrebatou o escravo com couro e tudo. Saiu do acampamento do mesmo jeito que entrou, sem que cachorros e ca\u00e7adores se dessem conta do ocorrido. A destemida at\u00e9 estranhou a carne dura \u2013 mais osso do que carne \u2013 daquela r\u00eas que dormia deitada e havia lhe servido de refei\u00e7\u00e3o; prec\u00e1ria, sim, mas sempre refei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Antes do dia amanhecer, por\u00e9m, todos despertaram com gritos pungentes que vinham l\u00e1 dos confins da mata. <\/p>\n<p>\u201cDeus me acuda&#8230; Que euvoumembora&#8230;Ah! euvoumembora&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Logo notaram a aus\u00eancia do amigo e vigia \u2013 e se deram conta da trag\u00e9dia. Ainda sonolentos e desorientados, deram in\u00edcio a arruma\u00e7\u00e3o de partida, atrelaram os c\u00e3es e deixaram o malsinado lugar, partindo de volta para Minas. Nunca mais voltaram&#8230;<\/p>\n<p>Em noites escuras e chuvosas, dizem os viajantes, ainda hoje se pode ouvir o lamento&#8230; <\/p>\n<p>\u201cAh! euvoumembora. Deus me acuda&#8230;Que euvoumembora&#8230;.\u201d<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Foram os taubateanos que descobriram ouro nas Minas Gerais. Isso os \u201cbocaneiros\u201d provam e d\u00e3o f\u00e9. Era da cidade de Taubat\u00e9, no Vale do Para\u00edba, que partiam as bandeiras a desbravar o sert\u00e3o mineiro. Foi o cozinheiro de uma dessas expedi\u00e7\u00f5es que, ao lavar as panelas na beira de um rio, encontrou uma pedra preta, mais resistente que a malacaxeta, t\u00e3o comum naqueles beirais.  Raspou com a unha e viu o cintilar do ouro. Da\u00ed em diante foi uma dana\u00e7\u00e3o&#8230;A Serra ficou apinhada de gente que danou-se para a minera\u00e7\u00e3o. At\u00e9 o p\u00e1roco de Pindamonhangaba largou a batina e caiu no mundo atr\u00e1s do vil metal. <\/p>\n<p>Verdade verdadeira. O nome do padre era Jo\u00e3o Faria. Ningu\u00e9m sabe se enricou ou deu com os burros n\u2019\u00e1gua. O t\u00famulo dele \u00e9 l\u00e1 em Cunha. E o local onde o cozinheiro descobriu o primeiro veio de ouro recebeu o nome que o vilarejo que virou cidade ostenta ainda hoje.<\/p>\n<p>Chama-se Ouro Preto&#8230;<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>O marechal Hermes da Fonseca, quando presidente da Rep\u00fablica, tamb\u00e9m andou pelos campos da Bocaina para passar uma curta temporada de descanso e lazer. Fora convidado pelo coronel Jo\u00e3o Ayrosa para ca\u00e7ar veados e hospedar-se na invernada do Lajeado.<br \/>\nO presidente l\u00e1 chegou com grande comitiva e, nos dias que ali ficou, teve a acompanh\u00e1-lo um sertanejo de nome Ces\u00e1rio que lhe serviu de guia pelas veredas da serra. <\/p>\n<p>Ces\u00e1rio era um caboclo falante, de muitas hist\u00f3rias de ca\u00e7adas, algumas invencionices e outros tantos abusos. Tanto que logo passou a chamar o presidente pelo apelido de Macete.<br \/>\nDe alma pura, o caboclo chorou quando foi se despedir do presidente.  Tamb\u00e9m comovido, e algo sem gra\u00e7a, o Marechal convidou Ces\u00e1rio para visit\u00e1-lo, um dia, no Pal\u00e1cio do Catete e, de quebra, prometeu-lhe uma espingarda nova.<\/p>\n<p>Eis que um dia, meses  depois, uma algazarra na portaria do Catete chama a aten\u00e7\u00e3o do presidente que interrompe os despachos para saber o que est\u00e1 acontecendo. Um de seus estafetas lhe informa que h\u00e1 um caboclo maluco, prestes a ser preso, porque insiste em falar com um tal de Macete. <\/p>\n<p>O presidente logo soube quem viera lhe visitar. <\/p>\n<p>Abra\u00e7ou Ces\u00e1rio como se fossem velhos amigos e, na impossibilidade de lhe fazer companhia pelas obriga\u00e7\u00f5es do cargo, providenciou carro e chofer, com a incumb\u00eancia de lhe mostrar os encantos da Cidade Maravilhosa. Depois, o motorista tinha ordem de levar Ces\u00e1rio \u00e0 Esta\u00e7\u00e3o para que pudesse retornar \u00e0 Bocaina.<\/p>\n<p>No final do expediente, outra esparrela na portaria. <\/p>\n<p>O presidente fica injuriado \u2013 e vai pessoalmente ver o que \u00e9 desta feita. L\u00e1 encontra, no meio da guarda, o amigo Ces\u00e1rio que, ao v\u00ea-lo, apressa-se em tranq\u00fciliz\u00e1-lo. <\/p>\n<p>&#8212; Macete, cansei da balb\u00fardia da cidade. Gosto mesmo \u00e9 do meu sert\u00e3o. S\u00f3 voltei para buscar minha espingarda nova. Afinal, n\u00e3o podia ir embora e fazer essa desfeita pro amigo.<\/p>\n<p>Ces\u00e1rio voltou de espingarda nova para a Bocaina. E os dois nunca mais se viram. Dizem que para sorte do Macete, ou melhor do presidente&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Direto de S\u00e3o Jos\u00e9 do Barreiro,<br \/>\nao p\u00e9 da Serra da Bocaina.<br \/>\nVale do Paraiba. S\u00e3o Paulo. 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