{"id":10609,"date":"2007-05-12T00:00:00","date_gmt":"2007-05-12T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:57:30","modified_gmt":"2017-09-15T19:57:30","slug":"apartamento-do-gala-parte-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/apartamento-do-gala-parte-2\/","title":{"rendered":"Apartamento do gal\u00e3 &#8211; Parte 2"},"content":{"rendered":"<p>Continuamos hoje com a s\u00e9rie<\/p>\n<p>ESQUECER \u00c9 PRECISO, MAS N\u00c3O \u00c9 F\u00c1CIL&#8230;<\/p>\n<p>&#8230; a resposta do amigo Astrogildo Hugo Tadeu Sim\u00f5es \u00e0 minha desolada pergunta, com a qual encerrei o post cr\u00f4nica de ontem.<\/p>\n<p>&#8212; Que \u00e9 isso? J\u00e1 que estamos aqui, vamos aproveitar.<\/p>\n<p>E partiu direto para cozinha conferir o que havia de bom na geladeira. <\/p>\n<p>&#8212; Astr\u00e3o, manera. Mal chegamos&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; S\u00f3 quero ver se tem \u00e1gua gelada. Est\u00e1 muito calor.<\/p>\n<p>Minutos depois, o Astro voltou para sala. Mastigando algum alimento.<\/p>\n<p>Preferi contemporizar. Fiz que n\u00e3o vi. Na verdade, foi essa a filosofia que adotei para os pr\u00f3ximos e imprevis\u00edveis tr\u00eas dias. Mesmo naquela tarde ensolarada, enquanto ajeitava minhas coisas, atormentava-me a voz do amigo Formig\u00e3o, um dos tantos a dizer n\u00e3o ao convite do Astro para \u201cconhecer o Rio de Janeiro\u201d. Antes da viagem, ele me alertara:<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 fria, bicho. Salta fora.<\/p>\n<p>N\u00e3o o ouvi. N\u00e3o saltei. E agora estava na fria mais acalorada da minha vida. Sem alternativa. S\u00f3 me restava contar os dias, as horas, os minutos para a volta a Sampa.<\/p>\n<p>E ainda havia o desafio da via Dutra.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>O apartamento n\u00e3o era grande. Mas, super transado. Fazia sentido aquela hist\u00f3ria de que o pr\u00f3prio Marcos Paulo havia confeccionado os m\u00f3veis. Um tom despojado e r\u00fastico caracterizava a decora\u00e7\u00e3o. Eu morava num apartamento b\u00e1sico no Ipiranga, 80 metros quadrados de \u00e1rea \u00fatil para desfrutarmos; o pai, a m\u00e3e e eu. Claro, achei aquele lugar o m\u00e1ximo.<\/p>\n<p>Talvez por isso fiz outra proposta ao Astro.<\/p>\n<p>&#8212; Sua tia est\u00e1 preocupada com o filho no hospital. Vamos ficar aqui no apartamento s\u00f3 o tempo necess\u00e1rio. Dar o menor trabalho poss\u00edvel para ela.<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea nem precisava dizer. \u00c9 isso mesmo.<\/p>\n<p>&#8212; Depois a gente precisa agradecer a hospedagem e visitar seu primo no hospital.<\/p>\n<p>&#8212; Primo? Que primo&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; O Marcos Paulo, Astro. Voc\u00ea n\u00e3o falou que ele \u00e9 seu primo sei l\u00e1 de que grau?<\/p>\n<p>&#8212; Claro, claro. Vamos, sim.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Preciso dizer que n\u00e3o fomos ver o ator no hospital?<\/p>\n<p>Mas, pareceu-me que a senhora tamb\u00e9m n\u00e3o fazia muita quest\u00e3o. A bem da verdade, foi gentil\u00edssima com a gente e, c\u00e1 para n\u00f3s, conhecia o Astro bem mais do que algu\u00e9m pudesse supor; diria, de outros carnavais. <\/p>\n<p>N\u00e3o vejo o Astro h\u00e1 tanto tempo, e que ele n\u00e3o nos leia. Mas n\u00e3o era f\u00e1cil. Carudo que s\u00f3&#8230;<\/p>\n<p>IV<\/p>\n<p>Todos os dias ela aprontava o caf\u00e9 da manh\u00e3 para gente \u2013 e se mandava (provavelmente rezando) para o hospital. N\u00f3s sa\u00edamos cedo. Volt\u00e1vamos para um banho r\u00e1pido no fim da tarde e rua. Quando retorn\u00e1vamos, ela j\u00e1 estava dormindo. E assim foi.<\/p>\n<p>Fizemos naqueles tr\u00eas dias o roteiro cl\u00e1ssico dos turistas. Conhecemos as praias. Do Leme ao Leblon. Copacabana. Ipanema. Um dia fomos \u00e0 Barra. Corcovado. Cristo Redentor. Bondinho (o Astro dava um sorriso sinistro toda vez que aquele treco balan\u00e7ava). Cinel\u00e2ndia. Centro do Rio. Lapa. Nada de grande relev\u00e2ncia. Salvo duas ou tr\u00eas observa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A primeira doeu nas pernas e nos p\u00e9s. Para economizar a grana da gasolina, us\u00e1vamos \u2013 decis\u00e3o do Astro \u2013 o carro o m\u00ednimo poss\u00edvel. O neg\u00f3cio era mesmo no p\u00e9-dois. Raramente caminhei tanto em minha vida. <\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Como conseq\u00fc\u00eancia vem o segundo destaque. Bastaram algumas poucas horas de praia para que eu ganhasse um tom de pele vermelho-melancia, de fazer inveja \u00e0 rec\u00e9m-promovida esp\u00e9cie de hortali\u00e7a. N\u00e3o sei quem me falou ou onde li uma dessas pesquisas important\u00edssimas para a hist\u00f3ria da humanidade. A melancia deixou de ser fruta para, depois de anos de estudos cient\u00edficos, ser aceita no mundo encantado das hortali\u00e7as.