{"id":10618,"date":"2007-05-20T00:00:00","date_gmt":"2007-05-20T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:57:29","modified_gmt":"2017-09-15T19:57:29","slug":"devolteios","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/devolteios\/","title":{"rendered":"Devolteios"},"content":{"rendered":"<p>Hoje visitei a igreja de S\u00e3o Joaquim e Santa Ana. <\/p>\n<p>A igreja fica no alto da antiga Ch\u00e1cara da Gl\u00f3ria ao lado da capela de Nossa Senhora de Lourdes. Igreja e capela formam a Par\u00f3quia Nossa Senhora da Gl\u00f3ria, no bairro do Cambuci. Ali de cima, vislumbrei o p\u00e1tio do col\u00e9gio marista Nossa Senhora da Gl\u00f3ria, a rua Lavap\u00e9s (onde meus av\u00f3s moravam), o que sobrou do jardim na rua de baixo (onde morou Volpi) e parte da regi\u00e3o central de S\u00e3o Paulo. No caminho de ida, passei pelo Largo do Cambuci. Quando voltei, fiz quest\u00e3o de esticar o trajeto para rever a V\u00e1rzea do Glic\u00e9rio.<\/p>\n<p>E da\u00ed cara p\u00e1lida? &#8211; diz o leitor diante do relato.<\/p>\n<p>Da\u00ed, nada&#8230; <\/p>\n<p>Ali\u00e1s, se preferir, pode parar de ler por aqui. <\/p>\n<p>Agora, convenhamos, numa manh\u00e3 de domingo esquisito, de um tempo esquisito, num pa\u00eds cada vez mais esquisito, numa cidade maluca&#8230; Depois de um s\u00e1bado estranho, mais essa neura de blogar diariamente, al\u00e9m das traulitadas que me reserva a semana que entra&#8230;<\/p>\n<p>Convenhamos, depois de tudo isso &#8211; e n\u00e3o achando gra\u00e7a em nada, absolutamente nada &#8211;, resolvi dar uns devolteios nos rinc\u00f5es da minha inf\u00e2ncia. Na verdade, n\u00e3o foi nada planejado. Se assim fosse, seriam paradas obrigat\u00f3rias a rua Muniz de Souza (onde morei no n\u00famero 420) e o Jardim da Aclima\u00e7\u00e3o, com seu lago, \u00e1rvores e campo de futebol.<\/p>\n<p>A troco de nada, s\u00f3 por ir mesmo, fui indo, indo e acabei fondo, como dizem pela a\u00ed.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>A igreja \u00e9 a que meus pais, Aldo e Yolanda, se casaram em 1942. Tamb\u00e9m onde fiz a primeira comunh\u00e3o e me crismei no tempo do Padre Jo\u00e3o, bravo que s\u00f3 ele. A ponto de controlar quem entrava e quem sa\u00eda da igreja, mesmo em meio \u00e0 missa. Saibam, meus car\u00edssimos, naquele tempo o celebrante rezava em latim e ficava de costas para os fi\u00e9is. Mesmo assim, n\u00e3o foram poucas as vezes que interrompia os d\u00f3minuns e os oremuns por uma causa maior.<\/p>\n<p>&#8212; Onde o Zezinho pensa que vai? Volte j\u00e1 para para o seu lugar. Ou o sr. Jos\u00e9 vai saber que belo filho tem.<\/p>\n<p>Ai, de quem n\u00e3o obedecia. Acredit\u00e1vamos que ser\u00edamos excomungados. O pior era quando o pr\u00f3prio Padre Jo\u00e3o largava a cerim\u00f4nia ao meio para catar pela orelha o fuj\u00e3o e lev\u00e1-lo volta ao seu santificado lugar na igreja.<\/p>\n<p>Santa Vergonha que nos protegia da sua ira&#8230;<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Foi na capela que tive aulas de catecismo. Onde a minha turma do Grupo Escolar Oscar Thompson se preparou para a primeira comunh\u00e3o. T\u00ednhamos sete, oito, nove anos e n\u00e3o lembro de grandes pecadores entre n\u00f3s. As li\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m tir\u00e1vamos de letra. O mais dif\u00edcil mesmo era enfrentar o Padre Jo\u00e3o, frente a frente e de joelhos no confession\u00e1rio. Quaisquer &quot;respondi para minha m\u00e3e&quot; ou &quot;chutei minha irm\u00e3&quot; resultavam em dezenas e dezenas de ave-marias. Para n\u00e3o falar dos pais-nossos e gl\u00f3rias aos pais.<\/p>\n<p>Em muitas ocasi\u00f5es, as maninhas escaparam ilesas pela &quot;divina&quot; prote\u00e7\u00e3o que as altas cotas de penit\u00eancias, sacramentadas pelo Padre Jo\u00e3o, nos impunham&#8230;<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Para quem passa pela Lavap\u00e9s ou pela Justo Azambuja &#8211; e mesmo l\u00e1 de cima -, o Col\u00e9gio Nossa Senhora da Gl\u00f3ria (onde fiz admiss\u00e3o e gin\u00e1sio) continua o mesmo. A mesma fachada, os mesmos corredores. S\u00f3 que um olhar mais atento do alto da colina entrega o que mudou. Roubaram-lhe a alma. Cad\u00ea o campo de terra batida, de tantas porfias gloriosas e onde consagr\u00e1vamos vida e sonho? <\/p>\n<p>Devia prever, \u00f3bvio. A tal modernidade. <\/p>\n<p>Confesso: senti uma fincada no peito quando vi que desapareceu. Em seu lugar, assim \u00e0 dist\u00e2ncia, me pareceu que construiram um gin\u00e1sio poliesportivo e algumas quadras de society. Ou seja, hoje eles incentivam a pr\u00e1tica de esportes menores.