{"id":10653,"date":"2007-06-21T00:00:00","date_gmt":"2007-06-21T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:57:25","modified_gmt":"2017-09-15T19:57:25","slug":"dona-culpa","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/dona-culpa\/","title":{"rendered":"Dona Culpa"},"content":{"rendered":"<p>Caetano saiu o palco sobre as vaias&#8230; <\/p>\n<p>Foi no long\u00ednquo ano de 1979, durante a final\u00edssima do Festival de M\u00fasica Popular, organizado na extinta TV Tupi. O baiano defendeu uma composi\u00e7\u00e3o surreal do surreal Benjor. Chamava-se \u201cDona Culpa Ficou Solteira\u201d. A plat\u00e9ia n\u00e3o entendeu, e n\u00e3o gostou. N\u00e3o considerou sequer o suingue natural das m\u00fasicas benjornianas e caiu na vaia.<\/p>\n<p>Pelo retrospecto de Caetano em festivais, todos ali ficaram temerosos. Mas, Caetano levou aquele anticl\u00edmax numa boa. Saiu sorrindo e, nos bastidores, foi abordado por uma rep\u00f3rter da pr\u00f3pria emissora. Ela imaginou jogar lenha na fogueira, mas foi infeliz. No af\u00e3 da pergunta, trocou o \u201csob\u201d pelo \u201csobre\u201d. <\/p>\n<p>&#8212; Caetano, o que voc\u00ea achou de sair sobre vaias do palco? <\/p>\n<p>&#8212; Achei exatamente isso, minha filha. Sa\u00ed SOBRE as vaias. Porque sou maior do que tudo isso&#8230;<\/p>\n<p>Fim da entrevista.  <\/p>\n<p>II. <\/p>\n<p>S\u00f3 ontem, ao me desfazer do bloco de anota\u00e7\u00f5es em que registrei minhas impress\u00f5es da viagem de 2003, percebi que n\u00e3o dei fim \u00e0s hist\u00f3rias que narrei aqui nesses \u00faltimos quatro ou cinco dias. Me culpei porque, afinal, cuido do meu leitorado. Ser\u00e1 que h\u00e1 alguma expectativa dos meus af\u00e1veis cinco ou seis leitores pelos \u00faltimos quatro dias de andan\u00e7as? Ou o que aqui registrei j\u00e1 est\u00e1 de bom tamanho? <\/p>\n<p>Outra cisma \u00e9 o tamanho do apag\u00e3o que dei na reta de chegada. Devia estar esbaga\u00e7ado e\/ou achando tudo sem gra\u00e7a? <\/p>\n<p>Respondo: \u00c9 v\u00e1lida a primeira observa\u00e7\u00e3o \u2013 viajar \u00e9 \u00f3timo; mas, em determinado momento, voc\u00ea se sente em cacos. A segunda, nem tanto. Lembro que, em determinado dia, andei ao gosto do vento em Brugges e, em outra ocasi\u00e3o, me perdi num parque lind\u00edssimo em Amsterd\u00e3, ao lado do Museu de Van Gogh. <\/p>\n<p>Que me perdoem os politicamente corretos, mas troquei a visita \u00e0s obras do pintor pelo caminhar a esmo naquele parque. N\u00e3o me pe\u00e7am explica\u00e7\u00f5es.  Nem me vaiem ou culpem porque n\u00e3o sou Caetano e n\u00e3o saberei flanar sobre a bronca de voc\u00eas.<\/p>\n<p>III. <\/p>\n<p>Vou lhes confessar. Tem hora que cansa cumprir o sacrossanto papel de turista. Preferi fazer parte daquela paisagem. Olhar as crian\u00e7as que brincavam apesar do frio pouco acima de 3 graus. Resisitir ao semblante de um c\u00e9u acinzentado e triste. Andar SOBRE os caminhos abertos na neve com a sincera impress\u00e3o de n\u00e3o ter hoje, nem amanh\u00e3&#8230; <\/p>\n<p>Um chocolate quente no quiosque completou a plenitude daquela manh\u00e3 