{"id":10608,"date":"2007-05-11T00:00:00","date_gmt":"2007-05-11T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:57:30","modified_gmt":"2017-09-15T19:57:30","slug":"apartamento-do-gala","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/apartamento-do-gala\/","title":{"rendered":"Apartamento do gal\u00e3"},"content":{"rendered":"<p>Da s\u00e9rie <\/p>\n<p>ESQUECER \u00c9 PRECISO, MAS N\u00c3O \u00c9 F\u00c1CIL &#8230;<\/p>\n<p>&#8230; o dia em que o amigo Astrogildo me convenceu a ir com ele para o Rio de Janeiro. Adivinhem quem seria o nosso anfitri\u00e3o na Cidade Maravilhosa? Ningu\u00e9m menos que o ator Marcos Paulo, primo de segundo ou terceiro ou quarto grau do Astro. Ficar\u00edamos, inclusive, hospedados no apartamento do pr\u00f3prio na Lagoa.<\/p>\n<p>Janeiro de mil novecentos e setenta e quebradinhos. <\/p>\n<p>Nunca havia ido ao Rio e, imaginei, seria mam\u00e3o com a\u00e7ucar. Ter\u00edamos casa e comida, portanto s\u00f3 precisaria de uns trocos para \u201crosetar\u201d pelas praias cariocas e ajudar na gasolina para abastecer o possante Fusca 62, verde claro, do Astr\u00e3o. Um prot\u00f3tipo a enfrentar as curvas da Dutra.<\/p>\n<p>Marcamos para a semana do feriado, provavelmente 25 de janeiro, anivers\u00e1rio de S\u00e3o Paulo. Ir\u00edamos na quarta, voltar\u00edamos no domingo. N\u00e3o vi qualquer inconveniente. Mas, deveria&#8230;<\/p>\n<p>Marcos Paulo estava em alta como jovem gal\u00e3 da novela Pigmale\u00e3o 70. Namorava a M\u00e1rcia Mendes, uma apresentadora de telejornal, loura e linda. E o Astro&#8230;<\/p>\n<p>Bem o Astro era o Astro&#8230; Sempre uma surpresa \u2013 o que n\u00e3o significa dizer que era necessariamente boa. Eu era um garot\u00e3o \u2018cabeludo\u2019 e branquelo, raramente ia a praia, como poderia desconfiar? <\/p>\n<p>A id\u00e9ia me encantou. N\u00e3o tive tempo sequer de desconfiar. Outros amigos, como o Osvaldo \u2018Bod\u00e3o\u2019, o Z\u00e9 Roberto e o Formig\u00e3o, preferiram desconversar. Duvidavam do tal parentesco. Refor\u00e7avam a desconfian\u00e7a ao lembrar as dezenas de apelidos do amigo Astro. Caro\u00e7o, Le\u00e3o Marinho, Chicle, Cabe\u00e7\u00e3o, entre outros. Ou seja, o cara n\u00e3o era exatamente um gal\u00e3 e em nada lembrava o primo gal\u00e3.<\/p>\n<p>Mas, o amigo defendia-se heroicamente.<\/p>\n<p>&#8212; A m\u00e3e adotiva dele \u00e9 prima da irm\u00e3 da tia da minha m\u00e3e. Ou vice-versa.<\/p>\n<p>E refor\u00e7ava:<\/p>\n<p>&#8212; Ela convidou a gente para visit\u00e1-la, pergunta para o meu pai, pergunta, pergunta&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o perguntei ao seo Nivaldo, pai do Astro. Deveria. Quando a esmola \u00e9 muita, o santo desconfia. Principalmente quando soube, pelos jornais da \u00e9poca, que Marcos Paulo havia fraturado o f\u00eamur ao cair de uma possante moto. Viajar\u00edamos por aqueles dias. Por isso, os amigos comentaram o assunto. Gorou a viagem, pensamos. O Astro, por\u00e9m, mostrou-se indiferente.<\/p>\n<p>&#8212; Isso n\u00e3o \u00e9 nada, gente. <\/p>\n<p>Algu\u00e9m perguntou para o Astro se ele sabia o que era f\u00eamur. E que o ator deveria estar na cama, imobilizado, a inspirar uma s\u00e9rie de cuidados extras de todos.<\/p>\n<p>O Astro nem deu bola. E, confesso, eu tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>De qualquer forma, adiamos a viagem. Para quinta de manh\u00e3. Ou seja, tudo como dantes&#8230;<\/p>\n<p>Chegamos ao Rio depois de sete horas de viagem. Inesquec\u00edvel a performance do Astro como motorista, vale registrar. Ele insistia em manter o Fusca 62 na pista esquerda da via Dutra, o que impedia a ultrapassagem de outros carros. Inclusive \u2013 e principalmente \u2013 os mais possantes, como um Dodge Dart turbinado e de ronco furioso<\/p>\n<p>&#8212; Passa por cima, bonit\u00e3o \u2013 esbravejava o amigo ao mesmo tempo em que esmurrava o ar com o bra\u00e7o esquerdo para fora da janela aberta a 90 por hora, o que para o Fusca era um esc\u00e2ndalo.