{"id":10652,"date":"2007-06-20T00:00:00","date_gmt":"2007-06-20T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:57:25","modified_gmt":"2017-09-15T19:57:25","slug":"euroestar","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/euroestar\/","title":{"rendered":"Euroestar"},"content":{"rendered":"<p>Janeiro, 9.<br \/>\nAno: 2003<br \/>\nLondres.<\/p>\n<p>Escrevo do Euroestar.<br \/>\nUm tanto contrariado, \u00e9 bem verdade.<\/p>\n<p>Deixamos Londres a caminho de Amsterd\u00e3, depois de uma estadia de quatro dias em territ\u00f3rio ingl\u00eas. Para ser franco, s\u00f3 ficamos na cidade \u2013 e olhe l\u00e1. \u00c9 o d\u00e9cimo quarto dia das f\u00e9rias europ\u00e9ias e todos j\u00e1 demonstram um vis\u00edvel cansa\u00e7o do ir e vir de uma cidade a outra. H\u00e1 ainda algumas etapas a cumprir Amsterd\u00e3, Brugges e Bruxelas, depois voltamos para Zurique, de onde partimos para S\u00e3o Paulo. <\/p>\n<p>Outro complicador \u00e9 a mais do que justific\u00e1vel preocupa\u00e7\u00e3o com o montante da brincadeira. D\u00f3lar e real andam em baixa constante diante das moedas locais. O euro, por exemplo, bate nos 4 reais e a libra \u2013 que fez um estrago consider\u00e1vel na minha conta \u2013 anda por volta dos 6 por um. <\/p>\n<p>Cabe a reflex\u00e3o: o que seria de mim sem os cart\u00f5es de cr\u00e9dito? Com todo respeito a quem mora em Diadema, n\u00e3o conseguiria sair de S\u00e3o Bernardo rumo \u00e0 vizinha cidade sem os tais e quais.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Sem quest\u00f5es financeiras, por favor. N\u00e3o vamos estragar o que resta das f\u00e9rias. Enveredemos por caminhos mais sutis, digamos assim.<\/p>\n<p>Falaremos de Londres, por exemplo. Desculpem, mas a vejo como uma cidade previs\u00edvel ou reconhe\u00e7o: n\u00e3o sei \u2013 e nunca saberei \u2013 entend\u00ea-la. N\u00e3o me sugere o mesmo arrebatamento de Paris, a rom\u00e2ntica etapa anterior.<\/p>\n<p>Como um turista incidental que sou, n\u00e3o escapei ao trivial, mal-e-mal temperado: fui ver a troca da guarda (Deu sono.), o Big Ben (nome de um elep\u00ea de Benjor de 1965, \u00fanico que falta em minha cole\u00e7\u00e3o), a abadia, o parlamento e caminhar \u00e0s margens do Th\u00e2misa \u2013 j\u00e1 sei, j\u00e1 sei, sem ironias; de qualquer forma \u00e9 melhor do que trafegar pelas marginais Pinheiros e Tiet\u00ea.<\/p>\n<p>A cidade \u00e9 outra Babel de etnias, gentes e costumes. Um caleidosc\u00f3pio, diferente de Paris. Na capital francesa, h\u00e1 uma acultura\u00e7\u00e3o natural dos forasteiros. Todos querem ser um pouco &#8216;parisiense&#8217; &#8211; at\u00e9 eu que sou mais sonso. \u00c9 percept\u00edvel. Aqui, n\u00e3o. Os imigrantes n\u00e3o se integram totalmente \u00e0 nova rotina. Diria: n\u00e3o se \u2018britanizam\u2019. Ressaltam tra\u00e7os do pa\u00eds de origem; nas vestes, no ritmo de falar, no jeito de andar. <\/p>\n<p>Muitas vezes, pelas ruas de Londres, procurei e foi raro encontrar o ingl\u00eas genu\u00edno nesse \u2018universo\u2019 de rostos orientais, hindus e chicanos \u2013 grupo em que incluiria os brasileiros.<\/p>\n<p>\u00c9 o que chamam de uma cidade cosmopolita.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Ops.<\/p>\n<p>Neste exato instante, vamos come\u00e7ar a travessia sob as \u00e1guas. Ser\u00e3o 20 minutos dentro do Eurot\u00fanel que rasga o fundo do Canal da Mancha, a tal maravilha da engenharia mundial.