{"id":10654,"date":"2007-06-22T00:00:00","date_gmt":"2007-06-22T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:57:25","modified_gmt":"2017-09-15T19:57:25","slug":"o-relato-de-lia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-relato-de-lia\/","title":{"rendered":"O relato de Lia"},"content":{"rendered":"<p>Tudo t\u00e3o errado que parece certo.<br \/>\n(Kiko Zambiansky)<\/p>\n<p>O e-mail chegou de surpresa \u00e0s telas dos computadores de dezenas de amigos. Lia \u00e9 universit\u00e1ria. Tem 20 anos, estuda \u00e0 noite e faz est\u00e1gio numa empresa estatal. Ou seja, mora num bairro, trabalha nas imedia\u00e7\u00f5es da Paulista e estuda em S\u00e3o Bernardo. Em tempos \u00e1ridos como o nosso, vale tudo para n\u00e3o perder uma boa hist\u00f3ria que semeie a esperan\u00e7a num mundo melhor. Por isso, transcrevo o relato. E vamos ao que interessa:<\/p>\n<p>I.<\/p>\n<p>\u201cMeus amores. <\/p>\n<p>Estava p\u00ea-da-vida com a humanidade. Me remoia a id\u00e9ia de que todo mundo s\u00f3 est\u00e1 interessado em puxar o tapete um do outro. Mesmo assim precisava ir para a faculdade. Detalhe: sa\u00ed da empresa \u00e0s 19h15 por causa de uma reuni\u00e3ozinha de \u00faltima hora que atrasou minha chefa, respons\u00e1vel pela minha carona. <\/p>\n<p>Bom, anyway, cheguei na faculdade eram 20h20 e descobri que n\u00e3o havia absolutamente nada para fazer. Para aumentar minha raiva, descobri que meu amigo Gabriel n\u00e3o havia ido para a faculdade. Portanto, acabava de perder a comodidade da carona. Tudo o que conseguia pensar era a del\u00edcia que seria estar em casa antes das 22 horas. Fui atr\u00e1s de outro amigo, tamb\u00e9m motorizado. O nome do mo\u00e7o \u00e9 Andr\u00e9. Gente fina esse Andr\u00e9. Acontece que bem nesta noite o Andr\u00e9 havia programado uma balada. Resultado: outra carona perdida.<\/p>\n<p>At\u00e9 podia ter optado por tomar uma cervejinha com ele, mas preferi n\u00e3o. A utopia de chegar em casa cedo ainda me atormentava. Ent\u00e3o me conformei. Ia mesmo voltar de bumba. Olhei na carteira e outra revela\u00e7\u00e3o completou meu dia: nem um real sequer. Ferrou!, pensei. <\/p>\n<p>Ia ter de passar em um banco para tirar tr\u00eas reais. Parei na esquina da rua Sacramento com avenida Dr. Rudge Ramos para perguntar aonde diabos eu acharia um lta\u00fa. Decidi pedir informa\u00e7\u00e3o numa pizzaria que fica logo ali. O gorduchinho foi extremamente simp\u00e1tico e me disse que se continuasse na Dr. Rudge logo acharia uma ag\u00eancia. Fui pra l\u00e1 morrendo de medo. Nem uma alma na rua. Nem meia alma no caixa eletr\u00f4nico. Foi ent\u00e3o que come\u00e7ou a minha saga.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Meu cart\u00e3o n\u00e3o passava na porta. A\u00ed, justo quando pensei esta \u00e9 minha \u00faltima tentativa, o cart\u00e3o funcionou. Entrei e l\u00e1 no caixinha havia um recadinho dos mais simp\u00e1ticos: <\/p>\n<p>&quot;Suspendemos o atendimento eletr\u00f4nico das 22 \u00e0s 6 horas por motivos de seguran\u00e7a&quot;. <\/p>\n<p>Voc\u00eas n\u00e3o fazem id\u00e9ia do meu desespero. <\/p>\n<p>Foi quando, inesperadamente, o gordinho da pizzaria estacionou o carro em frente ao banco e desceu. Pensei logo em seq\u00fcestro. P\u00f4, ele sabia que ia ao banco e aparece do nada? Muito estranho. Ele se aproximou e veio dizendo calmamente: <\/p>\n<p>&quot;Lembrei que voc\u00ea ia ao banco e j\u00e1 passou das dez&quot;. <\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>A\u00ed eu gelei! Pensei no pior. <\/p>\n<p>Naquele exato momento, percebi o quanto a gente \u00e0s vezes julga por pura inseguran\u00e7a. O mo\u00e7o, todo sorridente, abriu a carteira e tirou dez reais.