{"id":10650,"date":"2007-06-18T00:00:00","date_gmt":"2007-06-18T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:57:25","modified_gmt":"2017-09-15T19:57:25","slug":"bloco-de-anotacoes","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/bloco-de-anotacoes\/","title":{"rendered":"Bloco de anota\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p>Nunca diga nunca.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 assim que dizem por a\u00ed. Ent\u00e3o, vou dizer por aqui. N\u00e3o sei se um dia eu volto. Mas o reveillon na Champs \u00c9lys\u00e9es n\u00e3o \u00e9 l\u00e1 aquelas coisas. \u00c9 diferente, sim. Mas, n\u00e3o tem l\u00e1 a transcend\u00eancia que se anuncia e propala. Diferente mesmo porque se encontra gente de todas as partes do mundo. Ali\u00e1s, um mar de gente encapotada e de garrafa nas m\u00e3os \u2013 como se bebe! \u2013, que se espalha at\u00e9 aonde nossos olhos podem ver. <\/p>\n<p>\u00c0 meia-noite, \u00e9 o fuzu\u00ea, sem ritmo, sem ginga ao som do espocar das rolhas do champagne. Grupos e grupos de turistas. Muitas fam\u00edlias. Muitos casais. Infind\u00e1veis \u2018parisienses\u2019 de etnias diferentes a saudar o novo ano e, de alguma forma, a imensur\u00e1vel saudade do pa\u00eds de onde vieram. <\/p>\n<p>O vai-e-vem constante sugere a impress\u00e3o que todos come\u00e7amos o Novo Ano a percorrer a c\u00e9lebre trilha que vai do nada a lugar nenhum. <\/p>\n<p>N\u00f3s, por exemplo. A certa altura, caminhamos rumo a Tour Eiffel. Quando l\u00e1 chegamos, n\u00e3o havia mais a ilumina\u00e7\u00e3o que, vista de longe, lhe dava um encantamento especial, adeq\u00fcada \u00e0 \u00e9poca. Resignados, ouvimos que as luzes piscaram s\u00f3 at\u00e9 \u00e0 meia-noite. Dali em diante, a  torre famosa fez-se vulto e as sombras tomaram todas aquelas paragens. <\/p>\n<p>&#8212; \u00d4 mesquinharia \u2013 disse um dos nossos. <\/p>\n<p>A turma dos otimistas preferiu louvar a caminhada e os votos de \u201cbon an\u00e9e\u201d que ouvimos e desejamos a todos com quem cruzamos pelo caminho. Entre estes, estava um casal de brasileiros, com os dois filhos aborrescentes. Tamb\u00e9m a\u00ed as opini\u00f5es se dividiram. O pai com ares de todo o cuidado \u00e9 pouco. A m\u00e3e, por sua vez, at\u00e9 tentava uma alegria fora de hora e\/ou principalmente local &#8212; talvez pensasse nas comprinhas da Galerie Lafayette. Ensaiava uns passinhos toscos sob os olhares de reprova\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as. Nelas, era vis\u00edvel o desconforto e a lembran\u00e7a da farra que poderiam estar fazendo, naquele preciso instante, se estivessem no Brasil com os amigos. <\/p>\n<p>Enfim, c\u2019est la vie&#8230; <\/p>\n<p>II. <\/p>\n<p>Dei boas-vindas ao Novo ano com um arrependimento.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se deveria. Mas, vou lhes confessar: queria ter comprado um cachorrinho de pel\u00facia numa lojinha do free-shopp, ainda em Zurique. Nem lembro o pre\u00e7o. Mas, n\u00e3o era caro, n\u00e3o. Cabia na palma de uma das minhas m\u00e3os, com sobra. Macio e jeitoso. Com uma cara simp\u00e1tica a sugerir: \u201cMe leva com voc\u00ea\u201d. <\/p>\n<p>N\u00e3o levei.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m entenderia aquele c\u00e3ozinho na minha bagagem. Nem eu mesmo. Mas, sei que faria bonito se desse de presente para algu\u00e9m. <\/p>\n<p>Mas, a quem? <\/p>\n<p>A uma crian\u00e7a, por exemplo. Das tantas que tenho na fam\u00edlia. Re\u00fano uma sobrinhada de fazer inveja. Levaria o primeiro espertinho que fizesse aquela perguntinha constrangedoramente chata.