{"id":10616,"date":"2007-05-18T00:00:00","date_gmt":"2007-05-18T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:57:29","modified_gmt":"2017-09-15T19:57:29","slug":"orvieto-e-o-sr-silvano","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/orvieto-e-o-sr-silvano\/","title":{"rendered":"Orvieto e o sr. Silvano"},"content":{"rendered":"<p>Quando chegamos ao centro antigo de Orvieto, ficamos felizes. N\u00e3o pelas caracter\u00edsticas etruscas de mais esta bela comuna italiana, a uns 200 quil\u00f4metros ao norte de Roma. Era dezembro e fazia frio (3 graus), mas as ruas estreitas estavam iluminadas e repletas de gente, com um astral l\u00e1 em cima. A embalar essa sensa\u00e7\u00e3o gostosa de conviver com pessoas felizes, uma m\u00fasica sacudida, dessas que se acompanha com o estalar de dedos, sa\u00eda das caixas de som espalhadas por todos os cantos da aldeia.<\/p>\n<p>N\u00e3o precisamos de muito tempo para nos dar conta do que acontecia. Um festival de m\u00fasica maneiro. O Free Jazz de Orvieto, com a participa\u00e7\u00e3o de artistas de renome internacional. N\u00e3o que eu seja assim um entusiasta desse g\u00eanero musical, mas deu um toque alegre e descontra\u00eddo em meio aquelas constru\u00e7\u00f5es antigas e hist\u00f3ricas \u2013 acho que j\u00e1 lhes falei, em algum post-cr\u00f4nica anterior, que na It\u00e1lia tudo \u00e9 \u201chist\u00f3rico\u201d. <\/p>\n<p>\u00c9 legal observar como os italianos enchem a boca e estufam o peito ao dizer que o Duomo g\u00f3tico de Orvieto \u00e9 \u201cHIST\u00d3RICO\u201d, aquele afresco de Luca Signorelli \u00e9 \u201cHIST\u00d3RICO\u201d, a conquista do scudetto pela Internacionale \u00e9 \u201cHIST\u00d3RICO\u201d, o Coliseu&#8230; <\/p>\n<p>Bem, o Coliseu, ent\u00e3o nem se diga&#8230;<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Mas, voltemos a Orvieto.<\/p>\n<p>Encantados pelo som e de fora das apresenta\u00e7\u00f5es daquela noite (os ingressos estavam esgotados e &#8211; pasmem! &#8211; n\u00e3o havia cambistas por perto), voltamos \u00e0s alamedas assim que desabamos nossas bagagens no pequeno hotel. Seguimos meio que a esmo em busca de um bom lugar para comer. <\/p>\n<p>N\u00e3o caminhamos muito, n\u00e3o. <\/p>\n<p>At\u00e9 porque o frio e a sorte conspiraram ao nosso favor. Um restaurante bel\u00edssimo, o San Giovanni, apareceu estrategicamente iluminado por grandes holofotes, no fim de uma viela, ao lado da bela igreja em louvor ao santo hom\u00f4nimo. <\/p>\n<p>Eram pouco mais de oito da noite. Foram frugais as escolhas do almo\u00e7o no aeroporto de Roma, assim que desembarcamos. Depois fomos buscar o carro \u2013 uma perua Astra, que n\u00e3o tem similar no Brasil \u2013 na locadora e da\u00ed rodamos tr\u00eas horas e meia, com uma breve parada para o caf\u00e9. Mais o tempo de achar um hotel b\u00e1sico e nos conforme do or\u00e7amento. Agora, nossos est\u00f4magos tamb\u00e9m faziam l\u00e1 seus improvisos sonoros. <\/p>\n<p>O San Germano foi uma \u00f3tima pedida. N\u00e3o tanto pela pizza ou pelo vinho, corretos. Mas, nada al\u00e9m disso. O pre\u00e7o tamb\u00e9m, diria, revelou-se um tantinho salgado aos nossos bolsos de t\u00edmido paladar . Mas, o ambiente compensou.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>\u00d3bvio, era uma constru\u00e7\u00e3o antiga. Que preservou tra\u00e7os e impon\u00eancia dos tempos medievais. Por\u00e9m, com bom gosto e engenho, arejou o antigo com sutis pinceladas de modernidades nos m\u00f3veis, nos adere\u00e7os e, sobretudo, nos diversos n\u00edveis dos quatro andares justapostos e sem paredes centrais. Pareciam flutuar no ar, como plataformas. De tal modo que a casa toda se apresentava como ambiente \u00fanico, e acolhedor.<\/p>\n<p>Subimos para o terceiro andar. De l\u00e1 v\u00edamos o t\u00e9rreo, o primeiro e o segundo andares. Era cedo para os padr\u00f5es brasileiros \u2013 e, provavelmente, italianos tamb\u00e9m \u2013 porque n\u00e3o havia l\u00e1 grande movimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mesmo assim, numa mesa pr\u00f3xima \u00e0 nossa, uma grande fam\u00edlia comemorava ruidosamente o grande feito de um circunspeto senhor, de nome Silvano.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Como sei disso? <\/p>\n<p>Simples. Mal acab\u00e1vamos de acertar nossa conta, quando fomos abduzidos para a festan\u00e7a.  Descobriram que \u00e9ramos brasileiros e desandaram a dar &quot;vivas&quot; a Kak\u00e1, Ronaldo, Adriano, Ronaldinho e at\u00e9 ao Rodrigo Tadei. <\/p>\n<p>Juro, n\u00e3o houve como escapar. <\/p>\n<p>Viramos \u201ctutti amisci\u201d. Sem perceber e aos trancos e barrancos num idioma que improvisamos ali, na hora. Ao som de can\u00e7onetas, regada a copos de vinho.