{"id":10606,"date":"2007-05-10T00:00:00","date_gmt":"2007-05-10T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:57:30","modified_gmt":"2017-09-15T19:57:30","slug":"impressoes-a-partir-da-visita-do-papa","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/impressoes-a-partir-da-visita-do-papa\/","title":{"rendered":"Impress\u00f5es a partir da visita do papa"},"content":{"rendered":"<p>O Brasil sempre foi considerado o maior pa\u00eds cat\u00f3lico do mundo. Talvez motivada por nossa natural tend\u00eancia ao exagero, uma d\u00favida me acompanha &#8212; e juro por todos os santos &#8212; \u00e9 inevit\u00e1vel quando ou\u00e7o essa e outras frases do tipo &quot;Deus \u00e9 brasileiro&quot;. Nessas horas, parece-me que estamos a imputar ao destino &#8212; ou melhor seria dizer, aos des\u00edgnios do Senhor &#8212; uma culpa que nos pertence, direta ou indiretamente, para os chamados desajustes sociais que ora vivenciamos. &quot;O C\u00e9u que nos proteja&#8230;&quot; \u00e9 outro dito que me deixa encafifado. Seria normal se esperar que, invocada a prote\u00e7\u00e3o divina, nada mais fosse preciso fazer sen\u00e3o esperar por novos amanh\u00e3s mais promissores. &quot;Se Deus \u00e9 por n\u00f3s, quem ser\u00e1 contra?&quot; \u00c9 o que nos basta. <\/p>\n<p>Fa\u00e7o esse pre\u00e2mbulo, que considero delicado por tratar de uma quest\u00e3o de f\u00f3rum pessoal, para falar da terceira visita do papa Jo\u00e3o Paulo II ao Brasil&#8230;<\/p>\n<p>Ops.<\/p>\n<p>N\u00e3o estranhe, caro leitor. Mas, o texto acima eu o escrevi em outubro de 1997 por ocasi\u00e3o de outra visita papal ao Brasil. Reli o texto hoje para melhor dimensionar as id\u00e9ias sobre o que sinto neste exato instante em que o papa Bento XVI fala a milhares de jovens no Est\u00e1dio do Pacaembu.  <\/p>\n<p>Resolvi post\u00e1-lo como in\u00edcio de conversa. At\u00e9 porque o achei bem atual.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Nessa minha longa estrada da vida, foram os seguintes os papas que ocuparam a Santa S\u00e9: Pio XII (minha m\u00e3e dizia que era um santo), Jo\u00e3o XXIII (de 58 a 63, tido como o papa da transi\u00e7\u00e3o), Paulo VI (de 63 a 78, foi quem primeiro viajou pelos cinco continentes), Jo\u00e3o Paulo I (morreu com um m\u00eas de papado, era chamado de o papa sorriso), Jo\u00e3o Paulo II (de 78 a 2005, o papa que era pop e grande humanista) e Bento XVI, que ora chega ao Pa\u00eds, com fama de conservador e sem o status estelar do antecessor.<\/p>\n<p>O papa era pop, lembram?<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Estudei em col\u00e9gio marista e me habituei a ver a fotografia do papa na parede das salas de aula. Fazia dupla com a imagem de S\u00e3o Marcelino Champagnat, fundador da ordem religiosa de louvor a Maria, e havia, entre eles, ao centro um crucifixo de madeira escura. Diante dessas refer\u00eancias, rez\u00e1vamos antes que as aulas come\u00e7assem e quando volt\u00e1vamos do intervalo, com direito a uma r\u00e1pida contenda futebol\u00edstica de 20 minutos \u2013 pasmem \u2013 num campo de terra batida. Era com o uniforme escolar suado e os sapatos e meias sujos que reinici\u00e1vamos as aulas. Antes, por\u00e9m, rez\u00e1vamos uma dezena do ter\u00e7o e termin\u00e1vamos, com as tradicionais jaculat\u00f3rias:<\/p>\n<p>\u201cBeato Marcelino Champagnat! Rogai por n\u00f3s\u201d.<\/p>\n<p>\u201cOh! Maria, concebida sem pecado. Rogai por n\u00f3s que recorremos a v\u00f3s\u201d.<\/p>\n<p>\u201cLouvado seja o sagrado cora\u00e7\u00e3o de Nosso Senhor Jesus Cristo. Para sempre seja louvado. Am\u00e9m!\u201d.