{"id":10587,"date":"2007-04-23T00:00:00","date_gmt":"2007-04-23T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:58:22","modified_gmt":"2017-09-15T19:58:22","slug":"salve-jorge-3","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/salve-jorge-3\/","title":{"rendered":"Salve Jorge"},"content":{"rendered":"<p>\u201cDomingo, 23, \u00e9 dia de Jorge.\u201d<\/p>\n<p>Talvez fosse o cavalo branco e belo, ares de nobreza. Talvez fosse a armadura prateada, que confiava magnitude \u00e0 imagem do guerreiro. Talvez ele pr\u00f3prio, ent\u00e3o prestes a completar 4 anos, se imaginasse com coragem suficiente para embates e lutas. Que sequer podia sonhar seriam sua sina vida afora.<\/p>\n<p>Fiquemos com o talvez. Fiquemos, pois, com o garoto. Que n\u00e3o teve d\u00favidas quando a amiga da m\u00e3e lhe perguntou carinhosa:<\/p>\n<p>&#8212; Pisccinim, o que voc\u00ea quer de presente.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o precisa, Olga \u2013 rebateu a m\u00e3e zelosa.<\/p>\n<p>&#8212; Quero aquele santo que tem um cavalo branco &#8211; respondeu convicto.<\/p>\n<p>&#8212; Tem certeza \u2013 perguntou a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8212; Tenho.<\/p>\n<p>&#8212; Acho que meu filho vai ser padre. Deus o escolheu.<\/p>\n<p>Coisas de m\u00e3e&#8230;<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>No dia aprazado da tradicional festinha de anivers\u00e1rio, os olhos do garoto enlevaram-se quando viram a est\u00e1tua, de pouco mais de 20 cent\u00edmetros. N\u00e3o era grande quanto a de Santa Rita de C\u00e1ssia que o tio exibia na assobradada casa da av\u00f3 materna. Nem pequena o suficiente para n\u00e3o se impor no meio dos seus brinquedos.<\/p>\n<p>A m\u00e3e entendeu o que se passava na mente do menino.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o \u00e9 para brincar, n\u00e3o. \u00c9 para voc\u00ea olhar todos os dias. E pedir prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Primeiro, o santo foi parar em cima do guarda-roupa. Mas, ele reclamou. N\u00e3o conseguia ver direito. E o &#8216;brinquedo&#8217; era dele. A m\u00e3e sorria, pegava um banquinho, subia e trazia o santo guerreiro para perto das m\u00e3os do garoto sonhador. <\/p>\n<p>&#8212; Pede a ben\u00e7\u00e3o, pede filho.<\/p>\n<p>Ele gesticulava rapidamente o sinal da cruz. Mas, em seu pensamento, era parceiro do pr\u00f3prio cavaleiro que morava na lua e, destemido, enfrentava o drag\u00e3o, com sua lan\u00e7a justiceira.<\/p>\n<p>&#8212; Ele \u00e9 pr\u00edncipe, m\u00e3e? <\/p>\n<p>Sem ter a precis\u00e3o da resposta, a m\u00e3e abria um sorriso e recorria a f\u00e9.<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 um santo, filho. Um santo guerreiro, o corajoso Jorge da Capad\u00f3cia que se converteu ao catolicismo. E morreu martirizado.<\/p>\n<p>Demorou a entender. Mas, tamb\u00e9m, n\u00e3o era esse o enredo que queria para sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>&#8212; Que bicho \u00e9 esse, m\u00e3e?<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 um drag\u00e3o que p\u00f5e fogo pelas ventas. Mas, n\u00e3o se assuste porque esse monstro n\u00e3o existe. \u00c9 s\u00f3 uma simbologia.<\/p>\n<p>&#8212; Ah!, sei&#8230;<\/p>\n<p>Outra vez a m\u00e3e mudava o enredo da sua hist\u00f3ria. Ent\u00e3o, desconversava. Mas, intimamente, n\u00e3o tinha d\u00favidas. Se o bicho aparecesse por ali, ele o enfrentaria com sua espada de pau. Mas onde arranjaria um cavalo branco?<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Segunda, 23 de abril.<\/p>\n<p>Cinq\u00fcenta anos depois&#8230;<\/p>\n<p>O homem acorda e, antes de ir para o trabalho, passa na casa da m\u00e3e. Vai tomar o caf\u00e9 da manh\u00e3, r\u00e1pido, mas obrigat\u00f3rio. <\/p>\n<p>&#8212; A senhora est\u00e1 bem? Tomou os rem\u00e9dios?<\/p>\n<p>As perguntas de sempre que ficam sem respostas. Pois, desandam, m\u00e3e e filho, a falar das not\u00edcias do r\u00e1dio. Das irm\u00e3s distantes. Do neto dela &#8211; filho dele &#8211; que est\u00e1 um mo\u00e7o. Da vida como ela \u00e9 \u2013 e sempre ser\u00e1.<\/p>\n<p>&#8212; Vou indo&#8230; Est\u00e1 na minha hora. Ben\u00e7\u00e3o m\u00e3e.<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea esqueceu de rezar. Vai ver seu santo. Hoje \u00e9 Dia de S\u00e3o Jorge.<\/p>\n<p>Ela d\u00e1 a costumeira risadinha quando v\u00ea que o filho faz meia volta e se encaminha para o quarto. Por alguns segundos, ele se posta a frente da velha c\u00f4moda. Ali, num altar improvisado, o &#8216;parceiro&#8217; divide espa\u00e7o com outros santos da devo\u00e7\u00e3o da senhora de 82 anos. A est\u00e1tua est\u00e1 intacta. S\u00f3 o branco do cavalo amarelecido pelo tempo. Mas, o porte do guerreiro continua impec\u00e1vel. Ainda e sempre na luta contra as for\u00e7as do mal. <\/p>\n<p>Sente-se em paz e protegido. Tamb\u00e9m se v\u00ea como um guerreiro. N\u00e3o ganhou todas as batalhas. Mas, preservou a capacidade amar e as infinitas possibilidades do sonho. N\u00e3o tem do que se arrepender. Fez e faz o caminho com o seu passo. Reza, agradece ao santo e ao milagre da vida.<\/p>\n<p>&#8212; Vai com Deus, filho. Que S\u00e3o Jorge o proteja.<br \/>\nHoje e sempre.<\/p>\n<p>&#8212; Am\u00e9m.<\/p>\n<p>Ele sai para enfrentar o novo dia. Embates e lutas que sequer ousou sonhar. Tristezas, decep\u00e7\u00f5es. S\u00e3o apenas &#8211; e t\u00e3o somente &#8211; uma simbologia. Saber\u00e1 enfrentar com a coragem do menino que se fez homem e as ben\u00e7\u00e3os do guerreiro que se fez santo&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cDomingo, 23, \u00e9 dia de Jorge.\u201d<\/p>\n<p>Talvez fosse o cavalo branco e belo, ares de nobreza. Talvez fosse a armadura prateada, que confiava magnitude \u00e0 imagem do guerreiro. 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