{"id":10597,"date":"2007-04-30T00:00:00","date_gmt":"2007-04-30T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T04:08:34","modified_gmt":"2017-09-14T04:08:34","slug":"eu-ajudante-de-agrimensor-versao-completa","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/eu-ajudante-de-agrimensor-versao-completa\/","title":{"rendered":"Eu, ajudante de agrimensor &#8211; Vers\u00e3o completa"},"content":{"rendered":"<p>Escrevi aqui num post-cr\u00f4nica que, por um brev\u00edssimo tempo na minha vida, fui auxiliar ou ajudante de agrimensor. Ontem, algu\u00e9m me perguntou:<\/p>\n<p>&#8212; Mas, professor, que diabo \u00e9 isso?<\/p>\n<p>Foi o suficiente. Para que eu entrasse na m\u00e1quina encantada do tempo-que-se-foi. Portanto, meus car\u00edssimos cinco ou seis leitores, como diria aquele simp\u00e1tico contador de causos, sentem porque l\u00e1 vem hist\u00f3ria&#8230;<\/p>\n<p>(Ou voc\u00eas acham que eu me contentaria com uma explica\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica?)<\/p>\n<p>I.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei j\u00e1 lhes informei da m\u00e1 fama que arregimentei quando era alegre e jovem? <\/p>\n<p>De fam\u00edlia remediada para pobre, era h\u00e1bito naquela \u00e9poca todos come\u00e7arem a trabalhar muito cedo. Verdadeiramente para essa, digamos, classe social, os estudos de um filho vinham depois de um emprego que ajudasse no or\u00e7amento familiar.<\/p>\n<p>Meu pai n\u00e3o pensava assim. <\/p>\n<p>Queria que eu estudasse. N\u00e3o especificava o como, nem o porqu\u00ea. Mas, deixava claro:<\/p>\n<p>&#8212; Meu filho vai ser doutor.<\/p>\n<p>Para a vizinhan\u00e7a da Muniz de Souza, os parentes dos dois lados e intrometidos de plant\u00e3o, essa postura era muito criticada. Mas, as trombetas de tias, cunhados e conhecidos n\u00e3o soavam no ouvido do Velho Aldo, calabr\u00eas e respond\u00e3o. Em compensa\u00e7\u00e3o, o coral dos descontentes cantava estridente nos t\u00edmpanos da Dona Yolanda, minha m\u00e3e. Que por mais pacienciosa que era, n\u00e3o suportou as insinua\u00e7\u00f5es que eu n\u00e3o era l\u00e1 muito chegado ao trabalho. Onde j\u00e1 se viu? Um molec\u00e3o daquele tamanho e n\u00e3o ajudava em casa nem com um vint\u00e9m.<\/p>\n<p>&#8212; Olha que belo vagabundo est\u00e1 me saindo aquele &#8211; diziam deste que escreve essas linhas nost\u00e1lgicas, nesta sexta de chuva pregui\u00e7osa.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Olhem quanta maldade!<\/p>\n<p>Havia at\u00e9 quem insinuasse que eu era muito parecido com o Beto Rockfeller, protagonista de uma famosa novela da TV Tupi. O protagonista era Luiz Gustavo, que fazia o papel de um simp\u00e1tico 171, mas do bem. Pobret\u00e3o que era, usava de mil expedientes para se fazer passar por milion\u00e1rio e freq\u00fcentar as melhores rodas paulistanas. <\/p>\n<p>Lembro de uma cena engra\u00e7ad\u00edssima. <\/p>\n<p>Um rica\u00e7o estrearia um novo iate com uma &#8216;festa de arromba&#8217;, para usar o termo da \u00e9poca. Toda a alta sociedade se faria presente no Guaruj\u00e1 e, \u00f3bvio, que nosso her\u00f3i se incluiu entre os tais. Fez o poss\u00edvel para ser convidado \u2013 e foi. Mas, a\u00ed, surgiu outra quest\u00e3o: como chegar no iate ancorado a uma razo\u00e1vel dist\u00e2ncia da praia. Beto e seu fiel escudeiro (interpretado por Pl\u00ednio Marcos) precisariam alugar um barco ou mais precisamente ter um que o levasse at\u00e9 a festa. Claro que eles n\u00e3o poderiam chegar de smoking e de barco a remo.