{"id":10613,"date":"2007-05-15T00:00:00","date_gmt":"2007-05-15T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:57:30","modified_gmt":"2017-09-15T19:57:30","slug":"sinatra","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/sinatra\/","title":{"rendered":"Sinatra"},"content":{"rendered":"<p>Em 15 de maio de 1998, os jornais n\u00e3o anunciaram o fim do mundo. Mas, algo pr\u00f3ximo a isso. Lembro que, um dia antes, um apresentador de TV foi taxativo: <\/p>\n<p>\u201cO s\u00e9culo XX acabou. Morreu Frank Sinatra\u201d. <\/p>\n<p>Embarquei um pouco nessas \u00e1guas nost\u00e1lgicas naquela semana. E, de resto, nesses nove anos de aus\u00eancia do mais c\u00e9lebre dos cantores de m\u00fasica popular que se tem not\u00edcia. Sempre que posso o cito como refer\u00eancia de anos, no m\u00ednimo, mais charmosos.<\/p>\n<p>Transcrevo trechos de um texto que escrevi naquela semana e que hoje retomo at\u00e9 para efeito de reflex\u00e3o.<\/p>\n<p>Diria que ando um tanto quanto nost\u00e1lgico, saudoso de mim mesmo. <\/p>\n<p>Aspas para mim:  <\/p>\n<p>I.<\/p>\n<p>\u201cSe precis\u00e1vamos de um sinal concreto de que chegou ao fim um belo ciclo da humanidade, a morte do cantor Frank Sinatra, ocorrida nesta data, n\u00e3o deixa a menor d\u00favida. J\u00e1 estamos com um p\u00e9 fincado no s\u00e9culo XXI. Convenhamos. O mundo n\u00e3o ser\u00e1 mais o mesmo sem o fascinante The Voice.\u201d<\/p>\n<p>II. <\/p>\n<p>\u201c\u00c9 certo que, com Sinatra, desapareceu todo um jeito rom\u00e2ntico e sonhador de encarar a vida e viver.\u201d<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>\u201cA bem da verdade, de algum tempo para c\u00e1, noto que o Planeta azulado j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais o mesmo. Anda pouco afeito \u00e0s sutilezas do cora\u00e7\u00e3o. Endureceu e, globalizado demais, perdeu a ternura e muito de seus priscos encantos. O infarto parece iminente. Mesmo n\u00e3o estando na casa dos 70 (que \u00e9 verdadeiramente o pessoal que viveu o jeito Sinatra de ser) entendi desde os tenros anos que, mais do que suas can\u00e7\u00f5es (primorosas quase sempre), Francis Albert Sinatra foi uma das mais representativas influ\u00eancias comportamentais durante duas d\u00e9cadas. Era o inveterado conquistador, sempre envolvido com belas mulheres (em especial com Ava Gardner), de eleg\u00e2ncia despojada (ternos de corte perfeito e o indefect\u00edvel chap\u00e9u) que os rapazes de ent\u00e3o gostavam de imitar.\u201d<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>\u201cA vida no p\u00f3s-guerra (at\u00e9 meados dos anos 60) era assim, digamos, mais previs\u00edvel, f\u00e1cil de entender ao senso do cidad\u00e3o comum. Para tudo, havia um pre\u00e7o. Um pre\u00e7o justo, diga-se. At\u00e9 entre os gangsters existia um c\u00f3digo de \u00e9tica. As pessoas prezavam se dizer de boa \u00edndole. Respeito e honra se distinguiam como palavras de ordem.\u201d <\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>\u201cAssocio as can\u00e7\u00f5es e o swing de Sinatra \u00e0 modesta S\u00e3o Paulo dos anos 50. Um cen\u00e1rio l\u00fadico e inesquec\u00edvel aos meus olhos de garoto: ruas de paralelep\u00edpedos ou ainda terra batida, bonde camar\u00e3o, namoros furtivos no escurinho do cinema, homens engravatados e de chap\u00e9u, a rivalidade eleitoral entre J\u00e2nio e Adhemar, o in\u00edcio da ind\u00fastria automobil\u00edstica, as f\u00e1bricas de tecidos, a concha ac\u00fastica do Pacaembu, o radinho Speek, as conversas de fim-de-tarde na cal\u00e7ada, os amigos do peito, a esperan\u00e7a e o sonho de construir uma vida melhor, com nosso suor e trabalho. Lembro que \u00e9ramos pobres. Mas, n\u00e3o nos faltava o p\u00e3o de cada dia, o abrigo de uma casa (por menor que fosse) e alguma roupa limpa para vestir, ainda que desbotada e com algum remendo.\u201d<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>\u201cO ser humano n\u00e3o vivia assim t\u00e3o aviltado pelas chagas da mis\u00e9ria que hoje se v\u00ea pelas ruas, sob os viadutos, nas favelas e mocambos. Tamb\u00e9m, registre-se, n\u00e3o precis\u00e1vamos de tanta tralha. Os valores mudaram. O tal progresso n\u00e3o trouxe a felicidade que almej\u00e1vamos. Fez dos ricos mais ricos. O celular e a net viraram moda. Mas, as pessoas se encontram cada vez menos. Nossas prioridades se embaralharam. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil ver uma pessoa a comprar um microondas sem ter o que comer em casa. Temos, via TV a cabo, uma janela para o mundo e sequer conversamos com quem mora ao lado. A cada esquina, a dura realidade de nossas crian\u00e7as estampa um futuro de desesperan\u00e7a e mis\u00e9ria. Quanto aos nossos pol\u00edticos e governantes, bem!, a\u00ed \u00e9 um caso \u00e0 parte. Ele se profissionalizaram, denominam-se \u201c\u00e9ticos\u201d e s\u00f3 nos reconhecem em per\u00edodos pr\u00e9-eleitorais. Pioraram consideravelmente. Mas, n\u00e3o abrem m\u00e3o do folclore e de se anunciarem acima do bem e do mal.\u201d<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>J\u00e1 sei. J\u00e1 sei. V\u00e3o me chamar de velho, ultrapassado. N\u00e3o lhes tiro a raz\u00e3o. Mas, reconhe\u00e7am. \u00c9ramos no m\u00ednimo mais elegantes, mais humanos. E sonh\u00e1vamos&#8230; Ah!, como sonh\u00e1vamos&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 15 de maio de 1998, os jornais n\u00e3o anunciaram o fim do mundo. Mas, algo pr\u00f3ximo a isso. 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