<\/p>\n<p>O motivo de tamanha festa?<\/p>\n<p>O senhor Silvano estava sendo saudado pela bel\u00edssima vit\u00f3ria em um concurso regional de contos. O pr\u00eamio, al\u00e9m da l\u00e1urea e do reconhecimento p\u00fablico, seria uma bem-vinda quantia de 15 mil euros \u2013 nada, nada, algo em torno de 40 mil reais. <\/p>\n<p>Dava para o gasto \u2013 e tamb\u00e9m para pagar aquela boca-livre com familiares, velhos e novos amigos, que \u00e9ramos n\u00f3s.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>O senhor Silvano era contido no vinho, mas n\u00e3o nas palavras. A todos que se aproximavam, fazia o relato de sua vida \u2013 em ess\u00eancia, o que entendi ser o estofo da narrativa premiada.<\/p>\n<p>Basicamente, era o seguinte.<\/p>\n<p>Na mocidade, o jovem Silvano era um portentoso atleta. Nadava, corria, praticava o c\u00e1lcio (como eles chamam o nosso futebol), competia de bicicleta (que \u00e9 um esporte top l\u00e1 para eles), mas se vangloriava mesmo de ser, ao que pude captar, \u201ccampe\u00e3o de cuspe \u00e0 dist\u00e2ncia\u201d, l\u00e1 na sua terra natal, a \u201cHIST\u00d3RICA\u201d Sardenha.<\/p>\n<p>Posso ter entendido algo errado. Mas, creio que n\u00e3o. Porque o senhor ria de dar gosto quando contava essa fa\u00e7anha e amea\u00e7ava dar mostra de como fazia na tal competi\u00e7\u00e3o mandando um brev\u00edssimo torpedo tr\u00eas andares abaixo. Os filhos, netos e parentes uivavam e aplaudiam. Mas, n\u00e3o deixavam que ele conclu\u00edsse o intento. Para al\u00edvio de todos no restaurante, especialmente os inocentes que estavam no t\u00e9rreo.<\/p>\n<p>Mas, n\u00e3o foi essa sua \u00fanica proeza.<\/p>\n<p>J\u00e1 adulto e em andan\u00e7as pela Bota, acabou presidente do sindicato de metal\u00fargicos de alguma cidadezinha na Toscana, sem nunca pegar pesado num torno ou coisa que o valha. Casou, deu jeito na vida e, agora, ao cabo de tantos anos se dizia escritor. Para comprovar, mostrou um bras\u00e3o que atestava algo que n\u00e3o captei e citou uma s\u00e9rie de t\u00edtulos de livros que escreveu \u2013 todos sobre a luta oper\u00e1ria.<\/p>\n<p>Her\u00f3i ou farsante, o certo \u00e9 que fez o conto a pedido da comiss\u00e3o organizadora \u2013 o que, de resto, j\u00e1 projetava uma certa import\u00e2ncia, at\u00e9 mesmo um discreto favoritismo. Por isso, agora todos comemoravam e como comemoravam. Inclusive o grupo de brasileiros.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>S\u00f3 no fim da noite, fiquei sabendo que era uma comemora\u00e7\u00e3o pr\u00e9via. O resultado do concurso s\u00f3 seria divulgado no dia seguinte.<\/p>\n<p>&#8212; Se o pai foi convidado, \u00e9 porque o pr\u00eamio \u00e9 dele \u2013 dizia o filho, justificando a gastan\u00e7a e a farra antecipada.<\/p>\n<p>Fomos embora com essa certeza, ali\u00e1s.<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>No dia seguinte, todos na pra\u00e7a central da cidade com suas melhores roupas e olheiras. O resultado seria divulgado \u2013 e foi. N\u00e3o deu outra. O conto do senhor Silvano ficou em pen\u00faltimo lugar. Uma coloca\u00e7\u00e3o \u201cHIST\u00d3RICA\u201d, se me permitem. <\/p>\n<p>Ficou \u00e0 frente apenas de um outro competidor que esqueceu de anexar a \u00faltima p\u00e1gina aos originais entregue \u00e0 comiss\u00e3o organizadora. <\/p>\n<p>Acontece, imaginei.<\/p>\n<p>VIII.<\/p>\n<p>Familiares e amigos, por\u00e9m, n\u00e3o pensavam assim. Estavam furiosos. <\/p>\n<p>&#8212; A\u00f4\u00f4\u00f4, Silvano, mas nem para isso voc\u00ea serve. E ainda diz se orgulhar de  ter cursado jornalismo na Universidade de Urbino, onde Dante estudou! Ma che!!! <\/p>\n<p>Achei uma tristeza. Mas, o senhor  Silvano n\u00e3o. Dizia compreender o inexplic\u00e1vel da derrota. Mas, o que fazer? Pelo menos, ontem nos divertimos a valer.  E ria de um jeito muito engra\u00e7ado, como a debochar de todos, inclusive dele mesmo. <\/p>\n<p>IX.<\/p>\n<p>Um detalhe: ele n\u00e3o tem um dente na frente. E explicou o porqu\u00ea aos &#8216;brasilianos&#8217; na noite anterior. O dentista lhe garantiu que, com o passar dos anos, os dentes andam. Ent\u00e3o, o senhor Silvano est\u00e1 esperando que os de tr\u00e1s venham para frente.<br \/>\n\u00b4<br \/>\nTrata-se, pois, de um inveterado otimista &quot;HIST\u00d3RICO&quot;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando chegamos ao centro antigo de Orvieto, ficamos felizes. N\u00e3o pelas caracter\u00edsticas etruscas de mais esta bela comuna italiana, a uns 200 quil\u00f4metros ao norte de Roma. 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