{"id":10642,"date":"2007-06-10T00:00:00","date_gmt":"2007-06-10T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:57:26","modified_gmt":"2017-09-15T19:57:26","slug":"maria","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/maria\/","title":{"rendered":"Maria"},"content":{"rendered":"<p>Todas as mulheres deveriam se chamar Maria. \u00c9 o que eu penso. Maria de Lourdes, Maria de F\u00e1tima, Maria do Carmo, Maria Concei\u00e7\u00e3o. Quer dizer, poderiam ir al\u00e9m das refer\u00eancias \u00e0s prov\u00e1veis apari\u00e7\u00f5es, ben\u00e7\u00e3os e santifica\u00e7\u00e3o de Nossa Senhora. Seriam ent\u00e3o Maria Carolina, Maria Antonieta, Maria In\u00eas. Ou ainda poderiam inverter nome e prenome, como T\u00e2nia Maria, Rosa Maria, Amanda Maria, Ana Maria. Poderiam at\u00e9 se chamar duas vezes Maria. Assim, Maria Maria. <\/p>\n<p>Enfim, j\u00e1 me daria por feliz se fosse uma \u00fanica Maria. Simplesmente Maria&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o sei o porqu\u00ea. Mas acordei com essa id\u00e9ia \u2018mariana\u2019 a batucar em minha cabe\u00e7a. Veio talvez da noite mal dormida ou de algum trecho dos livros que ontem, em v\u00e3o, tentei ler. N\u00e3o consegui concentrar minha aten\u00e7\u00e3o em nada al\u00e9m de cinco linhas. Jornais e revistas tamb\u00e9m n\u00e3o me apeteceram \u2013 e hoje franzi a testa quando os vi chegar. Tanto as revistas de informa\u00e7\u00e3o em suas novas edi\u00e7\u00f5es como os baitas suplementos de domingo dos jornal\u00f5es. Eu os recolhi da portaria, como manda o politicamente correto, mas os deixei no hall de entrada.<\/p>\n<p>T\u00e3o cedo n\u00e3o passo por ali.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Talvez por isso me veio essa indesculp\u00e1vel falta de assunto. A bem da verdade, de algum tempo, trago escondida essa vontade de escrever sobre esse tema que, em \u00faltima an\u00e1lise, atinge a todas as mulheres \u2013 e especialmente a uma. <\/p>\n<p>Ser\u00e1?<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o sei. Mas, imagino que pode ser assim. Faz parte do of\u00edcio de escrever. \u00c9 natural de quem l\u00ea. Ou n\u00e3o? Deixe-me explicar. Ou pelo menos tentar, pois acabo de reler o par\u00e1grafo e ficou vaga a id\u00e9ia que quero passar.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Quem escreve imagina estar falando com todo mundo. Mas, enquanto digita palavra ap\u00f3s palavra, id\u00e9ia ap\u00f3s id\u00e9ia, vai focar uma s\u00f3 realidade, um s\u00f3 assunto, como se tivesse um \u00fanico interlocutor. Assim d\u00e1 coer\u00eancia \u00e0 conversa. D\u00e1 sentido ao que escreve.<\/p>\n<p>Ao menos, comigo acontece isso \u2013 apesar de que raras vezes dou algum sentido ao que escrevo.<\/p>\n<p>Quem l\u00ea faz o caminho inverso. Prop\u00f5e-se a se inteirar do que \u00e9 de interesse comum. Por\u00e9m, se o texto o seduzir, envolve-se pela narrativa e logo se v\u00ea como parte da hist\u00f3ria. D\u00e1 pitacos, faz analogias, discute o pr\u00f3prio dia-a-dia. Pode rever opini\u00f5es ou referendar ideais, contra ou favor ao que divaga o autor.<\/p>\n<p>N\u00e3o vou dar exemplos. Quero voltar a falar de Maria&#8230;<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Acho que j\u00e1 lhes contei que tive uma noite insone. Outra daquelas. Minha cabe\u00e7a latejava e resolvi sair da cama. Fui, feito son\u00e2mbulo, para a sacada do apartamento, olhar a cidade que \u2013 em tese \u2013 dormia. Engra\u00e7ado, gosto dessa sensa\u00e7\u00e3o. Da silhueta dos pr\u00e9dios ao redor, do colar de luzes esmaecidas, do movimento esparso de ve\u00edculos. Da noite que traz certa magia, principalmente se n\u00e3o precisamos acordar cedo para trabalhar na manh\u00e3 seguinte.