{"id":10556,"date":"2007-03-26T00:00:00","date_gmt":"2007-03-26T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T04:08:51","modified_gmt":"2017-09-14T04:08:51","slug":"try-a-little-tenderness-partes-i-e-ii","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/try-a-little-tenderness-partes-i-e-ii\/","title":{"rendered":"Try a little tenderness (Partes I e II)"},"content":{"rendered":"<p>&quot;&#8230;\u00da shimaibe uili<br \/>\nA iu son tu go ui file&#8230; &quot;<\/p>\n<p>Entenderam? Nem eu&#8230; <\/p>\n<p>Ali\u00e1s, naquela her\u00f3ica reda\u00e7\u00e3o, ningu\u00e9m compreendia o que o mo\u00e7o, fot\u00f3grafo dos bons, cantarolava diariamente, todos os dias&#8230;<\/p>\n<p>Perdoem o ru\u00eddo dissonante da redund\u00e2ncia. <\/p>\n<p>Mas, aqui, se faz imprescind\u00edvel. Quero que tenham uma vaga id\u00e9ia do sofrimento que era ouvi-lo todos os dias, diariamente. A hist\u00f3ria s\u00f3 faz sentido se os meus car\u00edssimos cinco leitores avaliarem o que aturamos ali, naquelas semanas \u2013 sim, porque foram semanas intermin\u00e1veis; meses talvez.<\/p>\n<p>Para piorar, nem os mais versados no idioma do Tio Sam conseguiam traduzir, no quase relinchar do amigo, uma remota possibilidade de algo compreens\u00edvel e de boa prosa. Provavelmente, o pr\u00f3prio rapaz pouco se dava com o que queria dizer a onomatop\u00e9ia supracitada. <\/p>\n<p>&#8212; Bem se v\u00ea que voc\u00eas n\u00e3o entendem nada de um cl\u00e1ssico da m\u00fasica americana \u2013 respondia sempre que algu\u00e9m &#8216;educadamente&#8217; o mandava calar a boca e parar com aquela sess\u00e3o de implac\u00e1vel tortura. <\/p>\n<p>Alguns amea\u00e7aram pedir demiss\u00e3o por insalubridade ou reivindicavam adicional por risco de enlouquecimento.<\/p>\n<p>N\u00e3o estavam, de todo, sem raz\u00e3o, convenhamos.<\/p>\n<p>II. <\/p>\n<p>Numa certa manh\u00e3, sem que ele soubesse, destacamos um dos nossos para a secreta incumb\u00eancia de descobrir causa e conseq\u00fc\u00eancia daquela compuls\u00e3o estranha e quase esquizofr\u00eanica. Explicar o inexplic\u00e1vel era a tarefa. E l\u00e1 se foi um especialista na tal corrente do jornalismo investigativo \u00e0 ca\u00e7a do segredo do nosso cantante injuriado.<\/p>\n<p>Por que tanta estrat\u00e9gia? <\/p>\n<p>Pensem bem. Pensem comigo: se um rep\u00f3rter-fotogr\u00e1fico incomoda muito a gente (nas reda\u00e7\u00f5es), um rep\u00f3rter-fotogr\u00e1fico cantante incomoda bem mais. <\/p>\n<p>Concordam?<\/p>\n<p>N\u00e3o? Um dia explico. <\/p>\n<p>Continuemos com a nossa historia&#8230;<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi necess\u00e1rio muito tempo para que descobrissemos o \u00f3bvio. Tinha mulher na jogada. <\/p>\n<p>Como n\u00e3o imaginamos?<\/p>\n<p>Causa e conseq\u00fc\u00eancia, mais do que simples. Toda vez que o mo\u00e7o via a exuber\u00e2ncia da menina revisora, rec\u00e9m-chegada de uma pequena cidade interiorana, sentia reverberar a alma no embalo do tal pungente cl\u00e1ssico da soul music. <\/p>\n<p>Outro mist\u00e9rio que esclareceu o nosso filhote de \u2018Percival de Souza\u2019. Chamava-se Try a Little Tenderness a can\u00e7\u00e3o que ele teimava em balbuciar. Sequer chegou a ser um grande sucesso em plagas brasileiras. Foi escrita em 1933 por Jimmy Campbell e teve s\u00e9rie de grava\u00e7\u00f5es, inclusive uma de Sinatra. <\/p>\n<p>Est\u00e1vamos na pista certa. Por\u00e9m, \u00e9 claro que todos aqueles uivos n\u00e3o poderiam ter sa\u00eddo do repert\u00f3rio do insuper\u00e1vel The Voice.