<\/p>\n<p>Recordo-me de um gol de falta que marquei numa daquelas aguerridas porfias. N\u00e3o foi um chute muito forte. Ao contr\u00e1rio, s\u00f3 coloquei a bola no canto baixo, onde o goleiro n\u00e3o estava. Fiquei feliz pra caramba. Mas, n\u00e3o consigo recordar quando foi feita a troca dos quadros. Ou seja: sai Jo\u00e3o XXIII e entra Paulo VI. Ser\u00e1 que foi justo neste dia? Porque mesmo rezando eu s\u00f3 pensava na maravilha da trajet\u00f3ria que aquela bola fez at\u00e9 vencer o Paulo Egydio, o alem\u00e3ozinho, goleiro do outro time. Estava me sentindo onipotente. Jamais erraria um chute a gol, vida afora&#8230; <\/p>\n<p>Imagino que passei a aula toda e o resto do dia tamb\u00e9m em estado de gra\u00e7a. At\u00e9 o pr\u00f3ximo jogo pelo menos.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Em duas ocasi\u00f5es que estive em Roma, tive a oportunidade de assistir \u00e0 ben\u00e7\u00e3o do papa. \u00c9 sempre aos domingos, por volta das 11 horas. Os fi\u00e9is de diversas proced\u00eancias \u2013 e turistas, de um modo geral &#8211; se re\u00fanem em frente ao Vaticano. Estende-se sobre a janela um manto vermelho; na verdade, vinho com adornos doirados. Cria-se, ent\u00e3o, a expectativa de que o papa vai aparecer a qualquer momento. <\/p>\n<p>S\u00f3 quando ele surge na janela \u00e9 que se tem no\u00e7\u00e3o do quanto estamos distante de Sua Santidade. Distingue-se apenas um vulto de minimamente vis\u00edvel a acenar para a multid\u00e3o. A voz, por\u00e9m, sai grandiosa e n\u00edtida, ampliada por um potente sistema de som. Faz uma mensagem dominical, entremeada por ora\u00e7\u00f5es e, por fim, recebemos todos a ben\u00e7\u00e3o papal. H\u00e1 ainda uma sauda\u00e7\u00e3o feita em v\u00e1rios idiomas. <\/p>\n<p>&#8212; Saudamos&#8230; os peregrinos&#8230; de l\u00edngua portuguesa.<\/p>\n<p>Foi uma emo\u00e7\u00e3o indescrit\u00edvel quando Jo\u00e3o Paulo II convocou-nos para a ora\u00e7\u00e3o. Ouviu-se a manifesta\u00e7\u00e3o de brasileiros e portugueses ali presentes, num domingo de janeiro de 1998. Alguns grupos agitaram bandeiras. Outros abriram faixas alusivas \u00e0s suas cidades. Fiquei mesmo emocionado e o resto da viagem, me senti como o garotinho goleador, em estado de gra\u00e7a. Pensei no privil\u00e9gio de estar ali, com meus familiares e amigos. <\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Neste ano, voltei a Roma e \u00e0 pra\u00e7a de S\u00e3o Pedro. Tamb\u00e9m esperei pelo papa, numa manh\u00e3 de domingo. Antes de me posicionar para ver a apari\u00e7\u00e3o, percorremos a bas\u00edlica, o museu do Vaticano, a Capela Cistina e a cripta, onde est\u00e3o os t\u00famulos dos papas. O de Jo\u00e3o Paulo II \u00e9, de longe, o mais visitado e h\u00e1 quem diga que \u201c\u00e9 milagroso\u201d. <\/p>\n<p>De novo na pra\u00e7a, n\u00e3o demorou e Bento XVI apareceu. Falou sobre a intoler\u00e2ncia para com os imigrantes e pediu que se desse fim a esse tipo de discrimina\u00e7\u00e3o. Referia-se claramente aos pa\u00edses desenvolvidos. Imigrantes de todas as nacionalidades &#8211; principalmente, os africanos &#8211; estavam representados por diversas comitivas. Depois, como de praxe, veio a sauda\u00e7\u00e3o em diversos idiomas. E a ben\u00e7\u00e3o final.<\/p>\n<p>Sa\u00edmos da pra\u00e7a um tanto desenxabidos. N\u00e3o houve a cita\u00e7\u00e3o \u201cpara os peregrinos de l\u00edngua portuguesa\u201d. N\u00e3o dei grande import\u00e2ncia. Mas, alguns dos nossos reclamaram. Aproveitaram a deixa para lembrar \u201co fasc\u00ednio de Jo\u00e3o Paulo II\u201d. Preferi n\u00e3o me pronunciar. Confesso, por\u00e9m, que n\u00e3o senti a mesma como\u00e7\u00e3o da vez anterior. Mas,  dei l\u00e1 um desconto e confessei aos bot\u00f5es do meu sobretudo: Mudou o papa. Mas, eu tamb\u00e9m mudei. <\/p>\n<p>Sei l\u00e1 o porqu\u00ea. Mas, me senti em estado de gra\u00e7a e lembrei daquele gol de falta que fiz no mais antigo dos anos. Sorri ao rever o tanto de bolas perdidas que, depois disso, venho chutando vida afora. Mesmo assim estou vivo. E s\u00e3o e salvo e forte. Se Deus \u00e9 por n\u00f3s, quem ser\u00e1 contra?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil sempre foi considerado o maior pa\u00eds cat\u00f3lico do mundo. 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