<\/p>\n<p>&quot;Toma mo\u00e7a, era para a condu\u00e7\u00e3o o dinheiro?&quot; <\/p>\n<p>Voc\u00ea parece minha filha e eu fiquei muito preocupado. <\/p>\n<p>Me joguei nos bra\u00e7os do gordinho e comecei a chorar. Eu estava muito feliz. Aquele gesto quebrou toda a maldi\u00e7\u00e3o que eu havia depositado na humanidade horas antes. Ele me deu um abra\u00e7o e disse para n\u00e3o me preocupar em devolver. Gente, voc\u00eas n\u00e3o est\u00e3o entendendo. Quando eu achava que tudo estava perdido apareceu La Pelota. <\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>De pronto, eu saquei o celular sem cr\u00e9dito e liguei a cobrar para a minha m\u00e3e para contar o ocorrido. <\/p>\n<p>Quando entrei no \u00f4nibus, que tamb\u00e9m estava completamente despovoado, eu estava toda esbaforida e chorando ainda. Sentei naquele banco vermelho do businho, do lado do motora e terminei de contar a hist\u00f3ria para a minha m\u00e3e.<\/p>\n<p>Percebi que o motorista era um bocado diferente. Tinha uns tiques estranhos, mas a pureza mais clara do mundo no olhar. N\u00e3o havia um passageiro que n\u00e3o o cumprimentasse ou desse algo para ele&#8230;<\/p>\n<p>Seu Jesus, pasmem voc\u00eas, era o nome dele. <\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>De s\u00fabito, Jesus virou-se para mim e falou: <\/p>\n<p>&quot;Sabe o que voc\u00ea tem de aprender, menina? Que existem pessoas boas como voc\u00ea e fazem o bem sem querer nada em troca. Guarda esses dez reais. Sabe, se voc\u00ea n\u00e3o tivesse conseguido o dinheiro eu te levaria do mesmo jeito&quot;. <\/p>\n<p>E abriu aquele sorriza\u00e7o. <\/p>\n<p>Fomos conversando e eu fui agradecendo a Deus todas as coisas que haviam dado t\u00e3o erradamente certo. Ele foi me contando como ama trabalhar e o quanto \u00e9 bom ter nos passageiros amigos de verdade. <\/p>\n<p>E l\u00e1 fui eu chorar de novo. <\/p>\n<p>* Nota do Autor:<\/p>\n<p>\u201cO susto e o relato de Lia\u201d foi publicado em 30 de maio de 2003 em Gazeta do Ipiranga. Est\u00e1 disponibilizado no site na se\u00e7\u00e3o Caro Leitor. Na ocasi\u00e3o, precisei transferir a trama para o Ipiranga a fim de adequ\u00e1-la ao local da publica\u00e7\u00e3o. Hoje, recupero o texto original que \u00e9 uma del\u00edcia e um respiro de otimismo em tempos t\u00e3o adversos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tudo t\u00e3o errado que parece certo.<br \/>\n(Kiko Zambiansky)<\/p>\n<p>O e-mail chegou de surpresa \u00e0s telas dos computadores de dezenas de amigos. Lia \u00e9 universit\u00e1ria. Tem 20 anos, estuda \u00e0 noite e faz est\u00e1gio numa empresa estatal.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10654","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10654","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10654"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10654\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17242,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10654\/revisions\/17242"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10654"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10654"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10654"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}