{"id":10641,"date":"2007-06-09T00:00:00","date_gmt":"2007-06-09T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:57:26","modified_gmt":"2017-09-15T19:57:26","slug":"dez-anos-depois-3","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/dez-anos-depois-3\/","title":{"rendered":"Dez anos depois&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>Foi mesmo para mim uma noite inesquec\u00edvel, aquela&#8230;<\/p>\n<p>&#8230; 9 de junho de 1997.<\/p>\n<p>O Museu do Ipiranga todo iluminado. Centenas de pessoas \u2013 algo em torno de 300, pouco mais, pouco menos \u2013 reunidas no sal\u00e3o nobre, e um camarada de terno de linho, beje e camisa azul l\u00e1 no fundo, atr\u00e1s de uma mesa a autografar o primeiro livro. Primeiro e at\u00e9 aqui \u00fanico, acrescento com um tanto de tristeza e uma boa por\u00e7\u00e3o de decep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu era o cara.<\/p>\n<p>O livro era (e ainda \u00e9, pois tem alguns perdidos pela a\u00ed e uns 20 aqui na estante de casa): \u00c0s Margens Pl\u00e1cidas do Ipiranga, uma colet\u00e2nea de 50 cr\u00f4nicas, artigos e reportagens que escrevi em 20 anos de jornalismo. Entendam: o livro estava planejado desde 1994, mas s\u00f3 saiu mesmo tr\u00eas anos depois.<\/p>\n<p>Mas, relembro que foi important\u00edssimo para mim. Ganhei um perfil na \u00faltima p\u00e1gina do Jornal da USP, escrito pela minha amiga Leila Kiyomura (leia em Uns e Outros, \u201cUm jornalista \u00e0s margens do Ipiranga\u201d \u2013 09\/06\/97) e outras tantas linhas em diversas publica\u00e7\u00f5es. Depois sa\u00ed, cidade afora, a dar palestra e vender o livro onde e quando me chamassem. De clubes de servi\u00e7os a universidades. De feira de artesanato a livrarias alternativas. Contei com a ajuda inestim\u00e1vel de bons amigos que foram fundamentais para que a pilha de livros se transformasse nesse punhado que hoje guardo com desvelo.<\/p>\n<p>N\u00e3o sabia. Mas, h\u00e1 uma pol\u00edtica entre livrarias e editoras (onde n\u00e3o h\u00e1 no Brasil?) e n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil emplacar um t\u00edtulo, digamos, alternativo. Devem ter l\u00e1 suas raz\u00f5es. <\/p>\n<p>De qualquer forma, entendo como uma bela aventura. Ainda n\u00e3o dava aulas, e acredito que esse p\u00e9riplo me preparou para, ano seguinte, chegar \u00e0 Universidade Metodista. E buscar novos rumos para o meu sagrado of\u00edcio de enfileirar letrinhas.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Para comemorar a data, pensei em fazer uma colet\u00e2nea de frases legais que est\u00e3o no livro \u2013 que, como sabem, est\u00e1 postado no site, com \u00edcone na barra \u00e0 direita. Havia at\u00e9 separado alguns trechos. No entanto, me deparei com um texto que escrevi em 26 de mar\u00e7o de 1993, \u00e0s v\u00e9speras do plebiscito que referendou o presidencialismo no Pa\u00eds. <\/p>\n<p>Entendo como uma das minhas melhores reportagens, perdoem-me a imod\u00e9stia. Vou replic\u00e1-lo aqui, por considera-lo oportuno. E conclusivo: este Pa\u00eds precisa mudar!<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>O Plebiscito<\/p>\n<p>(Ele n\u00e3o respondeu a \u00fanica pergunta que lhe fiz)<\/p>\n<p>\u201cOlhe, amig\u00e3o, j\u00e1 acreditei demais nos homens e nas mudan\u00e7as que anunciavam. Agora ando descrente. Tamb\u00e9m pudera&#8230; Diziam que o Brasil seria outro. Tinham discurso e solu\u00e7\u00e3o para os males de nossa gente. Eram pessoas letradas. Haviam lutado contra a ditadura. Foram presas, torturadas. Exiladas. Lembravam dois companheiros mortos, desaparecidos. Tudo por um ideal&#8230;<\/p>\n<p>\u201cContavam barbaridades. Para mim, eram her\u00f3is \u2013 desses que a televis\u00e3o n\u00e3o mostra mais. Quanta coragem! Abrir m\u00e3o da pr\u00f3pria vida, correr riscos, afastar-se da fam\u00edlia. Tudo por um ideal. Me convenceram. O dia em que a gente pudesse votar para presidente salvar\u00edamos o Brasil do caos, da desordem, da mis\u00e9ria&#8230;<\/p>\n<p>\u201cHoje sei que n\u00e3o \u00e9 bem assim. Mas, ainda creio. Ali\u00e1s, \u00e9 uma das poucas convic\u00e7\u00f5es que tenho. Ningu\u00e9m melhor do que o pov\u00e3o para decidir o destino do nosso Pa\u00eds. J\u00e1 sei, j\u00e1 sei&#8230;Vai dizer que nossas duas \u00faltimas experi\u00eancias foram de-sas-tro-sas. J\u00e2nio e Collor&#8230; Argh! Um n\u00e3o ag\u00fcentou o tranco da Presid\u00eancia, o outro foi literalmente despejado do Poder. Aprendemos a li\u00e7\u00e3o, amarga, li\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u201cSabe, irm\u00e3ozinho, o