<\/p>\n<p>Beto encontrou a solu\u00e7\u00e3o na pr\u00f3pria praia. Um garoto de nove, dez anos tirava onda num pranchinha, que \u00e0 \u00e9poca era conhecida como \u2018jacar\u00e9\u2019 quando o anti-her\u00f3i teve a arrojada id\u00e9ia. Tomou a prancha emprestada do garoto \u2013 que se p\u00f4s a chorar \u2013 e n\u00e3o teve d\u00favidas: nadou at\u00e9 o iate. <\/p>\n<p>Chegou estropiado, mas chegou e de mai\u00f4 com uma estampa psicod\u00e9lica. Os convivas o saudaram como um \u2018milion\u00e1rio extravagante\u2019. Ele agradeceu e se aproximou do anfitri\u00e3o, incr\u00e9dulo e feliz com a presen\u00e7a do amigo. Beto aproveitou e pediu \u2018umas roupinhas emprestadas\u2019, pois n\u00e3o poderia ficar na festa com aqueles trajes. <\/p>\n<p>Minutos depois ele reaparece em cena, elegantemente vestido, a &#8216;paquerar&#8217; todas as mulheres &#8211; todas n\u00e3o, minto, s\u00f3 as muitas ricas e bonitas.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Vejam que compara\u00e7\u00e3o! <\/p>\n<p>Eu at\u00e9 que gostava de parecer (n\u00e3o parecendo) com um cara que fazia sucesso na TV. Mas, a Dona Yolanda odiava. Tanto que resolveu agir. Mesmo contra a vontade do Ald\u00e3o \u2013 coisa que ela n\u00e3o fez em 56 anos de casamento. Buscou nos seus guardados um n\u00famero de telefone de um velho tio, irm\u00e3o do meu av\u00f4 Carlito, e rumou decidida para um telefone p\u00fablico&#8230;<\/p>\n<p>Mas, essa \u00e9 uma outra hist\u00f3ria.<br \/>\nOu a verdadeira hist\u00f3ria do ajudante de agrimensor&#8230;<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Se h\u00e1 estudantes de jornalismo que ainda hoje se espantam com o termo \u2018agrimensor\u2019, imaginem a minha express\u00e3o quando a Dona Yolanda voltou da rua com uma verdade inabal\u00e1vel.<\/p>\n<p>&#8212; Acabou a moleza. Voc\u00ea come\u00e7a amanh\u00e3 como ajudante de agrimensor. Vai trabalhar com o Alberto, meu primo, filho do tio J\u00falio.<\/p>\n<p>Para mim, tudo era uma grande novidade. N\u00e3o conhecia o Alberto, menos ainda o tio J\u00falio e, principalmente, o que viria a ser ajudante de agrimensor. A m\u00e3e estava decidida<\/p>\n<p>&#8212; Depois voc\u00ea conversa com seu pai.<\/p>\n<p>Lembro: estava preparando meu time de futebol de bot\u00e3o para um importante compromisso naquela tarde. Enfrentar\u00edamos o time do Astrogildo no campo de eucatex da casa dele \u2013 ou seja, no est\u00e1dio do advers\u00e1rio. Nem isso Dona Yolanda levou em considera\u00e7\u00e3o. Para ela, seria um cala-boca em todos que falavam de mim.<\/p>\n<p>Em v\u00e3o, tentei argumentar com a verdade dos fatos.<\/p>\n<p>&#8212; M\u00e3e, amanh\u00e3 \u00e9 s\u00e1bado.<\/p>\n<p>Como resposta, ouvi um indiferente \u201ce da\u00ed!\u201d.<br \/>\nPercebi, ent\u00e3o, que n\u00e3o haveria escapat\u00f3ria.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>E n\u00e3o teve mesmo.<\/p>\n<p>Manh\u00e3 de s\u00e1bado cinzento. L\u00e1 estou no come\u00e7o da avenida Ipiranga. 7 da matina. Ainda desacoro\u00e7oado com a realidade que me espera \u2013 e que, me parece, \u00e0 primeira vista bem pior do que o pai me explicara.<\/p>\n<p>&#8212; Agrimensor, top\u00f3grafo s\u00e3o a mesma coisa. Voc\u00eas v\u00e3o fazer a medi\u00e7\u00e3o e mapear as ruas para eventuais futuras obras ou mesmo um reparo. