{"id":10579,"date":"2007-04-16T00:00:00","date_gmt":"2007-04-16T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:58:23","modified_gmt":"2017-09-15T19:58:23","slug":"sobre-cronicas-e-cronistas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/sobre-cronicas-e-cronistas\/","title":{"rendered":"Sobre cr\u00f4nicas e cronistas"},"content":{"rendered":"<p>Minhas duas amigas \u201cleilas\u201d comentaram o texto de ontem. Era a deixa que eu precisava para falar um pouquinho mais sobre a cr\u00f4nica e o ser cronista. Me permitam, car\u00edssimos leitores, a liberdade de come\u00e7ar o post de hoje a partir das observa\u00e7\u00f5es que as duas fizeram. Depois quero lhes contar uma brev\u00edssima hist\u00f3ria do cronista Ign\u00e1cio de Loyola Brand\u00e3o.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>A Leila, de Nova York, me deu um pux\u00e3o de orelha, via coment\u00e1rio que deixou sobre (e sob) o que escrevi. <\/p>\n<p>Perguntou:<\/p>\n<p>&#8212; Rodolfo, cad\u00ea AS cronistas?<\/p>\n<p>Aproveitou, ent\u00e3o, para fazer uma sele\u00e7\u00e3o de cronistas-mulheres que tanto contribu\u00edram e contribuem para as letras nativas.<\/p>\n<p>Vale a pena ler o post de ontem e conferir a lista. <\/p>\n<p>Reconhe\u00e7o: foi uma falha indesculp\u00e1vel, da minha parte. Agrade\u00e7o a defer\u00eancia da amiga e ainda acrescento que, tal e qual um tabeli\u00e3o das palavras, endosso e dou f\u00e9 a tudo o que escreveu essa novaiorquina, made in Brazil &#8212; que morre de saudades at\u00e9 do cinza do c\u00e9u paulistano.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>J\u00e1 a Leila, que vive em S\u00e3o Paulo e por isso mesmo n\u00e3o tem tempo de sentir saudades da cidade, preferiu um email generoso para com este s\u00edtio\/blog. Email que transcrevo a seguir at\u00e9 porque ando com a alto-estima lavada e enxaguada nos contratempos dos dias atuais. Ando mesmo \u00e9 com saudades de mim.<\/p>\n<p>Diz a Leila, que tamb\u00e9m \u00e9 jornalista:<\/p>\n<p>\u201cAcho que as leitoras estavam com saudades do autor, da conversa. Tenho a impress\u00e3o de que n\u00f3s, suas leitoras, do Ipiranga a Nova Iorque, somos especialmente solit\u00e1rias. Gostamos de quando voc\u00ea fala de si, troca id\u00e9ias&#8230; Todos gostam de participar&#8230; O blog fica mais movimentado, como um saloto, como dizem os italianos. Ainda sobre a lista de autores, certa vez, o Jos\u00e9 Mindlin me disse que os livros s\u00e3o capazes de mudar as nossas vidas, que ele era um antes de ler Dom Quixote, de Cervantes, e outro depois; era um antes de ler Guimar\u00e3es Rosa e outro depois&#8230; Ler as s\u00e1bias bobagenzinhas de Quintana \u00e9 importante para ver at\u00e9 as desgra\u00e7as com humor. H\u00e1 ainda Carlos Drummond&#8230; Como poder\u00edamos entender o desamor, se n\u00e3o tiv\u00e9ssemos lido \u201co Jo\u00e3o que amava Maria, que amava Jos\u00e9 (&#8230;)&quot;. E como saber do amor sem ler Vinicius de Moraes&#8230;\u201d<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Pois \u00e9&#8230;<\/p>\n<p>Uma Leila entende tudo de cr\u00f4nica. A outra, at\u00e9 quando d\u00e1 bom dia, \u00e9 uma cronista de m\u00e3o cheia&#8230;<\/p>\n<p>Vejam que viagem linda a cr\u00f4nica  prop\u00f5e. Ora por caminhos desconhecidos. Ora por atalhos a desbravar. O g\u00eanero sugere um olhar mais alongado sobre as delicadezas da vida cotidiana. Dos sentimentos que s\u00e3o universais, mas s\u00f3 se revelam aos olhos de um (o cronista) que os espalha mundo afora. Especialmente para os que buscam e sonham e vivem e assumem o risco da felicidade plena.<\/p>\n<p>\u201cDetalhes t\u00e3o pequenos de n\u00f3s dois<br \/>\ns\u00e3o coisas muito grande pra esquecer.