{"id":10648,"date":"2007-06-16T00:00:00","date_gmt":"2007-06-16T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:57:25","modified_gmt":"2017-09-15T19:57:25","slug":"olhar-estrangeiro","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/olhar-estrangeiro\/","title":{"rendered":"Olhar estrangeiro"},"content":{"rendered":"<p>Fran\u00e7a, 2003.<br \/>\n30 de dezembro.<br \/>\nMadrugada em Alenson,<br \/>\nmin\u00fascula cidade na<br \/>\nregi\u00e3o da Normandia.<\/p>\n<p>Como vim parar aqui? <\/p>\n<p>Acordo com o calor do quarto aquecido. N\u00e3o imagino quantos graus est\u00e1 a temperatura l\u00e1 fora. Mas certamente est\u00e1 frio; sem neve, mas muito frio. Mesmo assim, aqui dentro, a blusa de l\u00e3 me incomoda \u2013 e abro m\u00e3o dela para voltar para a cama antiga deste antigo quarto de um hotel antigo.<\/p>\n<p>Estamos a 200 quil\u00f4metros de Paris, onde chagaremos muito provavelmente amanh\u00e3 para as festas do fim-de-ano. Obviamente que ficaremos, como bons turistas, a perambular entre a Champs \u00c9lys\u00e9es e a Tour Eiffel. Imagino a Babel em que se transforma aquele peda\u00e7o de mundo neste per\u00edodo do ano.<\/p>\n<p>Deixemos para amanh\u00e3 o que \u00e9 do amanh\u00e3&#8230;<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi s\u00f3 o calor do quarto que me fez despertar em meio \u00e0 madrugada. Quase duas da manh\u00e3 e me surpreendo sem sono quando deveria estar dormindo para a dura \u2013 e deliciosa \u2013 jornada que nos espera nos pr\u00f3ximos dias. <\/p>\n<p>Voc\u00eas vir\u00e3o comigo nesse tour?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, voltemos \u00e0s minhas inquieta\u00e7\u00f5es. A primeira \u2013 e mais \u00f3bvia \u2013 \u00e9 o controle do dinheiro. Com o euro a quatro reais \u00e9 mesmo de tirar o f\u00f4lego e arrebentar a banca deste malajambrado escriba andarilho.<\/p>\n<p>Outro motivo \u2013 e talvez a d\u00edvida maior para comigo mesmo \u2013 \u00e9 minha aus\u00eancia deste bloco de anota\u00e7\u00f5es por dois longos dias seguidos, 28 e 29. N\u00e3o sei se no futuro essas impress\u00f5es ter\u00e3o forma de texto, mas quando comecei a imaginar essa \u2018aventura\u2019  me comprometi a fazer um relato dos meus passos. Assim que chegamos em Zurique (dia 26) tratei de anotar tim-tim por tim-tim (leia em \u201cTeimosia \u2013 Blog, 22\/04\/07) nossa chegada \u2013 e foi s\u00f3. E olhe que j\u00e1 passamos por duas cidades &#8212; Caen e Mont Saint Michel e estamos retornando a Paris.<\/p>\n<p>Agora, em meio ao sono que deveria ser profundo, a consci\u00eancia pesou e despertou-me para o relato das destemidas perip\u00e9cias do Cavaleiro Andante em plagas normandas e adjac\u00eancias. <\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Vamos voltar a fita e retomar a partir da nossa chegada em Paris na  sexta, 27. Sa\u00edmos do aeroporto Charles de Gaulle a bordo de um Kangoo, da Rent-Car, e nos perdemos pelas avenidas \u2018peripheriques\u2019 da Cidade Luz. Um gira-gira que nos roubou quase duas horas at\u00e9 encontrarmos a \u2018sortie\u2019 para a auto-estrada que nos levou a Caen, ainda distante 100 quil\u00f4metros de Mont Saint Michel, nosso primeiro destino.<\/p>\n<p>Num desses perdidos, avistamos o s\u00edmbolo m\u00e1ximo, a Tour Eiffel. Acenamos e prometemos voltar para o reveillon.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>A caminho da fortaleza de Saint Michel, o anoitecer nos surpreendeu na estrada. N\u00e3o estava previsto. Mas, decidimos dormir em Caen, a cidade portu\u00e1ria onde as primeiras tropas aliadas desembarcaram para livrar a Europa e o mundo do flagelo da Segunda Grande Guerra.<\/p>\n<p>Todos gostaram da solu\u00e7\u00e3o. Agora a tarefa era buscar um hotel. Ziguezagueamos pelas ruas estreitas at\u00e9 encontrar abrigo ao alcance das nossas algibeiras no Hotel Dephon, de apar\u00eancia acolhedora e com algum charme, eu diria.<\/p>\n<p>Mesmo com o frio, ainda houve tempo para caminhar pelas ruas centrais at\u00e9 encontrar um lugar para jantar. A noite g\u00e9lida n\u00e3o assusta ningu\u00e9m por aqui. Menos ainda uma breve chuva que nos surpreendeu em pleno passeio p\u00fablico. Fam\u00edlias inteiras, devidamente equipadas com coloridos casados imperme\u00e1veis, perambulam de um lado a outro pelas ruas pr\u00f3ximas ao canal que d\u00e1 para o mar.