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 o fim do mundo. Ser\u00e1 uma boa experi\u00eancia.<\/p>\n<p>N\u00e3o era o fim do mundo ver todo mundo com cara de fim de semana e eu ali sem estar a fim de trabalhar. Mas, confesso, n\u00e3o me senti confort\u00e1vel ao ser apresentado a duas varinhas brancas com as extremidades vermelhas, \u00e0 trena e ao prumo. Era o meu kit &#8216;oper\u00e1rio-padr\u00e3o&#8217;, muito prazer. <\/p>\n<p>N\u00e3o riam, por favor, que eu paro a hist\u00f3ria por aqui&#8230;<\/p>\n<p>Minha fun\u00e7\u00e3o era razoavelmente simples. O top\u00f3grafo, primo Alberto, se posicionava no marco zero da rua, com um aparelho medidor sobre um trip\u00e9 (parecia uma mistura de c\u00e2mera de TV com um bin\u00f3culo, tinha visor, lente e tudo), e eu e mais outro ajudante estic\u00e1vamos a trena at\u00e9 determinado ponto. Grit\u00e1vamos a metragem que ele anotava num caderno de c\u00e1lculos e posicion\u00e1vamos a r\u00e9gua para que ele olhasse pelo visor da trapitonga e \u2018fechasse\u2019 com outras medidas que, na verdade, nunca me interessaram. <\/p>\n<p>Feito isso, ele vinha at\u00e9 onde est\u00e1vamos e n\u00f3s segu\u00edamos em frente para nova rodada de n\u00fameros e c\u00e1lculos que, repito, n\u00e3o me interessavam nadinha.<\/p>\n<p>Assim segu\u00edamos at\u00e9 o fim da rua&#8230;<\/p>\n<p>At\u00e9 que n\u00e3o me sa\u00ed mal neste primeiro dia \u2013 especialmente na hora do almo\u00e7o, pago pela empresa. Fui apresentado a um tal de \u201cpicadinho\u201d, consistente prato pronto, que derrubei em segundos, acompanhado de um guaran\u00e1, refrigerante \u00e0 \u00e9poca s\u00f3 nos fins de semana e olhe l\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Primo, voc\u00ea come r\u00e1pido, hein.<\/p>\n<p>Foi a vez de Alberto se espantar.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Terminamos os trabalhos por volta das 17 horas. A equipe do agrimensor Alberto encontrou-se com outra equipe medidora da mesma empresa na rua Nestor Pestana. Eles vieram da Consola\u00e7\u00e3o e todos saudamos o feliz encontro e, principalmente, o fim do expediente. Estava em cacos.<\/p>\n<p>\u00c0 tarde o servi\u00e7o arrastou-se. Efeito da leseira que o picadinho provocou? Prov\u00e1vel. Ou o desalento por testemunhar as pessoas sem nada a fazer, indo aos cinemas ou mesma deixando-se largar em bares e restaurantes? Com certeza. <\/p>\n<p>Eu ali. Pra l\u00e1 e pra c\u00e1. Estica daqui, puxa dali. Olha o prumo. Acerta a r\u00e9gua. Ser\u00e1 que eu perderia minha vaga de quarto-zagueiro titular do time de v\u00e1rzea da Vila Carioca, o invicto Bras\u00edlia (invicto porque perdia todas). \u00c0quela hora, o jogo devia estar correndo solto. Ser\u00e1 que trabalhar\u00edamos todos os s\u00e1bados? Ah, n\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ah, sim, primo. Segunda-feira passo \u00e0s 8 na sua casa. Vamos come\u00e7ar uma medi\u00e7\u00e3o l\u00e1 pelos lados do aeroporto. Querem abrir uma via expressa l\u00e1. Vai se chamar avenida dos Bandeirantes&#8230;<\/p>\n<p>Era o primo Alberto, top\u00f3grafo, avisando da nossa pr\u00f3xima jornada. Hist\u00f3rica e breve jornada, como v\u00eaem.