{"id":10649,"date":"2007-06-17T00:00:00","date_gmt":"2007-06-17T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:57:25","modified_gmt":"2017-09-15T19:57:25","slug":"espada-de-luz","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/espada-de-luz\/","title":{"rendered":"Espada de luz"},"content":{"rendered":"<p>Paris, 2003. 2 de janeiro. <\/p>\n<p>Fiquei devendo ao leitor (se \u00e9 que haver\u00e1 algum?) um di\u00e1rio de viagem.  Fiz pior. Prometi falar das belezas e magias de Mont Saint Michel e desapareci deste bloco de anota\u00e7\u00f5es por tr\u00eas dias.<\/p>\n<p>J\u00e1 estamos em Paris e o que mais temos feito \u00e9 caminhar e caminhar, al\u00e9m de visitar museus e igrejas. Por isso talvez me sinto \u00e0 vontade para usar um recurso dos cat\u00f3licos, o m\u00e9a-culpa, m\u00e9a-culpa, m\u00e9a-culpa para assumir a minha indisciplina na viagem e na vida. Assim mudarei o foco. \u00d3bvio que n\u00e3o deixarei de escrever. Mas, a partir de agora, trarei para voc\u00eas algumas anota\u00e7\u00f5es sem a preocupa\u00e7\u00e3o cronol\u00f3gica e\/ou mesmo um texto escorreito.<\/p>\n<p>Isto posto, passamos \u00e0s breves observa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>I.<\/p>\n<p>Viajar \u00e9 a melhor coisa do mundo. Chegar em Paris \u00e9 o melhor da viagem. Por mim, gostaria de ficar por aqui alguns dias a mais. Me deixar envolver pelo dia-a-dia da cidade que \u00e9 linda. Mas o roteiro inclui Londres, Amsterd\u00e3, Bruxelas e o que pintar. Ent\u00e3o, farei o melhor: aproveitar o tempo que nos resta na Cidade Luz.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Antes algumas breves linhas sobre Saint Michel. Trata-se de uma pequena ilha rochosa na chamada Baixa Normandia. Fica no estu\u00e1rio do rio Couesnon que desemboca no Canal da Mancha. \u00c9 um lugar repleto de lendas e hist\u00f3rias do mar: monstros marinho que viravam embarca\u00e7\u00f5es, mar\u00e9s trai\u00e7oeiras, guerras entre esquadras rivais, salteadores e piratas at\u00e9 que, reza a tradi\u00e7\u00e3o, a apari\u00e7\u00e3o do anjo S\u00e3o Miguel Arcanjo p\u00f4s ordem no lugar \u2013 e fez-se a paz, na medida do poss\u00edvel, entre os homens de boa vontade.<\/p>\n<p>Por essas e outras que n\u00e3o sei contar, construiu-se ali uma fortaleza e no alto desta uma igreja em louvor ao anjo redentor. \u00c9 o ponto tur\u00edstico mais visitado da Normandia e est\u00e1 entre os primeiros de todo o territ\u00f3rio franc\u00eas. Desde 1979 \u00e9 considerado Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico da Humanidade.<\/p>\n<p>Faz um bocado de frio no inverno. <\/p>\n<p>Chegamos l\u00e1 loucos para ver a ilhota ficar sem contato com o continente. Antes de partir, lemos e ouvimos sobre o fen\u00f4meno que acontece sempre que sobe a mar\u00e9. O mar a invadir lentamente a plan\u00edcie arenosa. Ver desaparecer o elo umbilical que nos une \u00e0 Fran\u00e7a. Depois acompanhar a f\u00faria das ondas, cada vez maiores, na arrebenta\u00e7\u00e3o junto aos rochedos. N\u00e3o nos faltou imagina\u00e7\u00e3o \u2013 seria como entrar no t\u00fanel do tempo. <\/p>\n<p>Ali\u00e1s, foi essa a primeira e \u00fanica decep\u00e7\u00e3o. Assim que pegamos as chaves dos nossos aposentos, indagamos o recepcionista do hotel pela seguran\u00e7a dos ve\u00edculos nos estacionamentos, fora da fortaleza, junto ao mar.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o h\u00e1 perigo.<\/p>\n<p>&#8212; Como assim?