{"id":10524,"date":"2007-02-25T00:00:00","date_gmt":"2007-02-25T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T04:09:18","modified_gmt":"2017-09-14T04:09:18","slug":"despedida-de-solteiro","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/despedida-de-solteiro\/","title":{"rendered":"Despedida de solteiro"},"content":{"rendered":"<p>\u201cDa outra vez, n\u00f3is n\u00e3o vai mais.<br \/>\nN\u00f3is n\u00e3o semu tatu\u201d &#8212; Adoniran Barbosa. <\/p>\n<p>Quem tem padrinho n\u00e3o morre pag\u00e3o. <\/p>\n<p>No preciso instante em que se anunciou o casamento do amigo Domingos Andr\u00e9 soubemos que outro amigo, o Marceleza, seria o grande coordenador, respons\u00e1vel pela noitada de adeus \u00e0 solteirice do em\u00e9rito caus\u00eddico doutor honoris causa acima referendado. Mo\u00e7o bom, de ilibada conduta, pr\u00f3ximo aos 40, mas de firme empenho em fazer feliz pelo resto de seus dias a amada, idolatrada (salve, salve) que com ele subiria ao altar de tradicional igreja paulistana, num bairro pr\u00f3ximo ao Centro da cidade. <\/p>\n<p>Maiores esclarecimentos, por favor, tentem os proclamas ou mesmo o guia de endere\u00e7o&#8230; <\/p>\n<p>Alguns meses separavam a not\u00edcia do alardeado matrim\u00f4nio. Dias que foram preenchidos pelos freq\u00fcentes lembretes do Marceleza sobre o grande evento. A bem da verdade, esse paulistano de sotaque carioca a\u00e7odava o interesse de gregos e troianos para o que de bom ali aconteceria. Enfatizava que para abrilhantar a zorra estaria ningu\u00e9m mais, ningu\u00e9m menos que do que Suzan Suzana, capa da renomada revista para homens e cousa e lousa e mariposa. Botem mariposa nisso, camaradas!!! <\/p>\n<p>Para quem teimava em n\u00e3o acreditar, Marceleza chegou a mandar um email recheado de apetitosas fotos da mo\u00e7oila \u2013 ao menos, naquelas imagens, bem provida em todos os quesitos, com destaque especial\u00edssimo para a comiss\u00e3o de frente. Houve quem dissesse haver um tantinho de silicone ali, mas ningu\u00e9m reclamou. At\u00e9 porque no quesito harmonia, a mo\u00e7a tamb\u00e9m era nota 10. <\/p>\n<p>&#8212; Quem vai entrar no &#8216;rachid&#8217;? <\/p>\n<p>Era a pergunta que o Marceleza fazia sempre que nos via e, bate-pronto, falava sobre a tal despedida de solteiro. De in\u00edcio, eu e mais alguns incautos amigos imaginamos que ele queria sacanear algum &#8216;brimo&#8217;. <\/p>\n<p>&#8212; Como assim? Entrar no &#8216;rachid&#8217;? T\u00f4 fora&#8230; <\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o \u00e9 nada disso, meus queridos. \u00c9 que a mo\u00e7a \u00e9 \u2018especialize\u2019 e tem l\u00e1 seu cach\u00ea. Trezentinho e n\u00e3o se fala mais nisso, dizia o Marceleza, com toda a certeza do mundo. <\/p>\n<p>Pelo Domingos Andr\u00e9 e tamb\u00e9m pelos interesses pessoais de cada um de n\u00f3s, admitimos topar a parada. <\/p>\n<p>&#8212; Deixa comigo. Eu e um grande amigo-quase-irm\u00e3o do Domingos vamos tratar disso. Todo mundo vai se dar bem e depois um alvar\u00e1 desses n\u00e3o \u00e9 sempre que aparece. \u00c9 pegar ou largar, insistia. <\/p>\n<p>Ningu\u00e9m pegou, mas especialmente eu preferi n\u00e3o largar de vez. <\/p>\n<p>&#8212; Quer dizer, talvez, quem sabe, \u00e9 poss\u00edvel, vou ver&#8230; <\/p>\n<p>Voaram as semanas, escafederam-se os dias. Eis que na manh\u00e3 de uma enigm\u00e1tica ter\u00e7a-feira, v\u00e9spera de feriado, recebo o telefonema revelador. <\/p>\n<p>&#8212; Professor, aqui \u00e9 o Tarantim, amigo-quase-irm\u00e3o do doutor Domingos Andr\u00e9. Estou lhe convidando para participar da reuni\u00e3o de hoje \u00e0 noite. Como o senhor sabe, o casamento j\u00e1 \u00e9 neste s\u00e1bado. Resolvemos antecipar o encontro de congra\u00e7amento em