{"id":10604,"date":"2007-05-08T00:00:00","date_gmt":"2007-05-08T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:57:31","modified_gmt":"2017-09-15T19:57:31","slug":"pai-90-anos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/pai-90-anos\/","title":{"rendered":"Pai, 90 anos"},"content":{"rendered":"<p>Mar\u00e7o de 1999. <\/p>\n<p>Toca o telefone \u00e0 minha direita. Demoro a atender. Espero que algu\u00e9m, um dos rep\u00f3rteres ou a Marina, respons\u00e1vel pela diagrama\u00e7\u00e3o, atenda por mim. Dois, tr\u00eas toques. Ningu\u00e9m se mexe. Resolvo atender. Por mais que me esforce, n\u00e3o consigo reconhecer a voz do outro lado da linha. Diz o nome, que n\u00e3o recordei naquele dia e tamb\u00e9m n\u00e3o recordo agora, e pergunta como as coisas est\u00e3o. <\/p>\n<p>Tento ser pr\u00e1tico.<\/p>\n<p>&#8212; Est\u00e3o bem. Est\u00e1 tudo bem.<\/p>\n<p>&#8212; Que bom!<\/p>\n<p>Neste exato instante percebo quem \u00e9. Uma mo\u00e7a esot\u00e9rica que tinha um programa esot\u00e9rico numa pequena r\u00e1dio paulistana. Lembrei no ato. Fiz uma reportagem com ela e conversamos por duas horas sobre a minha vida. Consultei o calend\u00e1rio e vi que estava pr\u00f3ximo o come\u00e7o do ano astral, que \u00e9 20 de mar\u00e7o. Pensei logo que ela queria ser pauta de uma reportagem sobre as previs\u00f5es para o novo per\u00edodo. N\u00e3o cheguei a lhe perguntar. Ela foi logo dizendo:<\/p>\n<p>&#8212; Estou ligando s\u00f3 para saber como est\u00e3o as coisas com voc\u00ea. Na sua fam\u00edlia. <\/p>\n<p>Continuei pr\u00e1tico. <\/p>\n<p>&#8212; Est\u00e3o bem. Est\u00e1 tudo bem.<\/p>\n<p>&#8212; Seu pai est\u00e1 bem?<\/p>\n<p>&#8212; Claro. Tem aqueles probleminhas de quem j\u00e1 fez safena e tem a idade que ele tem. Mas, \u00e9 compreens\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8212; Claro, claro. Mas cuide dele. <\/p>\n<p>&#8212; Claro.<\/p>\n<p>&#8212; Em agosto ele ter\u00e1 um m\u00eas dif\u00edcil.<\/p>\n<p>&#8212; Claro, claro.<\/p>\n<p>A conversa mudou de rumo, e logo desligamos. Confesso: n\u00e3o dei a menor bola para o que falamos. Deletei&#8230;<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Julho de 1999. Mesma reda\u00e7\u00e3o. Mesmo telefone. Mesma demora em atender. <\/p>\n<p>&#8212; Al\u00f4, al\u00f4. Lembra de mim?<\/p>\n<p>Lembrar, lembrar n\u00e3o lembrava. Ali\u00e1s, como sequer me recordo agora do nome da mo\u00e7a. Mas, fiquei na minha.<\/p>\n<p>&#8212; Oi&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ent\u00e3o, como seu pai est\u00e1?<\/p>\n<p>J\u00e1 vivi essa cena, pensei enquanto recuperava o bate-papo esquisito de mar\u00e7o. <\/p>\n<p>&#8212; Est\u00e1 \u00f3timo. 8 por 13 de press\u00e3o. Maravilha.<\/p>\n<p>&#8212; Que bom. Cuide dele em agosto. Vai ser muito dif\u00edcil. Muito mesmo&#8230;<\/p>\n<p>Mais alguns minutos de abobrinha e desligamos. <\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>S\u00f3 que desta vez n\u00e3o deu tempo de deletar.<\/p>\n<p>O telefone tocou novamente. Atendi \u00e0s pressas \u2013 n\u00e3o me perguntem o porqu\u00ea. Era minha m\u00e3e.<\/p>\n<p>&#8212; Seu pai, n\u00e3o est\u00e1 bem. Est\u00e1 saindo sangue do nariz e ele diz que s\u00f3 vai para o hospital com voc\u00ea. O Aldinho (meu sobrinho) est\u00e1 aqui e quer levar o cabe\u00e7a dura que n\u00e3o quer ir.<\/p>\n<p>&#8212; Fala para o pai ir com o Aldinho que eu vou depois e o trago de volta para casa.<\/p>\n<p>Foi o que aconteceu.<\/p>\n<p>Voc\u00eas podem n\u00e3o acreditar. Mas, eu deletei a recomenda\u00e7\u00e3o que a mo\u00e7a fez instantes antes. Bloqueio? Inexplic\u00e1vel. Mas, real.