<\/p>\n<p>Explica-se.<\/p>\n<p>Em meados dos anos 60, a m\u00fasica ganhou uma vers\u00e3o soul de Ottis Reading e depois uma leitura fe\u00e9rica de um grupo americano chamado Tree Dog Night, que era a vers\u00e3o preferida do rapaz. <\/p>\n<p>Mesmo com tanta informa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o pod\u00edamos comemorar. Ainda&#8230;<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>N\u00e3o vou citar nomes porque n\u00e3o quero confus\u00e3o por aqui. Somos um blog de paz e amor \u2013 ali\u00e1s, como bem provam relatos anteriores. Mas, tenho que dizer: a caipirinha era mesmo muito jeitosa. Linda. E melhorava a cada dia&#8230; <\/p>\n<p>Quanto a can\u00e7\u00e3o, desconfio que nem o pr\u00f3prio sabia porque insistia em cantarolar para espanto dos outros funcion\u00e1rios. Mas, era autom\u00e1tico. Bastava olhar a mo\u00e7a, de relance que fosse, e pintava aquela zonzeira. Tinha \u00edmpetos de imitar o esgani\u00e7ado vocalista do Tree Dog Night e, enrolando a l\u00edngua, lhe implorar um breve gesto de ternura, um sorriso que fosse. Que, ali\u00e1s, nunca acontecia&#8230;<\/p>\n<p>Que tristeza. E tome u\u00edvos em nossos ouvidos&#8230;<\/p>\n<p>V. <\/p>\n<p>Um dia, o flagramos triste, parado no meio daquela perigosa escada em caracol que unia a revis\u00e3o \u00e0 reda\u00e7\u00e3o no mezanino. Ora cantarolava baixinho, ora parecia conversar consigo mesmo em voz alta. N\u00e3o suspeitou que era observado.<\/p>\n<p>&#8212; Caiu a ficha que ele \u00e9 carta fora do baralho &#8211; algu\u00e9m sussurou no grupo. <\/p>\n<p>A cena era essa mesmo. Ele se dera conta que ela o transtornava &#8212; e n\u00e3o era coisa recente. A indiferen\u00e7a da mo\u00e7a, por\u00e9m, recomendava prud\u00eancia. Mas, o baticum do pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o insistia, enganoso e enganador<\/p>\n<p>&#8212; Talvez seja s\u00f3 uma quest\u00e3o de jeito&#8230;<\/p>\n<p>Tentou se convencer.<\/p>\n<p>Por instantes, parec\u00edamos estar vendo cenas do filme Don Juan di Marco. Uma alegoria rom\u00e2ntica entre a realidade e a fantasia que torna os dias menos cinzas, menos iguais. Mas, foi s\u00f3 por alguns instantes. <\/p>\n<p>Logo ficou desenxavido. Parece que a Senhora Raz\u00e3o viera ao seu encontro . Para conscientiz\u00e1-lo ou jog\u00e1-lo escada abaixo. Em tom professoral colocava as coisas no devido lugar:<\/p>\n<p>&#8212; Preste aten\u00e7\u00e3o, meu garoto. Voc\u00ea nem sabe o que se passa naquela cabecinha, de longos e finos cabelos castanhos (Viram? At\u00e9 a Raz\u00e3o, apesar da sobriedade, se engra\u00e7ara com ela). Se ela est\u00e1 em outra. \u00c9 mais do que prov\u00e1vel. \u00c9 uma mulher bonita e tal. <\/p>\n<p>E ponderou:<\/p>\n<p>&#8212; S\u00f3 n\u00e3o digo que n\u00e3o vai acontecer porque, voc\u00ea sabe, eu nunca digo nunca. Mas, veja, n\u00e3o h\u00e1 um ind\u00edcio qualquer de que o sim esteja pr\u00f3ximo &#8212; insistia, com toda raz\u00e3o, a rouca voz da Raz\u00e3o.