fun\u00e7\u00e3o do feriado. Fica melhor para os participantes. Vamos nos encontrar \u00e0s 20h30 no Center Norte para facilitar a todos. Vir\u00e1 um amigo do doutor de S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos (entendi logo: era o Marceleza e muito provavelmente elazinha), por isso \u00e9 melhor que nos encontremos num local de f\u00e1cil acesso. <\/p>\n<p>Agradeci a lembran\u00e7a e tentei ser t\u00e3o formal como o anfitri\u00e3o. <\/p>\n<p>&#8212; Estarei l\u00e1 pontualmente. Domingos Andr\u00e9 \u00e9 meu grande amigo-quase-irm\u00e3o\u201d, respondi. <\/p>\n<p>No ato liguei para o Marceleza. <\/p>\n<p>Meu lado Odair Jos\u00e9 (\u201cEu vou tirar voc\u00ea deste lugar\u201d) estava imposs\u00edvel de controlar. No que ouvi o carioqu\u00eas inconfund\u00edvel (\u2018Fala cumpadi\u2019) do outro lado da linha, mudei a pergunta. <\/p>\n<p>&#8212; Marceleza, seguinte: o amigo-quase-irm\u00e3o do Domingos me ligou. \u00c9 hoje a baga\u00e7a. E a\u00ed? <\/p>\n<p>Sil\u00eancio absoluto do outro lado da linha. Estranhei. <\/p>\n<p>&#8212; O &#8216;cumpadi&#8217;, justo hoje. Estou preparando o quarto da herdeira. P\u00f4, dureza vida de futuro papai. <\/p>\n<p>N\u00e3o toquei de prop\u00f3sito no nome de Suzan Suzana. Resolvi me prevenir. <\/p>\n<p>&#8212; Se voc\u00ea n\u00e3o vier, avisa logo. Assim n\u00e3o pago o mico de ir num lugar aonde n\u00e3o conhe\u00e7o ningu\u00e9m. <\/p>\n<p>Desconversou e engatou outros causos divertidos. <\/p>\n<p>Desliguei tranq\u00fcilo e algo curioso. O cara n\u00e3o sabe disfar\u00e7ar, pensei. Estava armando alguma. Se n\u00e3o viesse para S\u00e3o Paulo, \u00f3bvio, me avisaria. S\u00f3 podia ser. Ele traria a mo\u00e7a&#8230; <\/p>\n<p>Parte 2 &#8211; O que n\u00e3o \u00e9 pra ser, n\u00e3o \u00e9&#8230; <\/p>\n<p>Oito e meia em ponto estou no Center Norte. N\u00e3o me perguntem porqu\u00ea. Mas, numa linguagem bem Globo Rural, j\u00e1 germinava em mim a semente da ingl\u00f3ria noitada. N\u00e3o havia qualquer sinal de vida da turma. Mais de uma vez passou firmemente pela minha cabe\u00e7a a id\u00e9ia de debandar. Resisti bravamente. Um amigo \u00e9 p\u2019outro. Meu combalido cora\u00e7\u00e3o j\u00e1 havia intu\u00eddo a verdade absoluta. <\/p>\n<p>Nove horas. <\/p>\n<p>Decidi tomar um caf\u00e9, desligar o celular e me mandar. Deveria ter invertido a ordem. Um bando de sorridentes barbados, tendo a frente um her\u00f3ico Domingos Andr\u00e9 despido do terno e da gravata invadiu aquela pobre praia dos paulistanos da Zona Norte. Nem sinal do Marceleza. Mas, ele chegaria. Quer dizer, acho&#8230; <\/p>\n<p>Fomos breves ali. Logo, uma caravana de carros rumou para frente do Corinthians \u2013 eu, palmeirense, entre eles. Maior escurid\u00e3o, todos parados. Esper\u00e1vamos outra parte dos convivas. Era um passa-passa de celular. Todos procuravam localizar os mais renitentes. Uns estavam em Guarulhos. Outros, na Mooca. Alguns se perderam na altura da Ponte da Casa Verde. <\/p>\n<p>Notei que a cada cinco minutos, o amigo-quase-irm\u00e3o do Domingos dizia para o pr\u00f3prio: <\/p>\n<p>&#8212; Deu caixa-postal. Mas, ele vem. <\/p>\n<p>Sabia de quem falavam. Ele n\u00e3o viria. Suzan Suzana virou fuma\u00e7a nos meus sonhos. Tudo o que queria agora era sair dali. <\/p>\n<p>Sa\u00edmos, todos. Mas, n\u00e3o rodamos muito, n\u00e3o. Paramos num posto logo no come\u00e7o da avenida Aricanduva. Agora, restava esperar uma terceira penca. Descemos dos carros. Seria, digamos, o aquecimento et\u00edlico. <\/p>\n<p>&#8212; A primeira rodada de cerveja \u00e9 por minha conta, disse simpaticamente um dos desconhecidos, que segurava o cigarro daquele jeito inconfund\u00edvel, entre o polegar e o indicador. <\/p>\n<p>Mesmo n\u00e3o bebendo, considerei gentil