{"id":10637,"date":"2007-06-05T00:00:00","date_gmt":"2007-06-05T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:57:27","modified_gmt":"2017-09-15T19:57:27","slug":"planeta-sonho","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/planeta-sonho\/","title":{"rendered":"Planeta Sonho"},"content":{"rendered":"<p>Foi num dia 5 de junho como hoje \u00e9. L\u00e1 no mais antigos dos anos. Se n\u00e3o me engano, era uma sexta-feira de outono. Ao contrario de hoje, n\u00e3o fazia frio. Ou fazia? Sei l\u00e1. Mas, isso pouco importa.<\/p>\n<p>Importa saber que ele a acompanhou at\u00e9 o ponto de \u00f4nibus, depois de uma dura jornada de trabalho &#8211; e era s\u00f3 e tudo o que podia fazer naquela noite. Ali\u00e1s, h\u00e1 um certo tempo andavam pr\u00f3ximos. Conversavam muito. Riam de qualquer bobagem \u2013 e falavam de seus respectivos pares sem restri\u00e7\u00e3o alguma. <\/p>\n<p>&#8212; Ontem jantei na casa da minha sogra.<\/p>\n<p>&#8212; Eu sa\u00ed com o Jorge, quer ficar noivo. Fiquei feliz.<\/p>\n<p>&#8212; Olha s\u00f3. Logo, vira uma senhora, depois mam\u00e3e.<\/p>\n<p>&#8212; Deixa de ser bobo. Trabalhe&#8230;<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Mal podiam imaginar. Embora na reparti\u00e7\u00e3o, quem os visse, logo detectava uma certa \u201celetricidade\u201d no ar.<\/p>\n<p>&#8212; Ai, ai, ai. A Fernandinha e o Bruno, sei n\u00e3o. A\u00ed tem&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Deixa de ser maldoso, Hildebrando. Os dois s\u00e3o compromissados. E voc\u00ea imaginando coisas. <\/p>\n<p>&#8212; Compromissados? Em que mundo voc\u00ea vive, Marisa?<\/p>\n<p>&#8212; Quer saber? At\u00e9 que formariam um lindo casal&#8230;<\/p>\n<p>Longe disso, os dois continuavam os seus afazeres indiferentes a todos e aos coment\u00e1rios. At\u00e9 aquele dia, a tal sexta-feira, 5 de junho. Bruno fazia o turno da manh\u00e3, at\u00e9 \u00e0s 16 horas. Fernanda pegava \u00e0s 12 horas. At\u00e9 \u00e0s 20.<\/p>\n<p>III. <\/p>\n<p>O arquiteto desceu para o almo\u00e7o. Fechou o st\u00fadio, pois todos se anteciparam a ele na corrida ao selv-service. Antes de dar o \u00faltimo giro na chave, olhou o gabinete vazio e pareceu ver a silhueta de Fernanda por entre o mobili\u00e1rio moderno, por\u00e9m simples. Brev\u00edssimos segundos que aceleraram o cora\u00e7\u00e3o do mo\u00e7o. Ele nem se deu conta e seguiu com um leve sorriso de inoc\u00eancia. <\/p>\n<p>Na rua, de cara para o sol, a ficha caiu&#8230;<\/p>\n<p>Se ele continuasse a desenvolver aquele projeto por mais alguns minutos, era muito prov\u00e1vel que Fernanda chegaria e o encontraria. Estariam a s\u00f3s. Poderiam rir e conversar \u00e0 vontade. Longe dos olhares capisciosos do Hildebrando. N\u00e3o pensou duas vezes. Deu meia volta e logo estava em frente \u00e0 prancheta. Risca daqui, esquadrinha dali. Um olho na projeto e outro na porta. <\/p>\n<p>Em v\u00e3o.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Deu uma hora \u2013 e nada da mo\u00e7a aparecer. Os colegas voltaram e estranharam a tristeza de Bruno.