{"id":10599,"date":"2007-05-03T00:00:00","date_gmt":"2007-05-03T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:57:31","modified_gmt":"2017-09-15T19:57:31","slug":"dois-coelhos-com-um-so-tiro","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/dois-coelhos-com-um-so-tiro\/","title":{"rendered":"Dois coelhos com um s\u00f3 tiro&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>Calma, leitores, calma&#8230;<\/p>\n<p>S\u00f3 vou tentar relatar aqui um pouco da minha trajet\u00f3ria na \u00e1rea de rep\u00f3rter de cultura, especializado (ou o melhor seria dizer, esfor\u00e7ado) em m\u00fasica popular brasileira. <\/p>\n<p>Deixa eu explicar.<\/p>\n<p>Hoje, a partir das 19h30, vou estar no curso de Jornalismo Especializado, da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o da Universidade Metodista. Eu, que sou palestrino, acumularei ent\u00e3o a fun\u00e7\u00e3o de palestrante, com muita honra, diga-se. Falarei exatamente sobre o que escrevi acima&#8230;<\/p>\n<p>Fiquei superfeliz como convite do professor Heron Vargas, coordenador do curso. Afinal, como voc\u00eas podem perceber diariamente a m\u00fasica faz parte da minha vida. Se para Gilberto Gil foi a Bahia que lhe deu r\u00e9gua e compasso, para este pobre escriba as refer\u00eancias vieram da MPB.<\/p>\n<p>Bem, mas os estudantes do p\u00f3s, assim como voc\u00eas, n\u00e3o esperam de mim s\u00f3 refer\u00eancias emocionais. Por isso, resolvi fazer, aqui, um roteiro b\u00e1sico do que vou dizer ali. Isto se na hora, l\u00e1, eu nada me lembrar do que eu c\u00e1 escrevi.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Estou meio que enrolando, n\u00e9?<\/p>\n<p>Mas \u00e9 que n\u00e3o sei por onde come\u00e7ar. Vamos ver&#8230;<\/p>\n<p>Trabalhei como rep\u00f3rter e cr\u00edtico de m\u00fasica popular brasileira por alguns muitos bons anos. Comecei em 1976 \u2013 se algu\u00e9m me chamar de dinossauro, eu levanto e vou embora&#8230; \u2013 e parei ali por volta de 1993, 1993. Em 2000, ainda fiz uma reportagem que gosto muito sobre a Era dos Festivais para o Jornal da Tarde. A Globo estava lan\u00e7ando o \u00faltimo e fracassado festival e fui incumbido pelo Odir Cunha de fazer uma retrospectiva sobre o que tais manifesta\u00e7\u00f5es representaram para os anos 60 e para a hist\u00f3ria da MPB. Escrevi duas p\u00e1ginas que, ali\u00e1s, est\u00e3o postadas aqui no \u00edcone Leia Esta Can\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Neste per\u00edodo, hora com mais assiduidade, hora com menos, escrevi para uma por\u00e7\u00e3o de jornais. Shopping News\/City News, revista Afinal, Ag\u00eancia Estado, Gazeta do Ipiranga e tantos outros. Foi uma \u00e9poca em que se abriam e fechavam jornais especializados, um atr\u00e1s do outro. Onde tinha um l\u00e1 ia eu com minhas mat\u00e9rias e a proposta de divulgar a MPB como fonte de conscientiza\u00e7\u00e3o de quem me lia.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Sim, porque nos anos 70, a ditadura grassou solta. A censura bloqueou todas possibilidades de comunica\u00e7\u00e3o e TV e r\u00e1dio deixaram de ser parceiros da linha progressista da MPB. Foi nessa \u00e9poca que as editorias de cultura desempenharam papel primordial ao dar guarida (sempre quis escrever essa palavra) aos cantores\/compositores considerados malditos pelo sistema.<\/p>\n<p>Quem eram eles? Ora os de sempre. Vandr\u00e9, Chico, Caetano, Gil, Edu Lobo, S\u00e9rgio Ricardo, oriundos dos anos 60. E os rapazes da chamada Gera\u00e7\u00e3o de Briga \u2013 Ivan Lins, Gonzaguinha, Belchior, Melodia, Walter Franco, Fagner, Novos Baianos, Carlinhos Vergueiro, Jo\u00e3o Bosco, o pessoal do Clube da Esquina, entre outros. Foram esses que \u201cinventaram\u201d o chamado circuito universit\u00e1rio para que n\u00e3o ficassem \u00e0 mingua (ah!, hoje mato a vontade de escrever palavras fora de uso) e a sua m\u00fasica n\u00e3o desaparecesse antes mesmo de chegar ao grande p\u00fablico.