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Desse fim de tarde em diante, nas semanas que vieram, fomos e voltamos ao Instituto do Cora\u00e7\u00e3o umas tr\u00eas ou quatro vezes. Repet\u00edamos um ritual. O pai sentia dores no peito, cansa\u00e7o, mal-estar e l\u00e1 \u00edamos n\u00f3s. L\u00e1 prontamente atendido. Ficava em observa\u00e7\u00e3o e voltava para casa no mesmo dia. Virou uma rotina.<\/p>\n<p>Na verdade, o Velho Aldo dizia que n\u00e3o toparia fazer outra opera\u00e7\u00e3o como fizera sete anos atr\u00e1s. Temia o cateterismo que fez com que seu cora\u00e7\u00e3o parasse ainda naquela ocasi\u00e3o. Foi ressuscitado pelos m\u00e9dicos. Passou por uma opera\u00e7\u00e3o delicada. Depois tivera uma boa recupera\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>\u00c0 \u00e9poca, por ser o filho homem da fam\u00edlia, os m\u00e9dicos me chamaram e disseram:<\/p>\n<p>&#8212; O estado de seu pai inspira cuidados. \u00c9 muito delicado.<\/p>\n<p>Mas, o Velho Aldo saiu bonito e teve uma vida normal. Sempre a postos com novos e velhos amigos para tocar a vida com uma serenidade que o tempo lhe deu e os \u00e1cidos coment\u00e1rios sobre os novos tempos. Os netos e bisnetos eram sua alegria. Para mim, sempre sobrou um olhar de carinho e alguma admoesta\u00e7\u00e3o branda, silenciosa.<\/p>\n<p>&#8212; Se cuida, menino. Que tudo isso eu j\u00e1 vivi e sei como \u00e9&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 a leitura que hoje fa\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>1\u00ba de setembro de 1999. Toca o telefone ao lado da cama. Atendo e olho para o rel\u00f3gio. S\u00e3o quase seis da manh\u00e3. A voz da minha m\u00e3e \u00e9 de preocupa\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>&#8212; Seu pai passou mal a noite toda. Teimoso, n\u00e3o quis acordar voc\u00ea. Mas, \u00e9 melhor ir para o hospital.<\/p>\n<p>&#8212; To indo a\u00ed&#8230;<\/p>\n<p>Quando chego, o casal j\u00e1 est\u00e1 na porta do pr\u00e9dio. O pai ap\u00f3ia-se na m\u00e3e. Mas, diz que acha que o pior passou. Sobem no carro. A m\u00e3e no banco de tr\u00e1s, no meio, a inspecionar nossas rea\u00e7\u00f5es. E ele no banco do passageiro, em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Rumo para a via Anchieta. Ser\u00e1 mais uma rotina de medica\u00e7\u00e3o. Tenho aula \u00e0s 7h30 e certamente n\u00e3o vou poder ir. Depois aviso a secretaria da escola. O pai est\u00e1 em sil\u00eancio e parece bem. Tem um hospital no Rudge. Que tal se o levasse para l\u00e1 e&#8230; N\u00e3o, nem pensar. Ele vai falar um mont\u00e3o. Que ningu\u00e9m d\u00e1 import\u00e2ncia \u00e0s dores que ele sente. Sei bem como \u00e9. Vamos ao Instituto do Cora\u00e7\u00e3o, direto e reto&#8230; <\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Estamos na avenida Paulista, quase no fim. Prestes a entrar naquele desv\u00e3o que sai na avenida Doutor Arnaldo. O pai n\u00e3o se queixa. Olha para mim. Respira fundo. Pega na minha m\u00e3o e come\u00e7a a tremer. A cabe\u00e7a cai para o lado direito. Minha m\u00e3e pergunta o que foi. Prossigo sem responder. Entro direto na emerg\u00eancia&#8230;<\/p>\n<p>Dez minutos depois recebemos a not\u00edcia. A triste not\u00edcia.<\/p>\n<p>S\u00f3 alguns dias depois, lembro das recomenda\u00e7\u00f5es da mo\u00e7a que at\u00e9 hoje n\u00e3o consigo lembrar o nome. Me espanto. Mas, prefiro deletar&#8230;<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>Aldo Martino.<br \/>\nMeu pai hoje completaria 90 anos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mar\u00e7o de 1999. <\/p>\n<p>Toca o telefone \u00e0 minha direita. Demoro a atender. Espero que algu\u00e9m, um dos rep\u00f3rteres ou a Marina, respons\u00e1vel pela diagrama\u00e7\u00e3o, atenda por mim. 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