<\/p>\n<p>Mesmo assim, sa\u00edmos ilesos da Dutra.<\/p>\n<p>Na cidade, rodamos outro tanto at\u00e9 chegar \u00e0 Lagoa e ao pr\u00e9dio. Subimos com nossa bagagem. Dia de sol absoluto. Calor como nunca havia sentido. \u00d3bvio que n\u00e3o havia interfone, essas modernidades. Por isso, tive uma p\u00e9ssima sensa\u00e7\u00e3o quando chegamos \u00e0 porta do apartamento. Parece que acordei do torpor e ca\u00ed dentro de um pesadelo.<\/p>\n<p>Com a sutileza de um paquiderme dentro de uma loja de lou\u00e7as, o Astro tocou duas ou tr\u00eas vezes a campainha. Ainda esperamos intermin\u00e1veis minutos at\u00e9 que nos atendessem. Apareceu uma senhora, com a bolsa e as chaves nas m\u00e3os. Ficou claro que estava de sa\u00edda. Terminava de se aprontar, por isso a demora em abrir a porta.<\/p>\n<p>Quando viu o Astro, n\u00e3o se conteve:<\/p>\n<p>&#8212; Hugo, eu n\u00e3o pedi para voc\u00ea me avisar antes, bem antes, quando viesse?<\/p>\n<p>Antes de dizer que me senti o pior dos mortais, vou apertar o \u2018pause\u2019 e registrar que o nome completo do amigo era Astrogildo Hugo Tadeu Sim\u00f5es. Astro, para os amigos da rua. Hugo, para familiares e afins (caso expl\u00edcito do gal\u00e3 global e os seus). Z\u00e9, para o seu pai que assim lhe chamava, mesmo depois de lhe imputar quatro nomes. E Jos\u00e9 Carlos, quando era apresentado a uma roda de garotas na praia.<\/p>\n<p>Isto posto, voltemos \u00e0 cena. Play. <\/p>\n<p>Fiquei paralisado e imaginariamente ouvi a sonora gargalhada da turma quando soubesse da bela recep\u00e7\u00e3o. O Astro insistia em lhe chamar de tia. <\/p>\n<p>E a suposta tia s\u00f3 sabia repetir o refr\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8212; Hugo, eu n\u00e3o pedi para voc\u00ea me avisar antes, bem antes, quando viesse?<\/p>\n<p>Olhei para a lixeira, para a escadaria. Mas, n\u00e3o descartei o elevador. Que tal uma sa\u00edda estrat\u00e9gica. A primeira seria mais r\u00e1pida. Deslizaria seis andares abaixo. Uma pena que a mala n\u00e3o cabia ali. Pensei na escada&#8230; Quando ouvi a ordem da senhora quase tia do Astro.<\/p>\n<p>&#8212; E voc\u00ea, menino, larga a porta do elevador!<\/p>\n<p>Soltei de imediato e congelei. S\u00f3 voltei \u00e0 realidade quando ela passou a chave para o Astro e recomendou:<\/p>\n<p>&#8212; Seja o que Deus quiser. Vou ficar com meu filho no hospital que j\u00e1 estou atrasada&#8230;<\/p>\n<p>Consegui entrar no apartamento de m\u00f3veis r\u00fasticos \u2013 \u00e0 \u00e9poca, dizia-se que feitos pelo pr\u00f3prio ator \u2013 depois que a senhora desapareceu elevador abaixo. Mesmo assim, me movimentei com cuidado e sentei na beira da cadeira. Uma inquieta\u00e7\u00e3o derretia a minha alma e consci\u00eancia. N\u00e3o pude cont\u00ea-la e a transformei numa pergunta-resposta quase lamento.<\/p>\n<p>&#8212; Quando a gente vai embora, Astro? Amanh\u00e3, bem cedinho, n\u00e9? Odeio calor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Da s\u00e9rie <\/p>\n<p>ESQUECER \u00c9 PRECISO, MAS N\u00c3O \u00c9 F\u00c1CIL &#8230;<\/p>\n<p>&#8230; o dia em que o amigo Astrogildo me convenceu a ir com ele para o Rio de Janeiro.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10608","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10608","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10608"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10608\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17286,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10608\/revisions\/17286"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10608"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10608"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10608"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}