<\/p>\n<p>O outro lado da janela \u00e9 s\u00f3 escurid\u00e3o, como se estiv\u00e9ssemos num metr\u00f4 subaqu\u00e1tico. <\/p>\n<p>\u201cNada a fazer sen\u00e3o esquecer o tempo\u201d.<\/p>\n<p>Inteiramente ocupado por passageiros silenciosos, o comboio fica mais silencioso ainda.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Um choro de crian\u00e7a interrompe o formalismo e a pose de todos n\u00f3s. Soa como um alerta de que a vida, mesmo sob as profundezas, continua \u2013 e \u00e9 o maior desafio.<\/p>\n<p>Por falar em desafios. <\/p>\n<p>Al\u00e9m de chegar \u00e0 outra margem, a tarefa que me escapou: cad\u00ea o relat\u00f3rio de viagem? <\/p>\n<p>Durante os dias em que estive em Londres, n\u00e3o escrevi sequer uma linha no pseudo di\u00e1rio de bordo. N\u00e3o houve um motivo declarado. N\u00e3o posso sequer alegar excesso de atividades. Ali\u00e1s, n\u00e3o quero alegar nada. S\u00f3 que n\u00e3o deu vontade de escrever. N\u00e3o escrevi \u2013 e ponto.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>A crian\u00e7a parou de chorar. Ufa! <\/p>\n<p>Ent\u00e3o posso, eu pr\u00f3prio, derramar meu desabafo.<\/p>\n<p>O ato de escrever, por vezes ou quase sempre, nos leva a um \u201cEuroestar\u201d muito pessoal. Mergulhamos em nosso pr\u00f3prio oceano de reflex\u00f5es, medos e decis\u00f5es. H\u00e1 dias que o mergulho se d\u00e1 em \u00e1guas mais escuras, mais profundas. <\/p>\n<p>H\u00e1 dias e dias&#8230; Outros nem tanto. <\/p>\n<p>Escrever \u00e9 como submergir aos confins dos sentimentos, recolher alguma saudade, outro tanto de lembran\u00e7as e quer\u00eancias. Podem ser d\u00edspares, et\u00e9reas. Ganham, por\u00e9m, contornos de realidade quando nos levam a outra margem, onde est\u00e1 o leitor. Embora viajem comigo, fa\u00e7am parte deste meu momento, assim que voc\u00eas pousarem os olhos nessas linhas pertencem a quem os l\u00ea &#8211; e n\u00e3o a mim.<\/p>\n<p>Minhas impress\u00f5es aportaram em terra firme. <\/p>\n<p>Fazem-se a hist\u00f3ria de todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Exemplo.<br \/>\nUma hist\u00f3ria que a todos pertence e n\u00e3o \u00e9 de ningu\u00e9m? <\/p>\n<p>Reparem nos que se amam. T\u00eam luz pr\u00f3pria. Mesmo numa confraterniza\u00e7\u00e3o ou no restaurante. Em meio a uma multid\u00e3o. Os amantes vivem um mundo peculiar de sorrisos, car\u00edcias, beijos. Divertem-se com qualquer bobagem. Respondem com um sim ao melhor da vida, enquanto os \u201cacinzentados\u201d sentem-se no oco do mundo, a trafegar num Euroestar que anda em c\u00edrculos. Sem sa\u00edda para a luz do sol.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Janeiro, 9.<br \/>\nAno: 2003<br \/>\nLondres.<\/p>\n<p>Escrevo do Euroestar.<br \/>\nUm tanto contrariado, \u00e9 bem verdade.<\/p>\n<p>Deixamos Londres a caminho de Amsterd\u00e3, depois de uma estadia de quatro dias em territ\u00f3rio ingl\u00eas.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10652","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10652","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10652"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10652\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17244,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10652\/revisions\/17244"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10652"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10652"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10652"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}