{"id":10582,"date":"2007-04-19T00:00:00","date_gmt":"2007-04-19T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:58:22","modified_gmt":"2017-09-15T19:58:22","slug":"highlander","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/highlander\/","title":{"rendered":"Highlander"},"content":{"rendered":"<p>Certa vez, li um livro de nome &#8216;Cartas do Meu Moinho&#8217;, se n\u00e3o me engano. Era de um autor franc\u00eas, Alphonse Deaudet, que deixou Paris no final do s\u00e9culo 19 para viver solit\u00e1rio em Proven\u00e7a. Confesso: me seduziu a id\u00e9ia de um personagem isolar-se num velho moinho a refletir sobre o mundo e os alde\u00f5es que encontrava em andan\u00e7as provincianas. Dali, ele enviava cartas e textos aos amigos que os publicavam em jornais da Cidade Luz.  <\/p>\n<p>N\u00e3o sei onde anda o livro. Lembro que algu\u00e9m me emprestou para uma leitura r\u00e1pida. Li e devolvi. Mas, a id\u00e9ia do cronista itinerante de aldeia em aldeia que tem como porto-seguro o aconchego de um velho moinho, repito, me seduziu e conquistou. Depois de anos, encontrei por acaso num sebo um exemplar da obra que fora relan\u00e7ada como parte de uma cole\u00e7\u00e3o chamada &#8216;Reencontro&#8217;, adaptado para o portugu\u00eas pelo cronista Paulo Mendes Campos. Na primeira p\u00e1gina, surpreendeu-me uma dedicat\u00f3ria, escrita por esferogr\u00e1fica conduzida pela m\u00e3o segura de uma mulher apaixonada. O recado, ainda hoje, me comove. <\/p>\n<p>Diz:<\/p>\n<p>\u201cInteressante o nome da s\u00e9rie, n\u00e3o?!&quot;<\/p>\n<p>\u00d3bvio que fiquei com livro. Pelas hist\u00f3rias, pelo tradutor &#8211; um dos meus cronistas favoritos e tamb\u00e9m pelo teor da dedicat\u00f3ria. Me pareceu um recome\u00e7o que a mo\u00e7a apostava seria eterno. Mas que, pelo volume abandonado na estante da loja, teve a brevidade do tempo que existiu&#8230; <\/p>\n<p>Pois \u00e9&#8230;<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, &#8216;pois \u00e9&#8217; \u00e9 o nome da coluna que, durante algum tempo, quis escrever em alguma publica\u00e7\u00e3o. Nunca soube bem qual. Mas, o nome sempre me pareceu bom e apropriado para as bobagens que escrevo. Estava s\u00f3 na universidade e sentia falta do contato com os leitores que sempre tive nas reda\u00e7\u00f5es por onde passei. Assaltou-me tamb\u00e9m o temor de que minhas hist\u00f3rias se perdessem numa imagin\u00e1ria prateleira das coisas esquecidas.  <\/p>\n<p>Mesmo assim, n\u00e3o levei a id\u00e9ia adiante. Que personagem estranho sou eu? Ando sempre atrapalhado com compromissos e coisas que j\u00e1 deveria ter feito. Por outra, h\u00e1 que se dizer, gosto muito de n\u00e3o fazer nada. Ficar a deriva nos fins de semana e feriad\u00f5es, feito garrafa que o naufrago atira ao mar em busca de socorro.<\/p>\n<p>Da\u00ed que muitas vezes preciso de muitos &#8216;helps&#8217; para que o tempo, senhor de todos os destinos, n\u00e3o abocanhe meus projetos pelas beiradas.<\/p>\n<p>Querem um exemplo da minha desaten\u00e7\u00e3o? <\/p>\n<p>Nos anos 80, trabalhava em Gazeta do Ipiranga e fazia mil e um servi\u00e7os mais \u2013 diagramava um jornal espanhol chamado Alborada, uma revista chamada A Verdade e a Gazeta de S\u00e3o Bernardo, revisava o Jornal da Orla, escrevia sobre m\u00fasica para a publica\u00e7\u00e3o que me convidasse (quando n\u00e3o me convidavam, eu me oferecia), estava envolvido na campanha das Diretas etc etc etc &#8230; <\/p>\n<p>S\u00f3 aparecia em casa pra dormir.<\/p>\n<p>Foi assim por anos a fio. L\u00e1 pelos meados dos anos 90 fui aparar a barba no Ab\u00edlio, que tem um min\u00fasculo sal\u00e3o de barbeiro na rua Bom Pastor h\u00e1 uns 60 anos. L\u00e1, vi uma televis\u00e3o usada \u2013 e bem antigona &#8211; \u00e0 venda. <\/p>\n<p>Fiquei imaginar quem compraria aquela pe\u00e7a de museu. Por dez tost\u00f5es, que fosse. S\u00f3 mesmo um highlander, daqueles imortais, nascidos no mais antigo dos anos. Que por s\u00e9culos combate as for\u00e7as das trevas. H\u00e1 os bons e ruins. S\u00f3 morrem quando lutam entre si e lhes cortam a cabe\u00e7a. No fim dos tempos, s\u00f3 restar\u00e1 um &#8211; o mais poderoso deles. \u00c9 o que dizem a lenda e a s\u00e9rie de filmes que fez um relativo sucesso nos anos 90.<\/p>\n<p>Lembram-se?<\/p>\n<p>Pois \u00e9&#8230; <\/p>\n<p>Voltemos ao sal\u00e3o do Ab\u00edlio&#8230;<\/p>\n<p>Esperava minha vez de ser atendido e olhava a TV. Me pareceu pr\u00f3xima. Segundos depois, me dei conta de que aquela trapitonga era igual ao modelo que tinha em casa \u2013 e,  correu um filminho na minha mente, percebi que os anos 70 eram a supremacia de m\u00f3veis e utens\u00edlios do esquecido Solar dos Martinos.<\/p>\n<p>N\u00e3o que hoje me bata pelo top de linha ou pela \u00faltima palavra em tecnologia. Mas, que foi engra\u00e7ado foi. N\u00e3o havia me dado conta da voracidade do tempo&#8230;<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Juntei essas duas hist\u00f3rias hoje e quis lhes contar, meus cinco ou seis amados leitores, porque acredito narram a origem deste site\/blog. N\u00e3o moro em um moinho, na regi\u00e3o nobre da Fran\u00e7a, \u00e9 bem verdade. Mas hoje posso mandar minhas hist\u00f3rias \u2013 que seriam o conte\u00fado da coluna que idealizei \u2013 para amigos, leitores e quem mais se dispuser a l\u00ea-las, via net. <\/p>\n<p>De resto, reparem: continuo atrapalhado e sempre em cima do la\u00e7o com as obriga\u00e7\u00f5es cotidianas \u2013 fazer o Imposto de Renda, por exemplo. N\u00e3o almejo a Academia dos imortais, nem a eternidade dos grandes autores. Sou um gr\u00e3o de sal no mar do c\u00e9u. E, reconhe\u00e7o, tenho a brevidade do tempo que existir. Mas, esse enfileirar de letrinhas di\u00e1rio \u2013 aqui neste modest\u00edssimo blog &#8211; me d\u00e1 a estranha &#8211; e agrad\u00e1vel &#8211; sensa\u00e7\u00e3o de ser o \u00faltimo dos highlanders. Em lugar de espadas e lan\u00e7as, me defendo como posso com palavras e sonhos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Certa vez, li um livro de nome &#8216;Cartas do Meu Moinho&#8217;, se n\u00e3o me engano. 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