{"id":10660,"date":"2007-06-26T00:00:00","date_gmt":"2007-06-26T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:57:24","modified_gmt":"2017-09-15T19:57:24","slug":"a-varanda-parte-iii","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-varanda-parte-iii\/","title":{"rendered":"A varanda (Parte III)"},"content":{"rendered":"<p>J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m na varanda. Ele pegou \u00e0 estrada de volta \u00e0 Capital, cora\u00e7\u00e3o apertado. Ela n\u00e3o vacilou um instante sequer. Entrou calada e se trancou no quarto. Todos ali, naquela casa, dividiam aquela situa\u00e7\u00e3o limite, mesmo que sem perceber. A vida no espelho da vida. Era olhar para a menina e ver a si pr\u00f3prio &#8211; um amanh\u00e3 incerto, mesmo com todas as certezas. Certezas como as da irm\u00e3 mais velha que nunca entendeu aquele relacionamento. Mesmo assim, torceu para estar errada. Pela felicidade da maninha, que parecia t\u00e3o feliz.<\/p>\n<p>CENA 4 &#8211; A irm\u00e3, amiga e conselheira&#8230;<\/p>\n<p>Notou um brilho diferente nos olhos da irm\u00e3 que acabara de entrar. Percebeu, por\u00e9m, que continuava triste. Havia chorado, \u00e9 certo. Logo, logo viriam sinais de melhora, acreditava nisso. A tens\u00e3o passaria. Ela saberia dar tempo ao tempo. <\/p>\n<p>\u00c0 noite, sairiam para conversar, como grandes amigas que sempre foram. Ouviria tudo o que a irm\u00e3 tinha a lhe dizer, daria sua opini\u00e3o sem grilos, e conselhos &#8212; afinal, era um ano mais velha. <\/p>\n<p>Tinha certeza de que a maninha sairia de mais essa roubada e ambas dariam, ao boas e sonoras gargalhadas ao lembrar desse dia. Como nos tempos de adolescentes. <\/p>\n<p>A bem da verdade, nunca entendeu tal relacionamento. Da noite para o dia, a irm\u00e3 come\u00e7ou a falar em amor eterno, alma g\u00eamea. Que ele era o homem da sua vida. Estranhou, l\u00f3gico.<\/p>\n<p>N\u00e3o lembrava de v\u00ea-la assim antes.<\/p>\n<p>Cresceram juntas. Frequentaram as mesmas escolas, o mesmo curso de ingl\u00eas. Aprenderam viol\u00e3o, vestiram-se de anjinhos nas prociss\u00f5es e eram vidradas em festinhas, no teatrinho na escola e showzinhos improvisados. Mas, gostavam mesmo de contar vantagens sobre as aventuras e conquistas junto aos garotos da cidade. <\/p>\n<p>Digamos que, no bom sentido, at\u00e9 competiam entre si para ver quem ficava com o surfista mais gatinho. Roqueiros, groupies e afins tamb\u00e9m entravam na disputa. <\/p>\n<p>Sempre foi muito divertido.<\/p>\n<p>Teve um dia que ela pr\u00f3pria &#8211; a maninha mais velha &#8211; extrapolou. Enrabichou-se por um bicho-grilo que apareceu na cidade em plenos anos 80. Quando deu por si, estava em Matchu-Pitchu. <\/p>\n<p>Meu Deus, o que foi aquilo? <\/p>\n<p>Achou o gringo t\u00e3o gracinha. Uma verdadeira rel\u00edquia. Vivia do que produzia. Brincos, colares, pulseiras, balangand\u00e3s de fazer inveja \u00e0 Carmem Miranda. N\u00e3o resistiu \u00e0quele sotaque sibilante, aquele jeito sincopado de falar. <\/p>\n<p>Para encurtar a conversa, largou-se no mundo. Partiram de \u00f4nibus, com alguns trocados, pelos sinuosos cami\u00f1os de la latinidad. <\/p>\n<p>\u00c9 verdade que, antes mesmo de atravessar a fronteira uruguaia, j\u00e1 estavam com fome e sem dinheiro. Mas, ele n\u00e3o dizia nada; n\u00e3o seria ela a estragar a aventura com essas bobagens tolas.<\/p>\n<p>Dois dias depois, estava exausta e na mendic\u00e2ncia. Achou melhor dar sinal de vida \u00e0 fam\u00edlia. Adivinhem com quem falou num telefonema a cobrar? Com a irm\u00e3, claro. Foi ela, ali\u00e1s, quem amaciou a m\u00e3e e o pai e, de quebra, lhe arranjou dinheiro para voltar at\u00e9 porque o &#8216;guaio&#8217; j\u00e1 dera no saco. <\/p>\n<p>Eram mesmo muito unidas. <\/p>\n<p>Quando chegou, foi receb\u00ea-la na esta\u00e7\u00e3o e n\u00e3o fez qualquer coment\u00e1rio. Fez mais: s\u00f3 depois que os pais lhe asseguraram que n\u00e3o haveria repres\u00e1lias levou elazinha para casa.<\/p>\n<p>Hoje seria a sua vez de dar o ombro amigo. Afinal, por tudo j\u00e1 descrito acima, era uma mulher experiente. <\/p>\n<p>Al\u00e9m do que a pr\u00f3pria irm\u00e3, ao entrar, j\u00e1 dissera: <\/p>\n<p>&#8212; A vida continua.<\/p>\n<p>Melhor assim. N\u00e3o ia l\u00e1 com a fu\u00e7a daquele tipo. Que hist\u00f3ria! Amor eterno, alma g\u00eamea. E l\u00e1 isto existe?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m na varanda. Ele pegou \u00e0 estrada de volta \u00e0 Capital, cora\u00e7\u00e3o apertado. 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