<\/p>\n<p>VII. <\/p>\n<p>Na manh\u00e3 de segunda, foi montada uma opera\u00e7\u00e3o de guerra com a reuni\u00e3o de v\u00e1rias equipes de agrimensores numa pra\u00e7a perto do aeroporto. \u00cdamos esquadrinhar toda aquela regi\u00e3o e preparar a \u00e1rea para transformar aquele fundo de vale numa grande avenida que cortaria S\u00e3o Paulo de leste a oeste. Uma tal de avenida dos Bandeirantes. <\/p>\n<p>Como disse anteriormente, n\u00e3o entendia nada daquelas conversas que, ali\u00e1s, n\u00e3o me interessavam. Mas, fiquei feliz quando soube que o pessoal do Alberto iria rastrear todas as imedia\u00e7\u00f5es da avenida Miruna &#8212; ruas transversais e paralelas. <\/p>\n<p>Porque fiquei feliz? Simples. Sabia por ouvir falar que a TV Record \u2013 ent\u00e3o l\u00edder absoluta de audi\u00eancia \u2013 estava localizada na tal avenida. A chance de ver algum artista por ali me daria uma certa notoriedade junto aos meus amigos. Que, como todos, estranhavam quando eu dizia o que andava fazendo profissionalmente.<\/p>\n<p>&#8212; Ajudante de agrimensor? Cada uma que escuto. Conta a verdade, cara. Voc\u00ea faz o qu\u00ea?<\/p>\n<p>Desisti de explicar. At\u00e9 porque ningu\u00e9m parava para ouvir. Quem sabe se falasse que havia encontrado a Elis Regina ou o Roberto Carlos, algu\u00e9m se interessaria pelo assunto.<\/p>\n<p>&#8212; Ent\u00e3o, falei: Roberto, s\u00f3 um minuto, n\u00e3o saia do lugar que estou terminando umas medi\u00e7\u00f5es importantes&#8230;<\/p>\n<p>Sempre tive tend\u00eancia a imaginar coisas&#8230;<\/p>\n<p>VIII.<\/p>\n<p>Bem, vamos ser pr\u00e1ticos. Passei nove dias no estica e puxa daquelas ruas e vi, \u00e0 dist\u00e2ncia, apenas dois artistas. O compositor Adoniran Barbosa, de gravata borboleta, chap\u00e9u e copo de u\u00edsque na m\u00e3o. Era dez horas da manh\u00e3, ele estava sentado \u00e0 mesa de um bar avarandado em frente \u00e0 Record. E a cara de poucos amigos do autor de \u201cTrem das Onze\u201d n\u00e3o deixava a menor d\u00favida. <\/p>\n<p>Passei direto e reto com meu kit de \u2018oper\u00e1rio padr\u00e3o\u2019. Estou certo, foi a melhor decis\u00e3o. Puxei a trena na boa, ajeitei a r\u00e9gua, o prumo e fui \u2018cantar\u2019 os n\u00fameros s\u00f3 quando cheguei no outro setor.<\/p>\n<p>Eu, hein!!!<\/p>\n<p>IX.<\/p>\n<p>L\u00e1 pelo sexto ou s\u00e9timo dia de trampo, conhecemos outra celebridade da Record. O humorista e produtor do Concurso de Bandas e Fanfarras, Durval de Souza. De uma extraordin\u00e1ria simpatia, acolheu nossa equipe em sua casa, situada numa das ruas que med\u00edamos, quando come\u00e7ou uma aben\u00e7oada chuva. Aben\u00e7oada porque quando chovia t\u00ednhamos que paralisar o servi\u00e7o e esperar a melhora do tempo. <\/p>\n<p>Acertou quem desconfiou que S\u00e3o Pedro era o santo mais acionado por mim nesses dias. Uma garoinha que fosse \u2013 e o Alberto, mesmo contrariado, mandava todo mundo procurar abrigo. Nesse dia, por acaso, paramos em frente \u00e0 resid\u00eancia do artista. Que se mostrou sol\u00edcito e preocupado.<\/p>\n<p>&#8212; Teremos desapropria\u00e7\u00f5es por aqui, ent\u00e3o \u2013 afirmou em tom de pergunta.<\/p>\n<p>&#8212; V\u00e3o derrubar tudo por aqui. Vai ser uma avenidona&#8230;<\/p>\n<p>Era eu j\u00e1 vivenciando o lado sensacionalista da not\u00edcia. O Alberto n\u00e3o gostou.<\/p>\n<p>&#8212; Esse meu primo tem um parafuso a menos&#8230;<\/p>\n<p>X.