que aprendi nesses todos \u00e9 simples. As coisas n\u00e3o se resolvem assim, no vapt-vupt. A gente tem que construir uma vida melhor para todo mundo. \u00c9 processo democr\u00e1tico. H\u00e1 que se estar atento. Devemos lutar por nossos direitos. Cobrar trabalho e honestidade dos homens que est\u00e3o no Poder, especialmente daquele que elegemos, que transformamos em nossos representantes, seja no Legislativo, seja no Executivo&#8230;<\/p>\n<p>\u201cMo\u00e7o, olha o vexame. O que Collor, PC &amp; Cia nos fizeram n\u00e3o tem perd\u00e3o. Sei l\u00e1 de quantos anos, d\u00e9cadas, vamos precisar para nos recuperar dos estragos. O Pa\u00eds j\u00e1 n\u00e3o andava l\u00e1 essas coisas com a turma do Sarney. Mas, esse grupo de Alagoas detonou de vez. Ainda hoje nos surpreendem \u2013 negativamente \u2013 com cada hist\u00f3ria cabeluda. Tamb\u00e9m quem tem um irm\u00e3ozinho daquele, convenhamos, n\u00e3o precisa de inimigos&#8230;<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o foi f\u00e1cil. Mas, o povo, soberano, como raras vezes em nossa Hist\u00f3ria, conseguiu arranca-los de l\u00e1. Com tudo, \u00e9 bom que se ressalte: nossa tarefa n\u00e3o terminou. Cadeia neles, gente! Parece que nossas autoridades est\u00e3o vacilando O que est\u00e3o esperando? Querem provar mais o qu\u00ea? Justi\u00e7a seja feita, pois. Cadeia neles! O exemplo de v\u00ea-los presos seria \u00f3timo para intimidar outros tantos da mesma laia&#8230;<\/p>\n<p>\u201cA imprensa n\u00e3o cansa de publicar artigos sobre a vida de regalias que continuam levando. Jantares, churrascadas, reuni\u00f5es \u00edntimas, viagens, mans\u00e3o no Morumbi, incurs\u00f5es \u00e0s sofisticadas praias do nordeste&#8230; Vivem como verdadeiros nababos. Chega a ser uma afronta a n\u00f3s, pobres mortais. Quanta impunidade! Se a gente n\u00e3o montar guarda, n\u00e3o cobrar puni\u00e7\u00e3o para a gang, quando menos se espera, est\u00e3o a\u00ed de volta. E ainda posando de v\u00edtimas&#8230;<\/p>\n<p>\u201c Enquanto isso, n\u00e3o tem refresco para n\u00f3s. Continuamos a merc\u00ea da pr\u00f3pria sorte, desamparados Infla\u00e7\u00e3o, sal\u00e1rios defasados, milhares e milhares sem teto, sem ter o que comer, atendimento m\u00e9dico prec\u00e1rio, a amea\u00e7a de c\u00f3lera,  viol\u00eancia urbana&#8230; \u00c9 o aparttheid \u00e0 brasileira. A que ponto chegamos&#8230;<\/p>\n<p>\u201cOs fatos est\u00e3o a\u00ed. S\u00f3 n\u00e3o v\u00ea quem n\u00e3o quer. A diferen\u00e7a social \u00e9 muito grande. Grassa pelos quatro cantos do Brasil. Infelizmente&#8230; A mis\u00e9ria \u00e9 brutal. Poucos t\u00eam muito. E, ironia, fazem fila para comprar um carro importado de 300 mil d\u00f3lares. A maioria absoluta n\u00e3o tem sequer o essencial. Grave, muito grave: n\u00e3o h\u00e1 expectativa de que algo v\u00e1 melhorar. Da\u00ed vem o quadro de horror, de guerrilha urbana sem posi\u00e7\u00f5es definidas, que estamos vivendo. J\u00e1 n\u00e3o se pode parar num cruzamento sem que se esteja correndo perigo de vida&#8230; <\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o sou de generalizar, Sei que h\u00e1 exce\u00e7\u00f5es.Mas quero falar do jeito que vou falar. Os pol\u00edticos e governantes dizem uma coisa em p\u00fablico e, \u00e0s sombras, agem em benef\u00edcio pr\u00f3prio. Essa impunidade n\u00e3o pode continuar assim \u2013 livre, leve e solta. E esse disparate social tem de acabar. Todo brasileiro deve obrigatoriamente ter o m\u00ednimo para viver com dignidade. Casa, comida, assist\u00eancia m\u00e9dica, um sal\u00e1rio justo, educa\u00e7\u00e3o&#8230; Se n\u00e3o for assim, vamos viver sempre nessa montanha russa. S\u00f3 que subindo cada vez menos e afundando mais e mais.\u201d<\/p>\n<p>E mais o homem n\u00e3o disse porque tudo j\u00e1 dissera. Despediu-se com um sorriso.Falou algo a respeito de esperan\u00e7a em dias melhores. Olhou atentamente para o carro da reportagem. Avaliou que seria personagem da pr\u00f3xima edi\u00e7\u00e3o, mesmo n\u00e3o respondendo a \u00fanica pergunta que lhe fiz:<\/p>\n<p>&#8212; O que o senhor acha do plebiscito de 21 de abril?<\/p>\n<p>Gazeta do Ipiranga \u2013 26.03.1993 &#8211;<br \/>\n* Quem est\u00e1 comigo na foto \u00e9 a Ana Elisa,<br \/>\n   que estudou comigo na ECA\/USP<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi mesmo para mim uma noite inesquec\u00edvel, aquela&#8230;<\/p>\n<p>&#8230; 9 de junho de 1997.<\/p>\n<p>O Museu do Ipiranga todo iluminado. 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