<\/p>\n<p>&#8212; Trouxe presente para mim? <\/p>\n<p>Tiraria o bichinho da mala \u2013 e certamente ganharia um baita sorriso de agradecimento. E quem sabe um daqueles abra\u00e7os espont\u00e2neos que s\u00f3 as crian\u00e7as sabem dar? <\/p>\n<p>Mas, ops, um instante&#8230; <\/p>\n<p>E os outros sobrinhos quando soubessem? <\/p>\n<p>Olha a encrenca! Seria um choror\u00f4 sem fim \u2013 e os pais com aqueles coment\u00e1rios b\u00e1sicos. <\/p>\n<p>&#8211;Mas, esse cunhado, hein. N\u00e3o d\u00e1 uma dentro&#8230; <\/p>\n<p>Todos se zangariam de mont\u00e3o, e com raz\u00e3o. <\/p>\n<p>Melhor deixar o bichinho e toda sua fam\u00edlia \u2013 ele com a dele, eu com a minha &#8212; naquele  cesto na porta da loja. Evitei uma grande confus\u00e3o. <\/p>\n<p>S\u00f3 espero que o simp\u00e1tico n\u00e3o esteja por l\u00e1 quando passar por  Zurique de regresso ao Brasil.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se resistiria&#8230;<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>\u00c9 a t\u00edpica francesinha dos dias atuais. Deve ter pouco mais de 20 anos, se tanto. A beleza t\u00edpica mistura os tra\u00e7os suaves do rosto, a pele branca, os cabelos castanhos claros. Esbelta e, por natureza, elegante.<\/p>\n<p>Usa casaco longo em tons escuros \u2013 o preto predomina. A cabe\u00e7a coberta por gorro, capuz ou chap\u00e9u; um mais criativo que o outro. Assim \u00e0 dist\u00e2ncia, observo que n\u00e3o abre m\u00e3o da discri\u00e7\u00e3o no gestual, no tom de voz, no caminhar.<\/p>\n<p>E como caminham essas francezinhas! Pelas ruas, alamedas e boulevards parisienses. Sempre com o cigarro em uma das m\u00e3os e outro v\u00edcio danado \u2013 o celular \u2013 na outra. <\/p>\n<p>\u00c0 espera de quem?<\/p>\n<p>Sei l\u00e1. Sei que h\u00e1 uma cena comum nesta \u00e9poca do ano. A mo\u00e7a se esconde do frio no primeiro canto que aparecer e se p\u00f5e a falar no celular entre uma tragada e outra. Falam que falam essas garotas? Meigas e, ao mesmo tempo, insinuantes. Fr\u00e1geis e perigosas. Amea\u00e7adoras.<\/p>\n<p>Reparo a mo\u00e7a que agora entra no caf\u00e9 onde estou. Livra-se dos agasalhos com a ajuda do gar\u00e7om, ajeita os cabelos pra l\u00e1 e pra c\u00e1 (deve ser for\u00e7a do h\u00e1bito, pois lhes ca\u00edram exatamente como estavam) e pede um caf\u00e9. Est\u00e1 s\u00f3.<\/p>\n<p>Ato cont\u00ednuo, abre a bolsa. Adivinhem? Saca o celular e o coloca sobre a mesa, como se fosse us\u00e1-lo a qualquer momento. Na seq\u00fc\u00eancia, puxa um papelote e um saquinho esverdeado, de onde tira um punhado de fumo.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o acredito, disse aos bot\u00f5es do meu sobretudo que giraram para esquerda e para a direita, tamb\u00e9m, como eu, at\u00f4nitos.<\/p>\n<p>Imaginei como reagiriam as pessoas que estavam no caf\u00e9, brasserie e restaurant. Indiferentes ou haveria uma como\u00e7\u00e3o. Nada disso. Me alarmei \u00e0 toa. Nem por isso deixa de ser surpreendente. Era um desses fumos de corda, tradicionais, que os nossos caboclos pitam, de c\u00f3coras \u00e0 beira da estrada, para ver a vida passar.<\/p>\n<p>Precisei atravessar o oceano, s\u00f3 para ver a cena e comprovar. Mesmo com o cigarrinho fuleiro e o celular b\u00e1sico, a danada n\u00e3o perde a pose e a eleg\u00e2ncia. At\u00e9 para ver a vida passar. Isto \u00e9 Paris&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nunca diga nunca.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 assim que dizem por a\u00ed. 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