<\/p>\n<p>Apenas alguns nomes conseguiam \u2018furar\u2019 r\u00edgido esquema. Vin\u00edcius e Toquinho, Paulinho da Viola, Benjor e Elis Regina (que insistia em cantar os novos compositores) e Gal Costa (a porta-voz dos baianos enquanto eles estiveram no ex\u00edlio). As m\u00fasicas que a novela massificava passaram a ser tamb\u00e9m a trilha sonora das nossas vidas. Isto, para n\u00e3o falar dos sambeiros Wando e Benito di Paula.<\/p>\n<p>Era ingenuidade da gente? Pode ser. Mas tinha alguma coisa de m\u00e1gico, de encantamento. Quase digo her\u00f3ico, mas parei \u2013 seria exagero. Mas, no m\u00ednimo, a gente se sentia engajado na luta pela redemocratiza\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds, o que de alguma forma dava sentido e cor \u2013 mesmo com os jornais inteiramente em preto e branco \u2013 ao que escrev\u00edamos.  <\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>De resto, era uma rotina divertida. A cada semana, entrevistava dois, tr\u00eas, quatro at\u00e9 meia-d\u00fazia de compositores e int\u00e9rpretes. Ouv\u00edamos os discos, \u00edamos aos shows e escrev\u00edamos pra caramba. Nossa como escrev\u00edamos. Um detalhe. Como gost\u00e1vamos de escrever!!!<\/p>\n<p>O editor sempre vinha com a mesma conversa.<\/p>\n<p>&#8212; Seu texto ficou extraordin\u00e1rio. Quer dizer, extraordinariamente maior do que espa\u00e7o que deixei na p\u00e1giana. J\u00e1 sabe, n\u00e9? Corta!<\/p>\n<p>A\u00ed, despenc\u00e1vamos em argumentos e justificativas para a import\u00e2ncia daquele lan\u00e7amento. No m\u00ednimo, a hist\u00f3ria do Pa\u00eds n\u00e3o seria a mesma depois de eventos como o festival Canta Brasil em 84 ou o encontro de Chico e Caetano, rec\u00e9m-chegados do ex\u00edlio, na Bahia ou a entrevista de Elis Regina no lan\u00e7amento do hist\u00f3rico show Falso Brilhante. O Brasil da ditadura era um falso brilhante, entende?<\/p>\n<p>Como n\u00e3o dar espa\u00e7o de uma p\u00e1gina para o elep\u00ea Sinal Fechado de Chico Buarque? Ou n\u00e3o divulgar o \u00e1lbum Milagre dos Peixes, de Milton Nascimento ou o del\u00edrio sonoro de Benjor em A T\u00e1bua de Esmeralda? <\/p>\n<p>S\u00f3 se o editor fosse um tapado, mesmo&#8230;<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, eles ca\u00edam na nossa conversa. \u00c0s vezes&#8230;<\/p>\n<p>Na maioria das vezes, passavam a tesoura em nossos textos. As reda\u00e7\u00f5es t\u00eam uma hierarquia quase militar ou at\u00e9 mais r\u00edgida. Nosso consolo \u00e9 ir para o boteco e, entre os nossos, classificar os editores como&#8230; Hum, hum, n\u00e3o sei se digo&#8230;<\/p>\n<p>N\u00f3s os apelid\u00e1vamos de CENSORES&#8230; <\/p>\n<p>Mas, acho que isso n\u00e3o vou dizer aos p\u00f3s-graduandos. <\/p>\n<p>Seria mau exemplo, n\u00e9?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Calma, leitores, calma&#8230;<\/p>\n<p>S\u00f3 vou tentar relatar aqui um pouco da minha trajet\u00f3ria na \u00e1rea de rep\u00f3rter de cultura, especializado (ou o melhor seria dizer, esfor\u00e7ado) em m\u00fasica popular brasileira.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10599","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10599","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10599"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10599\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17295,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10599\/revisions\/17295"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10599"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10599"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10599"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}