<\/p>\n<p>&#8212; Fiquem tranq\u00fcilos. <\/p>\n<p>&#8212; Mas, e se a mar\u00e9 subir nesta noite e inundar o local?<\/p>\n<p>Um sorriso, depois a resposta: <\/p>\n<p>&#8212; Isto n\u00e3o acontece desde o s\u00e9culo 19&#8230;<\/p>\n<p>Olhamos sem gra\u00e7a uns para os outros, mas resolvemos relevar. At\u00e9 para a seguran\u00e7a dos ve\u00edculos \u00e9 melhor assim.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Esqueci de dizer&#8230;<\/p>\n<p>Uma das atra\u00e7\u00f5es maiores da cidade \u00e9 est\u00e1tua de S\u00e3o Miguel no topo da igreja. Est\u00e1 a 170 metros de altura. Ali\u00e1s, h\u00e1 refer\u00eancias por todas as partes ao anjo. Tanto que, al\u00e9m da imagem em que ele enfrenta um monstro marinho de espada em punho, o que mais se v\u00ea \u00e0 venda nas lojinhas locais s\u00e3o as ditas-cujas, espadas. De todos os tamanhos, modelos, origens e cortes.<\/p>\n<p>Eu mesmo fiquei propenso a comprar uma. Custava 43 euros \u2013 e era das mais em conta. Algo em torno de 200 reais, o que pagaria um dia de estadia nos hot\u00e9is.<\/p>\n<p>Desisti. N\u00e3o sei exatamente o que faria com a tal. Serviria de adorno na sala de casa? Uma lembran\u00e7a deste lugar que nos inspirou a viagem.<\/p>\n<p>Todo o cavaleiro tem uma espada. Foi o que li numa das hist\u00f3rias da primeira cole\u00e7\u00e3o de livros que o pai me comprou. Era garoto ainda \u2013 e aquelas hist\u00f3rias \u2013 elas, sim \u2013 inundaram minha imagina\u00e7\u00e3o e personalidade.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>H\u00e1 alguns anos, quando visitei as ru\u00ednas do Castelo dos Templ\u00e1rios, em Tomar, Portugal, fiquei me \u2018achando\u2019 um dos personagens daquelas f\u00e1bulas antigas, repletas de ensinamentos e justi\u00e7a. Lembro que caminhei ao redor das muralhas \u2013 como fiz aqui em Saint Michel \u2013 como se fosse amo e senhor de todas as sacrossantas lutas que livrariam o mundo de todos os males.<\/p>\n<p>De quebra, me achei investido de certos dons e outras tantas boas certezas. Entre as quais, o privil\u00e9gio estar ali&#8230;<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Faz sentido.<\/p>\n<p>Para quem saiu do Cambuci, filho de um modesto (mas, simp\u00e1tico e cativante) oper\u00e1rio, at\u00e9 que estou me saindo bem, vida afora&#8230;<\/p>\n<p>A partir de ent\u00e3o, todos os dias busco um momento meu, pessoal e intransfer\u00edvel. Pode ser em uma igreja \u2013 que \u00e9 o que mais visito em viagens assim \u2013 ou mesmo num lugar silencioso qualquer. Agrade\u00e7o as gra\u00e7as recebidas e tento me preparar para os desafios que vir\u00e3o e t\u00eam vindos e n\u00e3o s\u00e3o poucos e \u00f3timo que venham.<\/p>\n<p>Ao final, fecho os olhos e lembro a figura do pai a sorrir. Calad\u00e3o, como era de seu feitio. De joelhos, ent\u00e3o, diante do Alt\u00edssimo, imagino uma espada de luz a iluminar aquele instante e o resto do dia.<\/p>\n<p>Vejo o pai sempre com um blazer branco de l\u00e3. Era sua marca registrada de eleg\u00e2ncia quando eu ainda era menino. O menino que fui e ainda insiste em acreditar no que v\u00ea e, principalmente, no que est\u00e1 por vir&#8230;<\/p>\n<p>* Na foto, a Kangoo a caminho de Mont Saint Michel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paris, 2003. 2 de janeiro. <\/p>\n<p>Fiquei devendo ao leitor (se \u00e9 que haver\u00e1 algum?) um di\u00e1rio de viagem.  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