{"id":10515,"date":"2007-02-20T00:00:00","date_gmt":"2007-02-20T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:58:29","modified_gmt":"2017-09-15T19:58:29","slug":"nasci-6-0","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/nasci-6-0\/","title":{"rendered":"Nasci 6.0"},"content":{"rendered":"<p>Ouviu-se um estalo seco de madeira<br \/>\nquando quebra. Logo em seguida, veio<br \/>\no grito de espanto. <\/p>\n<p>&#8212; Aaaaiiiii!!!<\/p>\n<p>Depois, o quase estrondo e<br \/>\no trepidar do assoalho de<br \/>\nmadeira da velha Reda\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Corremos todos para o canto<br \/>\nda sala, onde o Nasci havia so\u00e7obrado<br \/>\nem meio ao que restou da cadeira<br \/>\n&#8212; em que tinha por h\u00e1bito se balan\u00e7ar,<br \/>\napoiando o recosto na parede &#8211;, laudas<br \/>\ne o indefect\u00edvel cachimbo, de fumo<br \/>\nachocolatado que espalhava um aroma<br \/>\ncaracter\u00edstico em todo o pr\u00e9dio.<\/p>\n<p>&#8212; O que foi isso, Nasci?<\/p>\n<p>&#8212; A cadeira quebrou, n\u00e3o est\u00e3o vendo?<\/p>\n<p>O mais experiente dos nossos estava<br \/>\nali, estatelado no ch\u00e3o, como qualquer<br \/>\num dos mortais. A express\u00e3o era<br \/>\nde surpresa m\u00fatua. A nossa e a dele.<\/p>\n<p>Contivemos o riso, inevit\u00e1vel<br \/>\nnessas horas. E algu\u00e9m lembrou<br \/>\nde fazer a pergunta politicamente<br \/>\ncorreta para a ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea se machucou?<br \/>\nEst\u00e1 tudo bem?<\/p>\n<p>&#8212; Beleza, rapazes.<br \/>\nTranq\u00fcilo. Foi s\u00f3 o susto.<\/p>\n<p>Enquanto falava, Nasci se levantou<br \/>\ne retomou a pose de protagonista<br \/>\nde tantas hist\u00f3rias, de tantas jornadas.<\/p>\n<p>N\u00e3o resisti e fiz a pergunta<br \/>\nque n\u00e3o queria calar.<\/p>\n<p>&#8212; U\u00e9, Nasci, se n\u00e3o foi nada,<br \/>\npor que voc\u00ea deu aquele berro?<\/p>\n<p>&#8212; Eu gritei antes quando<br \/>\npercebi que a cadeira iria quebrar&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; T\u00e1, mas e da\u00ed? <\/p>\n<p>&#8212; E da\u00ed? Oras&#8230; Quando voc\u00ea<br \/>\ngrita antes nada acontece&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Como assim? Nada acontece&#8230;<br \/>\nPirou ou foi o tombo?<\/p>\n<p>&#8212; Nada acontece, seu \u2018man\u00e9\u2019,<br \/>\nporque voc\u00ea grita para acordar<br \/>\no anjo da guarda, entendeu?<\/p>\n<p>Desistimos de provoc\u00e1-lo. Voltamos<br \/>\npara os nossos lugares e afazeres.<br \/>\nCom certeza, prestes a completar<br \/>\n60 anos, o Nasci era o mais crian\u00e7a<br \/>\ne divertido de todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Em outra ocasi\u00e3o, chegamos<br \/>\ncom uma baita fome ao restaurante<br \/>\nque, para nosso azar, estava lotado.<br \/>\nSem chance de vagar uma mesa<br \/>\nna pr\u00f3xima meia-hora.<\/p>\n<p>&#8211;Vamos embora \u2013 disse o Alfredinho,<br \/>\nlouco para abater um boi ou uma boiada<br \/>\nno rod\u00edzio ali no Sacom\u00e3.<\/p>\n<p>&#8212; Nada disso \u2013 ponderou o Nasci j\u00e1<br \/>\nse dirigindo \u00e0 dupla de cantores<br \/>\nque embalava a distinta plat\u00e9ia,<br \/>\ncom suaves can\u00e7\u00f5es de amor.<\/p>\n<p>Bastou o Nasci cochichar algo<br \/>\nao ouvido de um deles e enfiar uma<br \/>\nnota gra\u00fada no bojo do viol\u00e3o<br \/>\ndo outro e ambos desceram<br \/>\ndo palco improvisado.<\/p>\n<p>Antes, por\u00e9m, anunciaram que<br \/>\niriam interpretar um cl\u00e1ssico da m\u00fasica<br \/>\nsertaneja, \u201cCabocla Tereza\u201d, a pedido<br \/>\nde um amigo que hoje reencontraram<br \/>\ne com quem trabalharam juntos nos<br \/>\ntempos da r\u00e1dio-novela da r\u00e1dio S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Era do Nasci que estavam<br \/>\nfalando, \u00f3bvio&#8230; E falando e falando&#8230;<br \/>\nE n\u00e3o paravam mais de falar.<\/p>\n<p>Quando encerraram a discurseira<br \/>\nemocionada, alguns clientes j\u00e1 se<br \/>\nmostravam insatisfeitos. Ali\u00e1s, foram<br \/>\nesses os primeiros a sair, quando a dupla<br \/>\npassou de mesa em mesa a recitar<br \/>\nos vinte e tantos versos da toada,<br \/>\nque \u00e9 um melodrama sem fim&#8230;<\/p>\n<p>E foi assim que ca\u00edmos todos<br \/>\nna gargalhada e logo est\u00e1vamos<br \/>\nconfortavelmente instalados<br \/>\npara o rango daquela noite.<\/p>\n<p>Espert\u00edssimo, o Nasci fez uma<br \/>\ncoleta entre n\u00f3s. Arrecadou vint\u00e3o<br \/>\ne tascou no bolso do homem do viol\u00e3o.