{"id":10651,"date":"2007-06-19T00:00:00","date_gmt":"2007-06-19T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:57:25","modified_gmt":"2017-09-15T19:57:25","slug":"numero-um","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/numero-um\/","title":{"rendered":"N\u00famero um"},"content":{"rendered":"<p>Nevou.<\/p>\n<p>E Paris se fez mais rom\u00e2ntica, a enfeitar-se de branco, telhados e ruas, logo na primeira manh\u00e3 daquele ano.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos a escolher os pr\u00f3ximos roteiros de viagem na Gare de Saint Lazare e vimos quando o senhor chegou a cantar, como se estivesse nada mais houvesse no mundo. Ele, a can\u00e7\u00e3o e as lembran\u00e7as. Deu um n\u00e3o-sei-o-qu\u00ea de saudade ali na hora que, mesmo agora, estou a me perguntar: se era coisa minha, do cantante ou da dol\u00eancia natural da m\u00fasica rom\u00e2ntica francesa?<\/p>\n<p>Estou sem resposta ainda hoje.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Ao seu lado, seguia um guri falante. Dezesseis ou dezessete anos, se tanto. Devia estar a contar os feitos da noite de S\u00e3o Silvestre, como por l\u00e1 \u00e9 conhecido o 31 de dezembro. O homem n\u00e3o lhe ouvia. <\/p>\n<p>Tinha um chap\u00e9u enterrado na cabe\u00e7a e o sobretudo que atravessara gera\u00e7\u00f5es. Poderia ser pai, av\u00f4, tio ou parente do garoto, mas n\u00e3o lhe dava aten\u00e7\u00e3o. Apenas andava ao seu lado, a balbuciar versos intelig\u00edveis. O olhar vadio perambulava pelos trilhos dos trens que interligam a Fran\u00e7a a outros cantos da Europa.<\/p>\n<p>A um dado momento, o rapazola se tocou da indiferen\u00e7a. Encheu-se de brios e pulou na frente do senhor. Queria aprova\u00e7\u00e3o para essa ou aquela proeza. Refor\u00e7ava com gestos e sorrisos. <\/p>\n<p>O expediente de pouco adiantou. <\/p>\n<p>Ele parou de cantarolar. Mas, n\u00e3o de sonhar. <\/p>\n<p>&#8212; Proeza. Que proeza, menino. Proeza ser\u00e1 o dia em que voc\u00ea aqui deixar uma mulher chorando de amor e partir em um desses trens, tamb\u00e9m com o cora\u00e7\u00e3o apertado, para enfrentar novos desafios. A\u00ed, sim, poder\u00e1 dizer que a vida valeu para alguma coisa. A\u00ed, sim, vai se sentir um homem de verdade.<\/p>\n<p>Voltou a cantar e a olhar os trilhos.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Desconfio que o homem falava por experi\u00eancia pr\u00f3pria. Mas, tamb\u00e9m poderia estar lembrando de algum filme como sugeria a tal cena. Sei apenas que o cen\u00e1rio era prop\u00edcio para encontros e despedidas, os dois lados da mesma viagem. Ambos inesquec\u00edveis.<\/p>\n<p>Percebi uma certa perplexidade na express\u00e3o do garoto, tipo: n\u00e3o foi isso que eu perguntei. Por\u00e9m, no ato, concordei com o senhor. E, sei l\u00e1 porque motivo, me vi na plat\u00e9ia do Olympia em 1993. O cantor N\u00e9lson Gon\u00e7alves fazia um show que reverenciava 50 anos de boemia \u2013 N\u00e9lson morreu cinco anos depois, em abril de 1998, aos 79 anos.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>A casa de espet\u00e1culo estava lotada e N\u00e9lson a enfileirar um sucesso atr\u00e1s do outro \u2013 \u201cA Minha Ren\u00fancia\u201d, \u201cNem as Paredes Confesso\u201d, \u201cNegue\u201d, \u201cFica Comigo Esta Noite\u201d e a indefect\u00edvel \u201cBoemia\u201d, entre outras. L\u00e1 pelas tantas, os acordes introduziram um samba-can\u00e7\u00e3o de Benedito Lacerda, chamado \u201cN\u00famero Um\u201d. Originalmente gravados por Orlando Silva, os versos contam a hist\u00f3ria de um homem que v\u00ea a mulher amada ir embora em busca de tantas e tamanhas &quot;proezas&quot;, se \u00e9 que me entendem?<\/p>\n<p>Termina assim: <\/p>\n<p>\u201cTudo por\u00e9m foi in\u00fatil.<br \/>\nEras no fundo uma f\u00fatil.<br \/>\nE foste de m\u00e3o em m\u00e3o.<\/p>\n<p>Satisfaz tua vaidade.<br \/>\nMuda de dono \u00e0 vontade.<br \/>\nIsto em mulher \u00e9 comum.<\/p>\n<p>N\u00e3o guardo frios rancores.<br \/>\nPorque entre os teus mil amores.<br \/>\nE serei sempre o n\u00famero um.\u201d<\/p>\n<p>N\u00e9lson n\u00e3o segurou as l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>A plat\u00e9ia percebeu e se emocionou. Aplaudiu com mais intensidade. Quando as palmas e assovios diminu\u00edram, o cantor tentou agradecer. No entanto, l\u00e1 do fundo do sal\u00e3o, veio a voz de um gaiato:<\/p>\n<p>&#8212; Chorando, hein, N\u00e9ls\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>E o cantor n\u00e3o se perdeu. Apesar da gaguejada, habitual quando N\u00e9lson falava, deu uma li\u00e7\u00e3o de vida para todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>&#8212; Se voc\u00ea ama-masse como eu ama-mei, te-tenho certe-za que tam-b\u00e9m cho-cho-choraria&#8230;<\/p>\n<p>Mais e mais aplausos. N\u00e3o havia neve, \u00f3bvio. Mas sobrou romantismo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nevou.<\/p>\n<p>E Paris se fez mais rom\u00e2ntica, a enfeitar-se de branco, telhados e ruas, logo na primeira manh\u00e3 daquele ano.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos a escolher os pr\u00f3ximos roteiros de viagem na Gare de Saint Lazare e vimos quando o senhor chegou a cantar,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10651","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10651","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10651"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10651\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17245,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10651\/revisions\/17245"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10651"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10651"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10651"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}