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Entendeu, ent\u00e3o, que as chances eram remot\u00edssimas, siberianas, absurdas. Mesmo assim n\u00e3o perdeu as esperan\u00e7as. Seus olhos n\u00e3o se controlavam. Desceu alguns degraus para v\u00ea-la. E l\u00e1 estava ela com seu porte de princesa entretida no revisar letrinha por letrinha o jornal do dia seguinte. <\/p>\n<p>Fez uma doce viagem ao redor dos sonhos e da fantasia. Que situa\u00e7\u00e3o! Estava ali t\u00e3o pr\u00f3xima a ponto de poder abra\u00e7\u00e1-la e&#8230;<\/p>\n<p>O passo em falso, em um dos degraus, fez com que retornasse \u00e0 realidade. Deu meia-volta e r\u00e1pido subiu para a reda\u00e7\u00e3o ainda vazia. Viu o descalabro de fotos sobre a mesa do editor e concluiu que era melhor enfrentar o risque e rabisque da vida.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que ela percebeu? Se percebeu, o que estaria pensando? <\/p>\n<p>Sentou na cadeira girat\u00f3ria do chefe e fez que n\u00e3o estava nem a\u00ed para o vozerio que vinha do andar inferior, onde a bela agora sorria feliz. <\/p>\n<p>Estariam rindo dele?<\/p>\n<p>VII. <\/p>\n<p>No andar de cima, o mo\u00e7o era s\u00f3 incerteza. Inquietou-se e, para disfar\u00e7ar o indisfar\u00e7\u00e1vel, se p\u00f4s a brincar de girar. Gira pra c\u00e1, gira pra l\u00e1&#8230; <\/p>\n<p>N\u00e3o conseguia se concentrar no servi\u00e7o&#8230; <\/p>\n<p>Em caras e bocas, esfor\u00e7ava-se para come\u00e7ar a edi\u00e7\u00e3o. Franzia a testa, demonstrava preocupa\u00e7\u00e3o. Mas, o pensamento lhe escapava, louco para descer e se inteirar do que estava acontecendo. Estancou a cadeira e pensou em voz alta: <\/p>\n<p>&#8212; Nunca a vi t\u00e3o linda&#8230; <\/p>\n<p>VIII.<\/p>\n<p>A bem da verdade, ponderou, qualquer trapinho lhe ca\u00eda bem. Mas aquela cal\u00e7a de crepe indiano, em tom claro, e a mini-blusa, sensual\u00edssimas, insinuavam que a perfei\u00e7\u00e3o era poss\u00edvel e estava logo ali, a dez ou doze degraus abaixo&#8230;<\/p>\n<p>Esfregou a palma da m\u00e3o direita na parte de tr\u00e1s do pr\u00f3prio cabelo, no melhor estilo F\u00e1bio J\u00fanior. Reviu a cena de h\u00e1 pouco e o di\u00e1logo imagin\u00e1rio com a Senhora Raz\u00e3o n\u00e3o lhe sa\u00edam da mente. Ao chegar, passou por ela \u2013 e a cumprimentou. Ela respondeu, com um breve \u2018oi\u2019 e sequer o olhou. Percebeu que toda aquele encanto estava a lhe escapar por entre os dedos. N\u00e3o olhava. N\u00e3o sorria. Pouco falava. Estancou na escada porque concluiu: n\u00e3o queria.<\/p>\n<p>Outra vez, o desespero. Precisava fazer algo, com urg\u00eancia. Iria descer, interromper o que ela estava fazendo e, na frente de todos, expor em g\u00eanero, n\u00famero e grau o que estava sentindo&#8230;<\/p>\n<p>IX.