da parte dele. Minutos depois, ele me confidenciou o real motivo. <\/p>\n<p>&#8212; Melhor pagar agora. L\u00e1, uma latinha de cerveja n\u00e3o sai por menos de cinco paus. <\/p>\n<p>Achei melhor conferir com o organizador da bagun\u00e7a. Esquisito, muito esquisito o \u201cL\u00e1\u201d do homem. O amigo-quase-irm\u00e3o foi claro na resposta. <\/p>\n<p>&#8212; A gente pensou em algumas casas nas imedia\u00e7\u00f5es dos Jardins. O doutor merece. Mas, um amigo nosso conhece um lugar bem legal aqui mesmo, um pouco pra l\u00e1 de n\u00e3o sei onde. Que \u00e9 a mesma coisa, s\u00f3 que bem mais em conta. <\/p>\n<p>Entendi. <\/p>\n<p>Parte 3 \u2013 Pr\u00f3logo <\/p>\n<p>Dez e pedradinha, nem sinal do Marceleza. Cerveja rolando. <\/p>\n<p>Todos riam desbragadamente. N\u00e3o sei dizer o que pensava. Sentia-me um ser inanimado, um vegetal. Uma sambabaia, talvez. <\/p>\n<p>Apareceram mais quatro carros. O grupo estava fechado. Finalmente. <\/p>\n<p>Um dos rec\u00e9m-chegados foi direto para o amigo-quase-irm\u00e3o e organizador. <\/p>\n<p>&#8212; Vai falar do Marceleza e da Suzan Suzana &#8211; pensei, tolamente. <\/p>\n<p>Ali\u00e1s, todos que aqui me l\u00eaem sabem: tenho uma tend\u00eancia a imaginar coisas&#8230; <\/p>\n<p>&#8212; Vambora, gente, vambora. <\/p>\n<p>Estava num torpor pr\u00f3prio dos desvalidos quando o grito de debandada geral me despertou. <\/p>\n<p>&#8212; Vambora, gente, vambora. <\/p>\n<p>Fez-se uma longa e sinuosa fila de carros. N\u00e3o sei precisar quantos. Sa\u00edmos ruidosamente do posto. Seguia bovinamente a turba sozinho no meu carro. Buzina\u00e7o. Sinais de farol. Uma farra. Senti um gosto amargo ao deparar-me com uma placa \u201cN\u00e3o sei o qu\u00ea, N\u00e3o sei o que l\u00e1 e Cangaiba\u201d.<\/p>\n<p>&#8212; Quem tem um amigo como o Marceleza n\u00e3o precisa de inimigos, resmunguei para mim mesmo. \u00c9 a cara dele aprontar dessas. Imaginei a cena do do &#8216;rei das paradinhas&#8217; \u00e0s voltas com ber\u00e7o, cortinas, m\u00f3biles. A preparar o quarto da herdeira, a bela Sofia, que logo chegaria.<\/p>\n<p>Claro que o perdooei na hora. E ri da minha pr\u00f3pria ingenuidade&#8230; <\/p>\n<p>Olhei o rel\u00f3gio do carro: 23h47. Canga\u00edba \u00e9 demais (que me perdoem os cangaibenses). N\u00e3o resisti \u00e0 primeira sinaliza\u00e7\u00e3o de \u2018Radial Leste \u2013 Retorno\u2019. Numa r\u00e1pida manobra abandonei a comitiva dos amigos dos amigos do amigo-quase-irm\u00e3o do Domingos. <\/p>\n<p>H\u00e1 tempos n\u00e3o me sentia t\u00e3o senhor de mim, das minhas vontades e quer\u00eancias, com uma simples manobra. Ali\u00e1s, preciso fazer isso mais vezes na vida&#8230;<\/p>\n<p>Al\u00e9m do que, ponderei: a tal da Suzan Suzana nem era tudo isso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cDa outra vez, n\u00f3is n\u00e3o vai mais.<br \/>\nN\u00f3is n\u00e3o semu tatu\u201d &#8212; Adoniran Barbosa. <\/p>\n<p>Quem tem padrinho n\u00e3o morre pag\u00e3o. <\/p>\n<p>No preciso instante em que se anunciou o casamento do amigo Domingos Andr\u00e9 soubemos que outro amigo,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-10524","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-parangoles"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10524","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10524"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10524\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13978,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10524\/revisions\/13978"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10524"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10524"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10524"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}