<\/p>\n<p>&#8212; O que foi, compadre? N\u00e3o almo\u00e7ou? <\/p>\n<p>&#8212; Quer virar \u201carquiteto padr\u00e3o\u201d, hein&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Pode ir que \u2018cobrimos\u2019 a sua&#8230;<\/p>\n<p>Bruno tentou melhorar a cara. Pensou em aceitar a proposta e ir almo\u00e7ar \u2013 o estomago roncava de fome. Mas, avaliou. Se sair agora e ela chegar, perco de estar junto dela por mais tempo.  <\/p>\n<p>&#8212; Estou sem fome. Quero terminar o projeto.<\/p>\n<p>&#8212; Ent\u00e3o, melhora a cara \u2013 provocou Hildebrando, piscando maliciosamente para Marisa.<\/p>\n<p>&#8212; Deixem de bobagem. Sabem que fico ansioso quando est\u00e1 terminando o prazo para entregar um projeto.<\/p>\n<p>A bem da verdade, todos os tra\u00e7os de Bruno nas \u00faltimas horas eram feitos \u00e0 margem da planta. Riscara ene vezes, de ene formas o nome de Fernanda. Olhar aquela rabisqueira foi a revela\u00e7\u00e3o \u2013 estava apaixonado. Irremediavelmente apaixonado. <\/p>\n<p>Simples e complicado. <\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Deu-se conta que acabara de por o p\u00e9 em outra dimens\u00e3o, em outro planeta. Um tal de Planeta Sonho. Mesmo com seus quase 30 anos e tantas viv\u00eancias, surpreendeu-se era um mundo absolutamente desconhecido. Encantado e amea\u00e7ador. <\/p>\n<p>Como num filme de fic\u00e7\u00e3o, abriu-se um arco-\u00edris no c\u00e9u da sua imagina\u00e7\u00e3o. Que logo se espalhou em cores por um caminho sinuoso e sem fim. O est\u00f4mago vazio, a percep\u00e7\u00e3o do novo, o cora\u00e7\u00e3o na m\u00e3o. Um misto de alegria e medo. Um zoom na sua cabe\u00e7a, e a vista escureceu. Sentiu uma tontura. A sensa\u00e7\u00e3o de que flutuava e flutuava e flutuava&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Bom dia, Bruno. Tudo bem? Me atrasei, n\u00e9, gente&#8230;<\/p>\n<p>Era a voz de Fernanda, mais melodiosa do que nunca. <\/p>\n<p>Nunca antes, Bruno sentiu tamanha felicidade ao responder um simples \u201cbom dia\u201d. Olhar para Fernanda s\u00f3 comprovou a doce realidade. \u00c0s suas lapiseiras importadas, confessou: <\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 a mulher da minha vida. <\/p>\n<p>Simples e complicado.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Como sempre acontece em tais ocasi\u00f5es, as mulheres mostram-se mais seguras. Mais perceptivas tamb\u00e9m. Bastou olhar para Bruno e perceber que ele estava diferente. Engra\u00e7ado, ela tamb\u00e9m se sentiu diferente. N\u00e3o precisou de mais do que alguns segundos para entender. S\u00f3 o tempo de enxergar seu nome escrito de mil maneiras nas folhas na mesa do mo\u00e7o.<\/p>\n<p>Gostou de se sentir \u201cgostada\u201d. Que mulher n\u00e3o gosta?<\/p>\n<p>Por que n\u00e3o? \u2013 perguntou a si pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Como se nada tivesse acontecido, foi para o seu canto \u2013 e n\u00e3o deu a menor bandeira. Lembrou do futuro doutor Jorge, um m\u00e9dico promissor. O noivado anunciado. Os amigos comuns. Talvez fosse s\u00f3 uma alucina\u00e7\u00e3o. Um impulso. Melhor deixar pra l\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>At\u00e9 que deixaria se n\u00e3o fosse a tal predestina\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEra junho, dia 5 &#8211; e estava escrito.