<\/p>\n<p>Era como se nada houvesse \u2013 e l\u00e1 no c\u00e9u brilhasse um luar resplandecente. <\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Ah! C\u00e1 estou a dizer o \u00f3bvio.<\/p>\n<p>A chuva e a temperatura pelos arredores de zero grau s\u00e3o situa\u00e7\u00f5es normal\u00edssimas \u2013 e com as quais os habitantes aprenderam a conviver tranq\u00fcilamente. Os jovens se re\u00fanem nos pubs e nos restaurantes (na verdade, estreitas cantinas), indiferentes aos rigores do inverno e aos nossos t\u00edbios olhares de estrangeiros. Fiquei com a sincera impress\u00e3o que, ao contr\u00e1rio dos nossos, n\u00e3o precisam de muito para ser feliz \u2013 e, assim \u00e0 primeira vista, me parece que s\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 tra\u00e7os de ostenta\u00e7\u00e3o em nenhum deles. Mas, \u00e9 vis\u00edvel, a mis\u00e9ria mis\u00e9ria, como conhecemos no Brasil, passa longe daqui&#8230;<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>S\u00e1bado, 28. Um passeio breve breve por uma feira livre, um gorro de 2 euros na cabe\u00e7a e, outra vez, l\u00e1 fomos n\u00f3s. Rumo a Saint Michel. No r\u00e1dio do carro, ouvi uma can\u00e7\u00e3o em franc\u00eas. A introdu\u00e7\u00e3o lembrou em muito a brasileira dos Doces B\u00e1rbaros, que diz \u201cmist\u00e9rio sempre h\u00e1 de pintar por a\u00ed\u201d. Acho que \u00e9 do Gil, acho.<\/p>\n<p>As can\u00e7\u00f5es se parecem tanto que n\u00e3o me espantaria se fosse mesmo uma improvisada vers\u00e3o. S\u00f3 ent\u00e3o percebo que a tal encantou-me como se fosse uma m\u00fasica nova de um novo tempo.<\/p>\n<p>Confesso: rolou uma nostalgia do meu caminhar at\u00e9 aquele lugar, onde nunca imaginei por os p\u00e9s e, de repente, me encontro diante de mim e do meu espanto.<\/p>\n<p>Como a can\u00e7\u00e3o que me distra\u00edra, seria eu uma nova vers\u00e3o de mim mesmo? Uma vers\u00e3o ainda mais distra\u00edda e confusa. Ou tudo ainda n\u00e3o passa de conseq\u00fc\u00eancia do fuso hor\u00e1rio?<\/p>\n<p>Bem de qualquer forma, saudei os dias e os sonhos que me trouxeram at\u00e9 aqui&#8230;<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>Conferi minha express\u00e3o no espelho do carro. Me achei parecido com meu pai e do ar debochado que fizera, quando, por descuido ou acaso, assistiu na TV a um representante do Green Peace defender a proibi\u00e7\u00e3o da ca\u00e7a \u00e0 baleia. Contundente em seu depoimento, o mo\u00e7o prop\u00f4s o seguinte questionamento aos espectadores, eventuais ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Se continuarmos com essa pesca e ca\u00e7a predat\u00f3rias, logo logo esses pobres animais ser\u00e3o extintos, desaparecer\u00e3o. \u00c9 este o mundo que voc\u00eas querem deixar aos seus filhos e netos? Como as novas gera\u00e7\u00f5es sobreviver\u00e3o sem conhecer ou ter visto uma baleia? Me digam, como?<\/p>\n<p>Do seu sempre aberto ba\u00fa de espantos, o Velho Aldo devolveu no ato a provoca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Tenho 80 anos e nunca vi um bicho desses. U\u00e9, o que fiz ent\u00e3o at\u00e9 agora? E olhe que n\u00e3o posso me queixar. N\u00e3o tenho muito, n\u00e3o. Mas, tudo o que tenho me \u00e9 caro&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 isso.<br \/>\nPr\u00f3xima parada: Mont Saint Michel.<br \/>\nAt\u00e9 porque mist\u00e9rio sempre h\u00e1 de pintar por a\u00ed&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fran\u00e7a, 2003.<br \/>\n30 de dezembro.<br \/>\nMadrugada em Alenson,<br \/>\nmin\u00fascula cidade na<br \/>\nregi\u00e3o da Normandia.<\/p>\n<p>Como vim parar aqui? <\/p>\n<p>Acordo com o calor do quarto aquecido.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10648","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10648","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10648"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10648\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17248,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10648\/revisions\/17248"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10648"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10648"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10648"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}