<br \/>\nE eles v\u00e3o estar presentes.<br \/>\nVoc\u00ea vai ver.&quot;<\/p>\n<p>H\u00e1 cr\u00f4nica nas letras das m\u00fasicas, \u00f3bvio. <\/p>\n<p>Falam de amor\/desamor como Detalhes, de Roberto e Erasmo. Ou questionam o homem e o existir, como Hoje, do saudoso Taiguara:<\/p>\n<p>&quot;Hoje, trago em meu corpo<br \/>\nas marcas do meu tempo.<br \/>\nMeu desespero,<br \/>\na vida num momento.&quot; <\/p>\n<p>H\u00e1 ainda as que prenunciam uma nova era, como bem escreveu Chico Buarque nos tempos do obscurantismo.<\/p>\n<p>&quot;Apesar de voc\u00ea,<br \/>\namanh\u00e3 h\u00e1 de ser<br \/>\num novo dia&quot;.  <\/p>\n<p>Os senhores do Poder viram \u2013 sem enxergar \u2013 pouco a pouco a sociedade se informar em cr\u00f4nicas musicais. Versos e acordes que demoliram a fortaleza da ditadura ao dar ci\u00eancia \u00e0 sociedade brasileira do horror que aqui acontecia. <\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Uma hist\u00f3ria que vivi.<\/p>\n<p>Numa manh\u00e3 de sol, h\u00e1 tr\u00eas, quatro anos, participei da banca avaliadora de um Trabalho de Conclus\u00e3o de Curso, de estudantes de jornalismo. Dividiam o trabalho comigo o professor-orientador, o amigo Marcelo Pimentel, e o convidado era o jornalista Ign\u00e1cio de Loyola Brand\u00e3o, ilustre escritor e cronista. <\/p>\n<p>Est\u00e1vamos alunos e professores apreensivos. Afinal, eles apresentariam o resultado de quatro anos de curso num livro-reportagem que seria julgado por um dos grandes nomes da literatura brasileira. Com id\u00eantica dimens\u00e3o no jornalismo. Inclusive, n\u00f3s, professores, nos preparamos para n\u00e3o fazer feio com nossas observa\u00e7\u00f5es. Como o convidado externo, reza o protocolo, \u00e9 o primeiro a falar, ficamos espertos e redobramos nossos cuidados.<\/p>\n<p>Chegou o dia. E os alunos fizeram sua apresenta\u00e7\u00e3o de 20 a 30 minutos. Foram bem, seguraram a onda; mas era percept\u00edvel o nervosismo. Foi ent\u00e3o hora de ouvirmos o veredicto de Loyola. Segundos de tens\u00e3o e sil\u00eancio, inclusive a plat\u00e9ia. O jornalista pegou o microfone, se p\u00f4s de p\u00e9, mostrou o livro para a plat\u00e9ia e foi definitivo.<\/p>\n<p>&#8212; Se eu tivesse escrito algo assim aos 20 anos de idade, hoje eu seria seguramente Premio Nobel de Literatura&#8230;<\/p>\n<p>Deu nota m\u00e1xima aos garotos. E encerrou seus coment\u00e1rios com largo sorriso e a puxar uma salva de palmas para os estudantes.<\/p>\n<p>Ou seja, at\u00e9 mesmo a avalia\u00e7\u00e3o de um trabalho acad\u00eamico Loyola transformou em cr\u00f4nica. Onde a emo\u00e7\u00e3o e o envolvimento s\u00e3o indispens\u00e1veis&#8230;<\/p>\n<p>Foi um dia inesquec\u00edvel para todos n\u00f3s*. <\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>* N\u00f3s, os que estavam presentes no sal\u00e3o Iota da Universidade Metodista de S\u00e3o Paulo: professores, pais, familiares e amigos dos formandos Allanda Gil, C\u00e1ssio Waki, Felipe Guimar\u00e3es e Guilherme Roseguini; autores de \u201cQuando \u00c9ramos Reis\u201d. O livro-reportagem narra a trajet\u00f3ria de quatro dos cinco integrantes do mais famoso ataque do futebol mundial \u2013 Dorval, Meng\u00e1lvio, Coutinho e Pepe. O quinto elemento, Pel\u00e9, toda vez que era citado no livro, era identificado simplesmente como \u201cEle\u201d, rever\u00eancia ao deus da bola.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Minhas duas amigas \u201cleilas\u201d comentaram o texto de ontem. Era a deixa que eu precisava para falar um pouquinho mais sobre a cr\u00f4nica e o ser cronista. 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