{"id":10656,"date":"2007-06-24T00:00:00","date_gmt":"2007-06-24T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:57:25","modified_gmt":"2017-09-15T19:57:25","slug":"a-varanda","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-varanda\/","title":{"rendered":"A varanda"},"content":{"rendered":"<p>Era o primeiro dia de um ano qualquer.<br \/>\nDe um tempo qualquer.<br \/>\nAs casas ainda tinham port\u00f5es baixos<br \/>\ne varandas, pequenas varandas<br \/>\nque se transformavam em territ\u00f3rio<br \/>\nlivre para os casais enamorados. Ali,<br \/>\nestavam a salvo. Entre o compromisso<br \/>\nde &#8216;namorar em casa&#8217; e os perigos<br \/>\nda malfala\u00e7\u00e3o das ruas.<\/p>\n<p>Na varanda, era onde tudo acontecia &#8211; ou quase.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a esperava o rapaz. Ele lhe roubava<br \/>\no primeiro beijo. As car\u00edcias avan\u00e7avam.<br \/>\nConstru\u00edam-se sonhos, segredos.<br \/>\nFaziam-se projetos, planos para o futuro.<br \/>\nDiscutia-se por nada. Cenas de ci\u00fames, tamb\u00e9m.<br \/>\nO acerto de contas &#8211; n\u00e3o se usava a express\u00e3o<br \/>\ndiscutir a rela\u00e7\u00e3o. Ficavam de bem &#8211; ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Na varanda, a despedida, o fim.<br \/>\nTamb\u00e9m podia acontecer&#8230;<\/p>\n<p>Tudo sob a espreita velada da fam\u00edlia, ouvidos<br \/>\natr\u00e1s da porta; e da vizinhan\u00e7a, olhares<br \/>\nentre as frestas da janela&#8230;<\/p>\n<p>Eis o tema da nossa primeira novela blogueira.<\/p>\n<p>CENA 1 &#8211; O casal na varanda<\/p>\n<p>&#8212; Eu n\u00e3o acredito mais na gente.<\/p>\n<p>Ela disse em tom determinado, de quem havia pensado e repensado a situa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o lhe interessava o passado, nem o futuro. Queria dar um fim \u00e0quele amor acabado, esgar\u00e7ado por promessas e desilus\u00f5es. N\u00e3o poderia precisar quando tomou consci\u00eancia do que estava ocorrendo. Mas, era fato. Acabar com aquela indecis\u00e3o virou objetivo de vida. Queria viver o presente. S\u00f3 isso&#8230; Seria pedir muito?<\/p>\n<p>CENA 2 &#8211; Ele custa acreditar&#8230;<\/p>\n<p>Estava em pandarecos. Nunca lhe passou pela cabe\u00e7a viver tamanha afli\u00e7\u00e3o. Tinha certeza: era a mulher da sua vida, embora andasse um tanto ocupado para lhe dar a aten\u00e7\u00e3o que sempre pediu. Pensou que fosse dengo de menina mimada que, ali\u00e1s, ela nunca deixou de ser, mesmo depois de se transformar numa insinuante mulher.<\/p>\n<p>Ele pr\u00f3prio contemporizava. N\u00e3o cabia aquela inseguran\u00e7a. J\u00e1 havia lhe dito, n\u00e3o se lembrava quando, mas havia dito: ela era tudo o que ele sempre quis para sempre &#8211; e agora, num desses vapt-vupt da vida, amea\u00e7ava por um ponto final e seguir em frente. Que bobinha &#8212; pensou. Aonde pensa que vai chegar agindo desse modo, sem medir as conseq\u00fc\u00eancias&#8230;<\/p>\n<p>Lembrou de ouvi-la dizer algo sobre um tal de &quot;relacionamento pra valer&quot;. Falou tamb\u00e9m sobre uma defini\u00e7\u00e3o para que vivessem juntos, felizes, morando na mesma casa, discutindo aquelas coisas comuns de todo casal: contas a pagar, luz, telefone. Problemas familiares, visitas indesej\u00e1veis, supermercados. Filhos, isso mesmo, filhos, por que n\u00e3o t\u00ea-los?  <\/p>\n<p>Era o que ela tanto sonhava&#8230; <\/p>\n<p>Achou que fosse coisa de momento. N\u00e3o havia d\u00favidas sobre o que os dois sentiam. Mas, preso ao trabalho e a outras tantas obriga\u00e7\u00f5es e compromissos, achou que com o passar do tempo tudo naturalmente se acomodaria. Afinal, todos invejavam o modo como se amavam. <\/p>\n<p>Eram mesmo feito um para o outro.<\/p>\n<p>Em uma coisa, no entanto, concordava. J\u00e1 n\u00e3o se divertiam como nos primeiros tempos. Culpa dele, reconhecia. At\u00e9 j\u00e1 se esquecera a espontaneidade de um sorriso. Pudera, tantas e tantas a resolver&#8230; <\/p>\n<p>N\u00e3o d\u00e1 para conciliar tudo.<\/p>\n<p>Respirou fundo. Admirou sua doce beleza. Ela desandara a falar sobre coisas que ele n\u00e3o gostaria de estar ouvindo. E falava num tom absolutamente s\u00e9rio, convicto. Tentava contra-argumentar e invocava o quanto foram felizes e dos momentos \u00fanicos que viveram de plena entrega. <\/p>\n<p>N\u00e3o recebia qualquer resposta favor\u00e1vel, qualquer rea\u00e7\u00e3o&#8230; <\/p>\n<p>Entendeu que o barco fazia \u00e1gua. Passou a considerar a hip\u00f3tese de que estava mesmo tudo acabado. Mesmo assim jogou os \u00faltimos trunfos. Disse tudo o que um homem pode dizer \u00e0 mulher amada &#8212; e foi embora. <\/p>\n<p>O truque j\u00e1 dera certo em outras ocasi\u00f5es. Entrou no carro sozinho. Esperou alguns minutos antes de dar a partida naquela trapitonga que lhe trouxera de t\u00e3o longe. Olhos arregalados, cora\u00e7\u00e3o batia r\u00e1pido,<br \/>\ndescompassado. Sil\u00eancio absoluto. Nem sombra dela. Girou a chave na igni\u00e7\u00e3o. Pisou no acelerador e lentamente foi deixando para tr\u00e1s os sonhos e a frustra\u00e7\u00e3o de ter cavado o pr\u00f3prio fracasso. <\/p>\n<p>Duas curvas depois, a estrada abria-se a sua frente. Pensou em voltar&#8230; Mas, n\u00e3o havia retorno \u00e0 vista, tanto para o autom\u00f3vel como para esse amor que acabara de acabar.<\/p>\n<p>&#8212; A vida continua, resignou-se&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era o primeiro dia de um ano qualquer.<br \/>\nDe um tempo qualquer.<br \/>\nAs casas ainda tinham port\u00f5es baixos<br \/>\ne varandas, pequenas varandas<br \/>\nque se transformavam em territ\u00f3rio<br \/>\nlivre para os casais enamorados.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10656","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10656","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10656"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10656\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17240,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10656\/revisions\/17240"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10656"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10656"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10656"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}