<\/p>\n<p>Enfim, devo ter ficado uma gra\u00e7a e absolutamente destoante da cor dos praieiros cariocas. A impress\u00e3o que tinha era de que todos admiravam a passagem deste ser vivo (?) e quase em pele viva que ora lhes escreve. Olhavam mesmo. Especialmente quando deixava escapar um coment\u00e1rio qualquer.<\/p>\n<p>&#8212; \u00d4rra meu, o Rio \u00e9 lind\u00f4\u00f4\u00f4\u00f4!!!<\/p>\n<p>Falava baixinho. Mas, todos pareciam ouvir e balan\u00e7ar a cabe\u00e7a com certo desd\u00e9m.<\/p>\n<p>Vamos ser sinceros. O Astro tamb\u00e9m estava bem arranjado de amigo.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Resumo da \u00f3pera. Dos tr\u00eas dias que t\u00ednhamos planejado ir \u00e0 praia, s\u00f3 pisei na areia no primeiro, a sexta. Nos outros dois, imposs\u00edvel. Bastava eu sentir o sol no ombro para que a ard\u00eancia me levasse a procurar a prote\u00e7\u00e3o da primeira sombra. Ir a praia de camisa, nem pensar. Quer dizer, nem pensar para mim. Porque o Astro foi. Nessas horas, pacientemente o aguardava sob a marquise de algum pr\u00e9dio, em algum boteco, ponto de \u00f4nibus coberto ou qualquer outro fiapo de sombra &#8211; vestido da cabe\u00e7a aos p\u00e9s.<\/p>\n<p>Entre um \u201cmeerrrrm\u00e3o\u201d (que ainda hoje imagino traduzir do carioqu\u00eas como \u2018meu irm\u00e3o\u2019) para c\u00e1 e outro \u201cmeuquiurido\u201d (&#8216;meu querido&#8217;, \u00f3bvio) pra l\u00e1, os minutos, as horas e os dias se passaram. <\/p>\n<p>\u00d3bvio que nenhuma \u201cgarota de Ipanema\u201d ou do Leblon ou do Leme ou de Madureira se dignou a olhar o Melancia aqui. \u00d3bvio tamb\u00e9m que as festas com os artistas globais n\u00e3o passaram de folguedos imaginosos do Astr\u00e3o. \u00d3bvio que no domingo pela manh\u00e3 quando nos despedimos, a senhora foi gentil e educada. Mas, \u00f3bvio tamb\u00e9m que se mostrava mais feliz do que o costumeiro, mesmo com o filho ainda no hospital.<\/p>\n<p>Ainda lembro a despedida. O Astro todo educado:<\/p>\n<p>&#8212; Melhoras ao Marcos Paulo, tia. D\u00ea a ele minhas condol\u00eancias.<\/p>\n<p>&#8212; Recomenda\u00e7\u00f5es, Astro. Recomenda\u00e7\u00f5es &#8212; corrigi o mais r\u00e1pido que pude.<\/p>\n<p>Acho que foi o sol que tomamos na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8212; D\u00ea a ele minhas recomenda\u00e7\u00f5es, tia &#8211; consertou ele.<\/p>\n<p>Mas, a tia n\u00e3o se comoveu, foi firme na resposta.<\/p>\n<p>&#8212; Da pr\u00f3xima vez, Astro, lembre-se: avise ANTES que vem. Avise ANTES. V\u00e3o com Deus! Boa viagem!<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>E l\u00e1 fomos n\u00f3s enfrentar a via Dutra num Fusca 62.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei o porqu\u00ea, mas hoje ao narrar essa hist\u00f3ria e acompanhando as andan\u00e7as do papa Bento XVI pelo Vale do Para\u00edba, me veio uma s\u00fabita recorda\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Por diversas vezes, em diversos trechos alternados da rodovia &#8212; em Pinda, Roseira, Guaratinguet\u00e1, Aparecida, Taubat\u00e9 e at\u00e9 em Ca\u00e7apava &#8212; vi o mesmo policial rodovi\u00e1rio fazer sinal, com as duas m\u00e3os, para o Astro maneirar na velocidade. E imediatamente o meu amigo &#8211; que n\u00e3o era de maneirar &#8211; maneirava, silenciosamente.<\/p>\n<p>Olhe que Deus me perdoe se for heresia. Pode ser o sol na cabe\u00e7a que, desde ent\u00e3o, venho tomando vida afora. Mas, preciso e vou dizer: o policial errante era muito parecido com o Santo Frei Galv\u00e3o, o primeiro santo nascido no Brasil e canonizado ontem pelo papa.<\/p>\n<p>Voc\u00eas n\u00e3o acreditam? <\/p>\n<p>Melhoraria algo se lhes lembrasse o &quot;v\u00e3o-com-Deus&quot; da senhora? E se eu lhes dissesse que passei rezando as seis horas e meia da viagem? Est\u00e1 bem, concordo, seria exagero dizer que foi milagre. <\/p>\n<p>Mas, o que voc\u00eas acham? Sinceramente&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Continuamos hoje com a s\u00e9rie<\/p>\n<p>ESQUECER \u00c9 PRECISO, MAS N\u00c3O \u00c9 F\u00c1CIL&#8230;<\/p>\n<p>&#8230; a resposta do amigo Astrogildo Hugo Tadeu Sim\u00f5es \u00e0 minha desolada pergunta, com a qual encerrei o post cr\u00f4nica de ontem.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10609","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10609","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10609"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10609\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17285,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10609\/revisions\/17285"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10609"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10609"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10609"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}