<\/p>\n<p>A impress\u00e3o ficou mais evidente no dia seguinte. <\/p>\n<p>T\u00ednhamos que medir um cruzamento e a\u00ed era preciso ter um cuidado extra. Pois, n\u00e3o pod\u00edamos atrapalhar o tr\u00e2nsito e tomar cuidado com os instrumentos, especialmente a trena. Deixa-la sempre rente ao ch\u00e3o para evitar acidentes. Foi exatamente o que n\u00e3o fiz quando me distrai por um segundo. Levantei um tantinho a fita m\u00e9trica que enroscou nos pneus de um autom\u00f3vel e voou longe. N\u00e3o houve feridos, mas consider\u00e1vel preju\u00edzo material. A trena ficou imprest\u00e1vel. <\/p>\n<p>&#8212; Esse primo j\u00e1 deu o que tinha que dar \u2013 comentou desiludido o Alberto.<\/p>\n<p>XI.<\/p>\n<p>Sinceridade. Eu j\u00e1 estava no meu limite. Dez dias acordando \u00e0s seis e meia. Me entupindo de \u2018picadinho\u2019 e guaran\u00e1 na hora do almo\u00e7o. Dois s\u00e1bados sem jogar futebol. S\u00f3 no estica e puxa de trenas indom\u00e1veis e voadoras e prumos inquietos que acabavam com meu \u00e2nimo para qualquer outra atividade. <\/p>\n<p>Mas, n\u00e3o reclamei e ia tocando&#8230;<\/p>\n<p>No d\u00e9cimo dia, encontramos a outra equipe. Fechamos nosso setor e eles o deles.<\/p>\n<p>O primo Alberto andava mais calado do que de costume. <\/p>\n<p>Por isso, estranhei quando ele entabulou uma longa conversa com o Bigode, o agrimensor da outra turma. <\/p>\n<p>&#8212; Eu e a sua equipe vamos por aqui. Voc\u00ea e o meu pessoal fazem o trajeto inverso. <\/p>\n<p>Ser\u00e1 que ouvi direito \u2013 perguntei a mim mesmo. <\/p>\n<p>&#8212; E fica esperto que o \u2018cabeludo\u2019 \u00e9 meio folgado.<\/p>\n<p>XII.<\/p>\n<p>Era isso mesmo&#8230; <\/p>\n<p>De primo acabei virando cabeludo folgado, no entender do Alberto.<\/p>\n<p>&#8212; Ele n\u00e3o parece o Beto Rockfeller?<\/p>\n<p>Fiquei na minha. De leve&#8230;<\/p>\n<p>XIII.<\/p>\n<p>&#8212; O \u2018figura\u2019, amanh\u00e3 quero voc\u00ea \u00e0s sete em frente ao port\u00e3o de embarque do aeroporto.<\/p>\n<p>&#8212; Legal. Nunca andei de avi\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o faz gra\u00e7a, meu chapa, voc\u00ea vai trabalhar comigo. \u00c0s sete. Ok?<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o vai dar. Meu primo s\u00f3 passa \u00e0s oito.<\/p>\n<p>&#8212; As regras mudaram. \u00c0s sete e fim de papo.<\/p>\n<p>N\u00e3o respondi. Nem valeria a pena responder \u00e0quele metro e meio de pretens\u00e3o, apelidado de Bigode. Cabelo aparado \u00e0 \u2018escovinha\u2019 em uma \u00e9poca que s\u00f3 militar usava o corte, bigode vasto e felpudo caindo sobre o l\u00e1bio superior, cara quadrada \u2013 era o pr\u00f3prio, arremedo de feitor e sargent\u00e3o, de prancheta na m\u00e3o e cal\u00e7a de tergal verde-abacate.<\/p>\n<p>A volta no Fusca do Alberto foi silenciosa. Afinal, ele era c\u00famplice na troca de ajudantes e se manteve afastado do di\u00e1logo que travei com o Bigode, o que se achava.<\/p>\n<p>Na despedida, n\u00e3o houve \u2018at\u00e9 amanh\u00e3\u2019. Um \u2018obrigado e tchau\u2019 ficou de bom tamanho.<\/p>\n<p>Nem lembro se o Alberto respondeu. <\/p>\n<p>XIV.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 seguinte, acordei antes de a m\u00e3e chamar. Me vesti com a melhor roupa e me despedi da m\u00e3e, sem tomar o caf\u00e9 da manh\u00e3.<\/p>\n<p>&#8212; Aonde vai. Voc\u00ea n\u00e3o vai esperar o Alberto?