de s\u00e1bado. Que se perdeu no tempo, mas n\u00e3o na minha lembran\u00e7a. <\/p>\n<p>IV. <\/p>\n<p>Por dever de of\u00edcio, alguns esclarecimentos: <\/p>\n<p>     * Muito das minhas andan\u00e7as nesses dias de Holanda e B\u00e9lgica resultaram num texto maneiro que escrevi tempos atr\u00e1s: A Filha Mais Nova do Seo Lib\u00f3rio, que est\u00e1 neste blog, datada de 31 de outubro de 2006. Para ser mais sincero, a id\u00e9ia nasceu em uma cantina em Amsterd\u00e3 ao observar uma mo\u00e7a \u2013 provavelmente estrangeira \u2013 a atender as mesas e cuidar da cozinha ao mesmo tempo. Fiquei impressionado com sua destreza.  <\/p>\n<p>     * No Festival Internacional da Can\u00e7\u00e3o de 68, que a Globo promoveu de 1967 a 1971, Caetano Veloso defendeu, ao lado dos Mutantes, a m\u00fasica \u00c9 Proibido Proibir. Classificou-se na eliminat\u00f3ria realizada no Teatro da PUC, em S\u00e3o Paulo &#8211; e foi se apresentar para um Maracan\u00e3zinho lotado. As vaias foram un\u00e2nimes e implac\u00e1veis. Os Mutantes, em protesto, tocaram de costa para a plat\u00e9ia. E Caetano fez um discurso inflamado. A certa altura, disse: &quot;\u00c9 esta a juventude que deseja tomar o poder neste pa\u00eds. Se voc\u00eas entenderem de pol\u00edtica o que voc\u00eas entendem de est\u00e9tica, estamos f&#8230;&quot; E abandonou o palco&#8230;<\/p>\n<p>      * O Festival da Tupi foi mais uma das tantas tentativas para ressuscitar a moda dos festivais que a TV Record consagrou nos anos 60. Outra v\u00e3 tentativa&#8230; <\/p>\n<p>      * Quem ganhou foi a m\u00fasica \u201cQuem Me Levar\u00e1 Sou Eu\u201d, de Dominguinhos e Manduka, defendida pelo cearense Raimundo Fagner. <\/p>\n<p>      * Soube do resultado assim que os jurados sa\u00edram da sala do julgamento. Minutos depois, encontro Fagner sozinho num canto da coxia. Perguntei o que achou da vit\u00f3ria ou coisa do g\u00eanero. Ele ainda n\u00e3o sabia do resultado. Mostrou-se surpreso, chegou a duvidar. Mas n\u00e3o esbo\u00e7ou qualquer comemora\u00e7\u00e3o: \u201cGosto mesmo \u00e9 de cantar &#8211; e s\u00f3.&quot;<\/p>\n<p>V. <\/p>\n<p>Ontem encontrei um bom amigo, depois de tanto tempo. <\/p>\n<p>Ele me disse: <\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea escreveu a Despedida de Solteiro, lembra? <\/p>\n<p>Claro, aquiesci. <\/p>\n<p>&#8212; Ent\u00e3o, agora escreva a Despedida de Casado&#8230; <\/p>\n<p>Como assim, perguntei? <\/p>\n<p>E mostrou a m\u00e3o esquerda. Sem alian\u00e7a&#8230; <\/p>\n<p>\u00c9 da vida, e dos amores&#8230; <\/p>\n<p>Gostaria que n\u00e3o fosse assim. <\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Ah! o refr\u00e3o da m\u00fasica de Benjor era simples, mas dizia tudo.<\/p>\n<p>&quot;Dona Culpa ficou solteira<br \/>\n Porque ningu\u00e9m quis casar com ela.&quot;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Caetano saiu o palco sobre as vaias&#8230; <\/p>\n<p>Foi no long\u00ednquo ano de 1979, durante a final\u00edssima do Festival de M\u00fasica Popular, organizado na extinta TV Tupi. 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