<br \/>\nCom a recomenda\u00e7\u00e3o imprescind\u00edvel,<br \/>\nque muito nos alegrou&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Agora \u00e9 hora do intervalo.<br \/>\nv\u00e3o tomar um chopinho, depois<br \/>\nvoc\u00eas voltam com o repert\u00f3rio<br \/>\nnormal&#8230; Mas, esperem<br \/>\na gente terminar, ok? J\u00e1 ouvimos<br \/>\n\u2018Cabocla Tereza\u2019 para o resto<br \/>\ndas nossas vidas&#8230;<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Eram inevit\u00e1veis na Reda\u00e7\u00e3o<br \/>\nas discuss\u00f5es acaloradas entre<br \/>\no Nasci \u2013 que trabalhou na TV Record<br \/>\nna \u00e9poca \u00e1urea da emissora \u2013<br \/>\ne o Ismael Fernandes, colunista de TV,<br \/>\nespecialista em telenovela.<\/p>\n<p>Qualquer programete \u2013 e pimba!<br \/>\nL\u00e1 estava o Nasci a provocar o Isma.<\/p>\n<p>Desconfi\u00e1vamos que era<br \/>\ns\u00f3 para divers\u00e3o dele e nossa.<br \/>\nMas, n\u00e3o raras vezes, alguns de<br \/>\nn\u00f3s entravam na pendenga. Ora<br \/>\nem defesa do Ismael, ora solid\u00e1rios<br \/>\ncom os argumentos do Nasci,<br \/>\nsempre mais divertidos.<\/p>\n<p>Basicamente, o Nasci defendia<br \/>\no padr\u00e3o Globo  e o Isma comemorava<br \/>\nqualquer avan\u00e7o das outras<br \/>\nemissoras no Ibope. <\/p>\n<p>Ele n\u00e3o era xiita. Mas, reivindicava<br \/>\nmais espa\u00e7os para autores e atores<br \/>\nque conhecia dos teatros paulistanos.<\/p>\n<p>J\u00e1 o Nasci era implac\u00e1vel. Dizia:<\/p>\n<p>&#8212; S\u00e3o todos atores de comerciais<br \/>\nde geladeira. T\u00e3o vers\u00e1til  quanto um<br \/>\nquebra-nozes, dizia repetindo o jarg\u00e3o<br \/>\ndo colunista Telmo Martino, do JT.<\/p>\n<p>Uma manh\u00e3 de sexta-feira, para<br \/>\nespanto e indigna\u00e7\u00e3o do Ismael,<br \/>\n a coluna do Nasci saiu com o t\u00edtulo: <\/p>\n<p>TELMO, O HOMEM QUE MAIS<br \/>\nENTENDE DE TV EM S. PAULO<\/p>\n<p>Olhos turvos de raiva. Ismael,<br \/>\nde pronto, foi cobrar satisfa\u00e7\u00f5es do ex-amigo,<br \/>\nmas ainda colega de trabalho.<\/p>\n<p>&#8212; Campanha contra na pr\u00f3pria reda\u00e7\u00e3o?<br \/>\nQual \u00e9, sr. Nascimento? Desta vez, o senhor<br \/>\nfoi longe demais&#8230;<\/p>\n<p>Com express\u00e3o de desentendido,<br \/>\nNasci apenas disse para algu\u00e9m ler<br \/>\no que havia escrito. <\/p>\n<p>&#8211;Afinal, do que voc\u00ea est\u00e1 se queixando?<\/p>\n<p>Ismael mostrou o jornal e a nota,<br \/>\nalardeada por uma seta feita com<br \/>\ngrosso l\u00e1pis vermelho.<\/p>\n<p>Toda a reda\u00e7\u00e3o parou para<br \/>\nver o embate e tomar partido, l\u00f3gico.<\/p>\n<p>Peguei o jornal e li, em voz alta,<br \/>\no t\u00edtulo e o corpo da mat\u00e9ria,<br \/>\nque dizia o seguinte:<\/p>\n<p>TELMO, O HOMEM QUE MAIS<br \/>\nENTENDE DE TV EM S.PAULO<\/p>\n<p>\u201cO sr. Telmo de Oliveira \u00e9 o homem<br \/>\nque mais entende de TVs em S\u00e3o Paulo.<br \/>\nSua oficina de consertos de aparelhos<br \/>\ndanificados, situada a rua tal n\u00famero tal,<br \/>\nnunca devolveu um equipamento sem<br \/>\no justo reparo. E o sr. Telmo n\u00e3o escolhe<br \/>\nmarcas etc etc etc&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Todos riram, inclusive o Ismael<br \/>\nque desistiu de levar o Nasci a s\u00e9rio.<\/p>\n<p>Nasci era uma crian\u00e7a, aos 6.0<br \/>\nde alma lavada enxaguada<br \/>\nnos becos e bocas da vida&#8230;<\/p>\n[Texto publicado no livro &quot;Meus Caros Amigos \u2013 Cr\u00f4nicas sobre jornalistas, bo\u00eamios e paix\u00f5es&quot;]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ouviu-se um estalo seco de madeira<br \/>\nquando quebra. Logo em seguida, veio<br \/>\no grito de espanto. <\/p>\n<p>&#8212; Aaaaiiiii!!!<\/p>\n<p>Depois, o quase estrondo e<br \/>\no trepidar do assoalho de<br \/>\nmadeira da velha Reda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10515","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10515","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10515"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10515\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17370,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10515\/revisions\/17370"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10515"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10515"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10515"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}