<\/p>\n<p>Foi a vez da m\u00e3e ficar sem resposta. Antes das sete estava dentro do \u00f4nibus. Mas s\u00f3 cheguei \u00e0s oito e pedradrinha no Itaim Bibi. Fui direto ao escrit\u00f3rio de engenharia. Apresentei-me ao departamento pessoal e pedi minhas contas. Dez dias de trabalho, deveria receber em torno de 250 reais (transformando em moeda de hoje). Na verdade, recebi um pouquinho a mais. Quase trezentos paus.<\/p>\n<p>Fui direto para o centro de S\u00e3o Paulo. Fiquei zanzando por ali, com a grana espalhada em todos os bolsos. Caso algum punguista me \u2018aliviasse\u2019, ficaria apenas com um d\u00e9cimo do dinheiro. Era s\u00f3 o que podia acontecer na S\u00e3o Paulo dos anos 60: voc\u00ea dar o azar de cruzar com um m\u00e3o leve, um batedor de carteira num coletivo ou num local de aglomera\u00e7\u00e3o. Um encontr\u00e3o e zapt. Voc\u00ea nem percebia que o cara havia furtado sua carteira&#8230;<\/p>\n<p>Enfim&#8230;<\/p>\n<p>Fiquei zanzando pela avenida Ipiranga. Olhei vitrines vagarosamente. Ameacei comprar uma camisa na alfaiataria Picadilly \u2013 mas, contive o impulso, al\u00e9m do era parecida com a que o Beto Rockfeller usava na novela. Antes das onze j\u00e1 estava no boteco que fez aquele \u2018picadinho\u2019 inesquec\u00edvel para, agora sim, um almo\u00e7o como \u2018manda o figurino\u2019. \u00c0s 13h15 fui o primeiro a comprar ingresso para a primeira sess\u00e3o do cine Windsor. N\u00e3o lembro o nome do filme, mas a atriz devia ser bem bonita \u2013 um dos crit\u00e9rios que sempre adotei para ver bons filmes. <\/p>\n<p>XV.<\/p>\n<p>Cheguei em casa \u2013 e claro \u2013 a Dona Yolanda estava, digamos assim, em choque.<\/p>\n<p>&#8212; O que voc\u00ea aprontou. N\u00e3o me diga que&#8230;<\/p>\n<p>Fui obrigado a dizer.<\/p>\n<p>&#8212; Fui demitido por vontade pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>&#8212; Como assim?<\/p>\n<p>Era uma longa hist\u00f3ria. Ela n\u00e3o entenderia alguns pontos de honra. Somos o que somos \u2013 e ponto. N\u00e3o poderia deixar aquele estrop\u00edcio me transformar numa caricatura de mim mesmo. Era ele ou eu. O projeto da avenida Bandeirantes era muito pequeno para n\u00f3s dois. Uma pena, mas&#8230;<\/p>\n<p>Troquei-me r\u00e1pido e fui direto para a quadra de cimento do Bandeirantes, da Vila Carioca. A turma ia fazer um rach\u00e3o daqueles e eu precisava recuperar minha forma. Afinal, o Z\u00e9 Luiz teria que ir ao casamento do irm\u00e3o no s\u00e1bado &#8212; e n\u00e3o poderia jogar. Ele entrou no meu lugar e n\u00e3o comprometeu. Eu n\u00e3o podia perder essa chance de recuperar minha condi\u00e7\u00e3o de quarto zagueiro titular do valoroso time do Bras\u00edlia, aquele que nunca venceu.<\/p>\n<p>Nota do Autor \u2013<\/p>\n<p>Algu\u00e9m a\u00ed tem alguma d\u00favida que o trecho mais certinho da Bandeirantes \u00e9 justamente a reta que corta as imedia\u00e7\u00f5es da avenida Miruna, onde tem o viaduto e o aeroporto. Pois \u00e9. N\u00e3o levem a mal n\u00e3o, mas foi ali que atuou o degas aqui. N\u00e3o sei, n\u00e3o. Mas acho que os rapazes se perderam depois que os deixei. Sempre desconfiei que o tal do Bigode era uma farsa. E o Alberto n\u00e3o ficava muito atr\u00e1s, n\u00e3o. Que me perdoe o tio J\u00falio, tio da minha m\u00e3e que eu nunca conheci&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escrevi aqui num post-cr\u00f4nica que, por um brev\u00edssimo tempo na minha vida, fui auxiliar ou ajudante de agrimensor. 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