<\/p>\n<p>Simples e complicado. <\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>&#8212; Bruno, o projeto est\u00e1 pronto?<\/p>\n<p>Vociferou o chef\u00e3o com caras de poucos amigos. <\/p>\n<p>&#8212; Precisa estar pronto hoje. Amanh\u00e3 pela manh\u00e3, tenho uma reuni\u00e3o com o cliente. Se precisar de ajuda, chame a Fernanda &#8211; o que ela est\u00e1 fazendo pode esperar. Voc\u00ea, n\u00e3o.<\/p>\n<p>Se \u00e9 que me entendem, o bravo homem n\u00e3o precisou falar duas vezes. Foi s\u00f3 um jogo de palavras. A aben\u00e7oada m\u00e3o do destino. Os dois olharam-se c\u00famplices e foram conversar na sala de reuni\u00e3o. Tra\u00e7ar os pr\u00f3ximos passos do projeto &#8211; e da vida. O que era para levar cinco ou dez minutos levou meia hora. S\u00f3 n\u00e3o levou mais porque o velho Hilde foi se oferecer para qualquer eventualidade, com o sorriso maroto dos inconvenientes.<\/p>\n<p>Simples e complicado.<\/p>\n<p>VIII.<\/p>\n<p>De volta, puseram-se a trabalhar entre olhares e sorrisos. Diria at\u00e9 que a cidade nunca teve um pr\u00e9dio de linhas t\u00e3o inspiradas. Foi uma tarde\/noite inesquec\u00edvel. Terminaram pouco depois das 22 horas, com o escrit\u00f3rio vazio e mais nenhuma d\u00favida.<\/p>\n<p>Quer dizer, ainda pairava a sombra dos respectivos, j\u00e1 n\u00e3o t\u00e3o respectivos assim&#8230;<\/p>\n<p>Simples e complicado.<\/p>\n<p>IX.<\/p>\n<p>Bruno ofereceu carona. Mam\u00e3o com a\u00e7\u00facar, pensou. Melhor imposs\u00edvel. <\/p>\n<p>Imposs\u00edvel mesmo! <\/p>\n<p>Lembrou que estava sem carro, justo naquele dia. Emprestou o dito-cujo para a respectiva. Desculpou-se. Mas, n\u00e3o se perdoou. Percebeu que Fernanda ficou um tantinho decepcionada. Tentou contornar a situa\u00e7\u00e3o e fez o melhor que p\u00f4de: acompanhou-a at\u00e9 o ponto do \u00f4nibus.<\/p>\n<p>Caminharam calados. Apenas, se olhavam. Ele tentou falar. N\u00e3o conseguia articular frase com frase.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o sei, est\u00e1 acontecendo algo comigo. Eu queria que voc\u00ea soubesse.<\/p>\n<p>Ela adorou deix\u00e1-lo sem jeito.<\/p>\n<p>&#8212; Meu \u00f4nibus vem vindo.<\/p>\n<p>Ele tremeu na base. Iria perd\u00ea-la, como se nada houvesse acontecido. Insistiu.<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 que eu estou&#8230;<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o deixou que terminasse a frase. Deu um beijo mais demorado em seu rosto. As m\u00e3os se entrela\u00e7aram. Um sorriso, um sussurro.<\/p>\n<p>&#8212; Eu tamb\u00e9m, bobo. <\/p>\n<p>Ele acompanhou com os olhos o desaparecer do ve\u00edculo na escurid\u00e3o da sexta-feira, dia 5, do mais antigo dos anos. No tempo em que o amor transformava o mundo num tal de Planeta Sonho.<\/p>\n[Texto publicado no livro \u201cVolteios &#8211;  Cr\u00f4nicas, lembran\u00e7as e devaneios\u201d]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi num dia 5 de junho como hoje \u00e9. L\u00e1 no mais antigos dos anos. Se n\u00e3o me engano, era uma sexta-feira de outono. 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