<\/p>\n<p>Tolos, querem forjar campe\u00f5es ol\u00edmpicos? Medalhistas dessas bobagens como o Pan do Brasil? Que pecado, este sim merecia grave penit\u00eancia.<\/p>\n<p>Em que cancha jogam hoje os cl\u00e1ssicos Gl\u00f3ria vs. Arqui ou Gl\u00f3ria vs. Carmo ou Gl\u00f3ria vs. Col\u00e9gio Santista? Cl\u00e1ssico dos cl\u00e1ssicos das camisas azuis &#8212; todos os times tinham a cor azul de Maria, a do Gl\u00f3ria era com listas verticais em azul e branco. O segundo uniforme era igual ao de um certo Boca Juniors, um time desconhecido da Argentina. Inteira azul, com uma lista amarela na horizontal.  <\/p>\n<p>Fic\u00e1vamos semanas sem dormir antes desses jogos. A revanche era sempre em campo advers\u00e1rio, sob apupos da torcida contr\u00e1ria.<\/p>\n<p>Muito provavelmente n\u00e3o existem mais. <\/p>\n<p>Juventude marista, n\u00e3o sabe o que perdeu&#8230;<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 V\u00e1rzea do Glic\u00e9rio, fui mesmo s\u00f3 para matar a saudades. Os campos de futebol desapareceram h\u00e1 tempos e tamb\u00e9m h\u00e1 tempos o espa\u00e7o abriga o complexo do INSS, al\u00e9m de alguns gigantescos templos evang\u00e9licos. Tudo insinua decad\u00eancia e mis\u00e9ria. <\/p>\n<p>Mesmo assim, esfreguei os olhos para afastar um cisco desses que deixam aquela ard\u00eancia na vista, sabe qual? Pois, me foi imposs\u00edvel n\u00e3o lembrar do Huracan, time com o uniforme futebol\u00edstico mais lindo que vi na vida: camisa gren\u00e1, cal\u00e7\u00f5es pretos e meias cinzas. <\/p>\n<p>O emblema era um bal\u00e3o voador, s\u00f3 com a letra H. <\/p>\n<p>Meu cunhado, Valtinho, era lateral esquerdo do primeiro quadro e atendia pelo singelo apelido de Solado, dada \u00e0s gentilezas com que dividia a bola com os advers\u00e1rios. Por algum tempo tamb\u00e9m honrei aquele manto sagrado, mas sem fazer hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>VI<\/p>\n<p>Outra tristeza est\u00e1 o Largo do Cambuci. As lojas perderam o glamour e &#8211; imaginem &#8211; nem o Peg-Pag existe mais. Era ali diante de uma das primeiras lojas da primeira rede de supermercados do Brasil que se realizavam os autos de Natal e os com\u00edcios pol\u00edticos. Nessas noites, os bondes perdiam o hor\u00e1rio, coisa que raramente acontecia, ilhados no meio da enorme multid\u00e3o de adhemaristas ou de janistas. <\/p>\n<p>As duas turbas juntas, nunca. Era pau na certa!<\/p>\n<p>Mas, isso foi no mais antigo dos anos&#8230;<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>Terminei na Cantina 1020, ali na Bar\u00e3o de Jaguara. <\/p>\n<p>Lembro de, crian\u00e7a ainda, ficar correndo por entre as mesas enquanto o pai e os amigos tra\u00e7avam uma suculenta perna de cabrito com br\u00f3quolis. Me encantavam os quadros na parede dos times do Palestra, do Torino (a equipe toda morreu num acidente a\u00e9reo), da Azurra e dos mapas de regi\u00f5es da It\u00e1lia.<\/p>\n<p>Hoje, em meio ao almo\u00e7o e \u00e0 cantoria, me desiludi de vez. N\u00e3o pelo nhoque com brachola. Impec\u00e1vel. Mas, foi bater os olhos na parede \u00e0 procura de tais lembran\u00e7as e as reencontro, s\u00f3 que ladeadas por um poster do Santos, campe\u00e3o de 2004. Que heresia! <\/p>\n<p>Viro a cabe\u00e7a para a outro lado e a\u00ed, sim, tudo se desvanece. Tem outra novidade: um quadro do Corinthians, campe\u00e3o de qualquer coisa!!!<\/p>\n<p>\u00c9. Nem o Padre Jo\u00e3o daria jeito em tanta modernidade.<\/p>\n[Texto publicado no livro \u201cVolteios &#8211; Cr\u00f4nicas, lembran\u00e7as e devaneios&quot;]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje visitei a igreja de S\u00e3o Joaquim e Santa Ana. <\/p>\n<p>A igreja fica no alto da antiga Ch\u00e1cara da Gl\u00f3ria ao lado da capela de Nossa Senhora de Lourdes.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10618","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10618","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10618"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10618\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17276,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10618\/revisions\/17276"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10618"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10618"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10618"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}