{"id":10595,"date":"2007-04-30T00:00:00","date_gmt":"2007-04-30T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:57:32","modified_gmt":"2017-09-15T19:57:32","slug":"eu-ajudante-de-agrimensor-final","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/eu-ajudante-de-agrimensor-final\/","title":{"rendered":"Eu, ajudante de agrimensor &#8211; Final"},"content":{"rendered":"<p>XIII.<\/p>\n<p>&#8212; O \u2018figura\u2019, amanh\u00e3 quero voc\u00ea \u00e0s sete em frente ao port\u00e3o de embarque do aeroporto.<\/p>\n<p>&#8212; Legal. Nunca andei de avi\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o faz gra\u00e7a, meu chapa, voc\u00ea vai trabalhar comigo. \u00c0s sete. Ok?<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o vai dar. Meu primo s\u00f3 passa \u00e0s oito.<\/p>\n<p>&#8212; As regras mudaram. \u00c0s sete e fim de papo.<\/p>\n<p>N\u00e3o respondi. Nem valeria a pena responder \u00e0quele metro e meio de pretens\u00e3o, apelidado de Bigode. Cabelo aparado \u00e0 \u2018escovinha\u2019 em uma \u00e9poca que s\u00f3 militar usava o corte, bigode vasto e felpudo caindo sobre o l\u00e1bio superior, cara quadrada \u2013 era o pr\u00f3prio, arremedo de feitor e sargent\u00e3o, de prancheta na m\u00e3o e cal\u00e7a de tergal verde-abacate.<\/p>\n<p>A volta no Fusca do Alberto foi silenciosa. Afinal, ele era c\u00famplice na troca de ajudantes e se manteve afastado do di\u00e1logo que travei com o Bigode, o que se achava.<\/p>\n<p>Na despedida, n\u00e3o houve \u2018at\u00e9 amanh\u00e3\u2019.  Um \u2018obrigado e tchau\u2019 ficou de bom tamanho.<\/p>\n<p>Nem lembro se o Alberto respondeu. <\/p>\n<p>XIV.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 seguinte, acordei antes de a m\u00e3e chamar. Me vesti com a melhor roupa e me despedi da m\u00e3e, sem tomar o caf\u00e9 da manh\u00e3.<\/p>\n<p>&#8212; Aonde vai. Voc\u00ea n\u00e3o vai esperar o Alberto?<\/p>\n<p>Foi a vez da m\u00e3e ficar sem resposta. Antes das sete estava dentro do \u00f4nibus. Mas s\u00f3 cheguei \u00e0s oito e pedradrinha no Itaim Bibi. Fui direto ao escrit\u00f3rio de engenharia. Apresentei-me ao departamento pessoal e pedi minhas contas. Dez dias de trabalho, deveria receber em torno de 250 reais (transformando em moeda de hoje). Na verdade, recebi um pouquinho a mais. Quase trezentos paus.<\/p>\n<p>Fui direto para o centro de S\u00e3o Paulo. Fiquei zanzando por ali, com a grana espalhada em todos os bolsos. Caso algum punguista me \u2018aliviasse\u2019, ficaria apenas com um d\u00e9cimo do dinheiro. Era s\u00f3 o que podia acontecer na S\u00e3o Paulo dos anos 60: voc\u00ea dar o azar de cruzar com um m\u00e3o leve, um batedor de carteira num coletivo ou num local de aglomera\u00e7\u00e3o. Um encontr\u00e3o e zapt. Voc\u00ea nem percebia que o cara havia furtado sua carteira&#8230;<\/p>\n<p>Enfim&#8230;<\/p>\n<p>Fiquei zanzando pela avenida Ipiranga. Olhei vitrines vagarosamente. Ameacei comprar uma camisa na alfaiataria Picadilly \u2013 mas, contive o impulso, al\u00e9m do era parecida com a que o Beto Rockfeller usava na novela. Antes das onze j\u00e1 estava no boteco que fez aquele \u2018picadinho\u2019 inesquec\u00edvel para, agora sim, um almo\u00e7o como \u2018manda o figurino\u2019. \u00c0s 13h15 fui o primeiro a comprar ingresso para a primeira sess\u00e3o do cine Windsor. N\u00e3o lembro o nome do filme, mas a atriz devia ser bem bonita \u2013 um dos crit\u00e9rios que sempre adotei para ver bons filmes. <\/p>\n<p>XV.<\/p>\n<p>Cheguei em casa \u2013 e claro \u2013 a Dona Yolanda estava, digamos assim, em choque.<\/p>\n<p>&#8212; O que voc\u00ea aprontou. N\u00e3o me diga que&#8230;<\/p>\n<p>Fui obrigado a dizer.<\/p>\n<p>&#8212; Fui demitido por vontade pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>&#8212; Como assim?<\/p>\n<p>Era uma longa hist\u00f3ria. Ela n\u00e3o entenderia alguns pontos de honra. Somos o que somos \u2013 e ponto. N\u00e3o poderia deixar aquele estrop\u00edcio me transformar numa caricatura de mim mesmo. Era ele ou eu. O projeto da avenida Bandeirantes era muito pequeno para n\u00f3s dois. Uma pena, mas&#8230;<\/p>\n<p>Troquei-me r\u00e1pido e fui direto para a quadra de cimento do Bandeirantes, da Vila Carioca. A turma ia fazer um rach\u00e3o daqueles e eu precisava recuperar minha forma. Afinal, o Z\u00e9 Luiz teria que ir ao casamento do irm\u00e3o no s\u00e1bado &#8212; e n\u00e3o poderia jogar. Ele entrou no meu lugar e n\u00e3o comprometeu. Eu n\u00e3o podia perder essa chance de recuperar minha condi\u00e7\u00e3o de quarto zagueiro titular do valoroso time do Bras\u00edlia, aquele que nunca venceu.<\/p>\n<p>Nota do Autor \u2013<\/p>\n<p>Algu\u00e9m a\u00ed tem alguma d\u00favida que o trecho mais certinho da Bandeirantes \u00e9 justamente a reta que corta as imedia\u00e7\u00f5es da avenida Miruna, onde tem o viaduto e o aeroporto. Pois \u00e9. N\u00e3o levem a mal n\u00e3o, mas foi ali que atuou o degas aqui. N\u00e3o sei, n\u00e3o. Mas acho que os rapazes se perderam depois que os deixei. Sempre desconfiei que o tal do Bigode era uma farsa. E o Alberto n\u00e3o ficava muito atr\u00e1s, n\u00e3o. Que me perdoe o tio J\u00falio, tio da minha m\u00e3e que eu nunca conheci&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>XIII.<\/p>\n<p>&#8212; O \u2018figura\u2019, amanh\u00e3 quero voc\u00ea \u00e0s sete em frente ao port\u00e3o de embarque do aeroporto.<\/p>\n<p>&#8212; Legal. 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