<\/p>\n<p>Foi por esses labirintos que me enredei nos becos da minha imagina\u00e7\u00e3o. Revivi ou delirei a cena de um encontro casual que me fez rir e trouxe uma certa sensa\u00e7\u00e3o prazerosa. Mesmo que nada parecesse real&#8230;<\/p>\n<p>Vou tentar descrev\u00ea-lo&#8230;<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Numa clara manh\u00e3 do passado ou do futuro que se fazia presente, eu seguia pela sinuosa Ladeira do Porvir. Ia leve e solto a ouvir, no r\u00e1dio do carro, os blues do Djavan. N\u00e3o pensava em nada propriamente. Apenas acompanhava o que o poeta dizia&#8230;<\/p>\n<p>E ele diz cada coisa. Versos bonitos. Parecem feitos sob medida para algu\u00e9m muito, muito especial.  Ali\u00e1s, uma caracter\u00edstica de todas suas can\u00e7\u00f5es. S\u00f3 pode ser. T\u00e3o claras as imagens que os versos sugeriam. Mas, tamb\u00e9m falava para todos que poderiam estar vivendo ou viveram ou certamente viver\u00e3o aquela situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o sou l\u00e1 de dirigir. N\u00e3o me apraz. Por\u00e9m, naquele instante, quando embiquei na Alameda dos Sonhos, me sentia confort\u00e1vel ao volante de um carro antigo, que n\u00e3o era o meu. Mas, me deixava com ares de O Grande Gatsby \u2013 belo romance, que Robert Redford levou \u00e0s telas do cinema.<\/p>\n<p>Vejam a minha pretens\u00e3o. Djavan, Redford e eu&#8230;<\/p>\n<p>S\u00f3 falta Maria.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Vamos em frente. Custa nada um pouco de fantasia em nossas vidas. Ainda mais numa madrugada de s\u00e1bado para domingo, com um feriad\u00e3o de permeio e a nos espreitar uma segunda feroz.<\/p>\n<p>A m\u00fasica, o carro convers\u00edvel e a alameda que se abria iluminada \u00e0 minha frente. Cen\u00e1rio perfeito para que Maria aparecesse. <\/p>\n<p>Olho pelo retrovisor, fra\u00e7\u00e3o de segundos, e ei-la quem surge ao volante de um jatom\u00f3vel futurista. Vem logo atr\u00e1s de mim. Fico na d\u00favida, e custo acreditar. De onde saiu? H\u00e1 tanto que aguardo not\u00edcias? Ser\u00e1 miragem?<\/p>\n<p>Estou djavaneando. S\u00f3 pode&#8230; Quem \u00e9 essa tal Maria que chega nesta manh\u00e3, como se nada soubesse, mas tudo entendesse de mim?<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>Tive que ser en\u00e9rgico comigo mesmo. Pois mesmo no Reino dos Encantos temos que respeitar as leis de tr\u00e2nsito e a necess\u00e1ria sinaliza\u00e7\u00e3o. O carrinho estava sem rumo e o motorista, um sonso, sem controle&#8230; <\/p>\n<p>&#8212; Quer prestar aten\u00e7\u00e3o no que est\u00e1 fazendo \u2013 disse para mim mesmo.<\/p>\n<p>Obediente, toquei o carro para a pista da direita. A dos quietos e dos pacatos. <\/p>\n<p>Aprendi na estrada da vida.<br \/>\nEvitar acidentes \u00e9 dever de todos.<\/p>\n<p>VIII.<\/p>\n<p>Foi exatamente nesse instante que chispou um raio prateado \u00e0 minha esquerda. S\u00f3 vi o clar\u00e3o. Pareceu uma espa\u00e7onave, voando baixo, rumo ao Sem Rumo, onde tudo \u00e9 poss\u00edvel, desde que seja Maria&#8230;<\/p>\n<p>Olhei de novo pelo retrovisor. N\u00e3o vi mais ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>\u00c0 minha frente, sim. Da nave, que segue c\u00e9lere, um bra\u00e7o me acena e d\u00e1 adeus. Parece ser algu\u00e9m que me conhece e que andou bem perto de mim. T\u00e3o perto&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 como alcan\u00e7\u00e1-la. Mas como esquec\u00ea-la?<\/p>\n<p>At\u00e9 parece que tive um sonho bom dentro de um sono reparador no sof\u00e1 da sala.<\/p>\n<p>IX.<\/p>\n<p>Foi isso &#8211; ou quase.<\/p>\n<p>Desperto com o corpo doendo, mas de alma lavada e enxaguada em bons press\u00e1gios. Para mim e para voc\u00ea. Porque sei que seu nome \u00e9&#8230; <\/p>\n<p>Guardarei esse segredo, Maria.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, de algum modo, todas as mulheres mereceriam ser chamadas de Maria \u2013 pois, s\u00e3o elas que d\u00e3o sentido ao sonho e \u00e0 vida. Ou para que ent\u00e3o existiriam o poeta e a poesia?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todas as mulheres deveriam se chamar Maria. \u00c9 o que eu penso. Maria de Lourdes, Maria de F\u00e1tima, Maria do Carmo, Maria Concei\u00e7\u00e3o. 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