<\/p>\n<p>Bobagem&#8230; <\/p>\n<p>Seria uma demonstra\u00e7\u00e3o p\u00fablica do seu rid\u00edculo. Entre assustada e envaidecida, sobraria para os ouvidos dele um sonoro n\u00e3o. Precisaria ser algo assim mais discreto, algo mais convincente&#8230;<\/p>\n<p>Poderia lhe escrever. Um bilhete? Achou pouco. Uma carta? Achou muito. N\u00e3o queria aborrec\u00ea-la. Tamb\u00e9m n\u00e3o havia carteiro que servisse de uma se\u00e7\u00e3o para outra. Poesia? Calma, calma, n\u00e3o tinha talento para tanto. Um torpedo? Perigoso. E se ela o interpretasse mal. Um email. Sim, seria seria uma boa. Mas, a d\u00favida. Por onde come\u00e7aria? <\/p>\n<p>Descobriu seu endere\u00e7o eletr\u00f4nico na agenda da chefia. <\/p>\n<p>N\u00e3o pensou duas vezes. Foi para o computador, abriu um arquivo com o nome dela e, como um virtuose, enfrentou o teclado, inspirad\u00edssimo:<\/p>\n<p>&quot;\u00da shimaibe uili&#8230;A i\u00fa son tu go ui file&#8230;&quot;<\/p>\n<p>X.<\/p>\n<p>Se deu certo a estrat\u00e9gia? N\u00e3o sei. Sei que os dois se casam agora, numa desses s\u00e1bados de abril, quando o c\u00e9u se faz de um azul \u00fanico aos olhos de quem vive um grande amor.<\/p>\n<p>Nota do Autor 1 &#8211;<\/p>\n<p>Para \u00c2ngelo e Daniela que se casam nas pr\u00f3ximas semanas. A hist\u00f3ria dos dois n\u00e3o \u00e9 exatamente esta. Mas, tamb\u00e9m n\u00e3o fica muito longe disso, n\u00e3o. Na verdade, todas as hist\u00f3rias de amor se parecem&#8230; <\/p>\n<p>Nota do Autor 2 &#8211; <\/p>\n<p>Try a little tenderness<\/p>\n<p>* Jimmy Campbell<\/p>\n<p>Oh she may be weary<br \/>\nThose young girls they do get weary<br \/>\nWearing that same old shaggy dress<br \/>\nBut when she gets weary<br \/>\nYou try a little tenderness<\/p>\n<p>I know she&#8217;s waiting<br \/>\nJust anticipating<br \/>\nThe thing that you&#8217;ll never never possess<br \/>\nNo no no but while she&#8217;s there waiting<br \/>\nTry just a little bit of tenderness<\/p>\n<p>That&#8217;s all you got to do<br \/>\nNow it&#8217;s not just sentimental no<br \/>\nBut she has her griefs and cares<br \/>\nBut the soft words they are spoke so gentle<br \/>\nYeah yeah yeah<br \/>\nAnd it makes it easier to bear<br \/>\nOh she won&#8217;t regret it, no no<br \/>\nThem young girls they don&#8217;t forget it<br \/>\nLove is their whole happiness<br \/>\nYeah yeah yeah<br \/>\nBut its all so easy<br \/>\nAll you got to do is try<br \/>\nTry a little tenderness<\/p>\n<p>You&#8217;ve got to<br \/>\nHold her<br \/>\nSqueeze her<br \/>\nNever leave her<br \/>\nNow get to her<br \/>\nGot got got to try a little tenderness<\/p>\n<p>You&#8217;ve got to hold her<br \/>\nDon&#8217;t squeeze her<br \/>\nNever leave her<br \/>\nYou&#8217;ve got to (break)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&quot;&#8230;\u00da shimaibe uili<br \/>\nA iu son tu go ui file&#8230; &quot;<\/p>\n<p>Entenderam? Nem eu&#8230; <\/p>\n<p>Ali\u00e1s, naquela her\u00f3ica reda\u00e7\u00e3o, ningu\u00e9m compreendia o que o mo\u00e7o, fot\u00f3grafo dos bons,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-10556","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-parangoles"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10556","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10556"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10556\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13977,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10556\/revisions\/13977"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10556"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10556"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10556"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}