{"id":10661,"date":"2007-06-27T00:00:00","date_gmt":"2007-06-27T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:57:24","modified_gmt":"2017-09-15T19:57:24","slug":"a-varanda-parte-iv","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-varanda-parte-iv\/","title":{"rendered":"A varanda (Parte IV)"},"content":{"rendered":"<p>A menina entrou chorando. Fim do romance. A irm\u00e3 at\u00e9 ficou feliz com a decis\u00e3o. Mas, foi a m\u00e3e quem entendeu tim-por-tim aquele momento.<\/p>\n<p>CENA 5 \u2013 Cora\u00e7\u00e3o de m\u00e3e&#8230;<\/p>\n<p>Era a m\u00e3e &#8211; e sabia o que estava dizendo. <\/p>\n<p>Cuidou-se a vida toda para dar \u00e0s meninas uma educa\u00e7\u00e3o compat\u00edvel com os dias que estavam vivendo. Algumas amigas diziam que era moderna demais, compreensiva demais, generosa demais.  Sentia um tom de cr\u00edtica na frase. Mas assim \u00e9 que era preciso ser &#8211; e ponto. <\/p>\n<p>Argumentava sempre que \u00e0s v\u00e9speras do Terceiro Mil\u00eanio n\u00e3o podia ser diferente. Hipocrisia nunca. <\/p>\n<p>As meninas cresceram nesse clima de liberdade, jogo aberto mesmo e, apesar de algumas decep\u00e7\u00f5es, n\u00e3o se arrependia um mil\u00edmetro do que havia feito. <\/p>\n<p>Hoje, eram mo\u00e7as bonitas, inteligentes, formadas &#8212; a mais velha fazia p\u00f3s gradua\u00e7\u00e3o &#8212; e logo, logo se encaminhariam na vida, tinha certeza. <\/p>\n<p>Eram namoradeiras. Mas, normal. \u00c9 da idade. Mais cedo ou mais tarde, se acertariam tamb\u00e9m no perigoso jogo do amor.<\/p>\n<p>Por isso, sabia o que a filha mais nova estava sentido. <\/p>\n<p>At\u00e9 ela acreditou que, desta vez, era para valer. No in\u00edcio, come\u00e7ou falando dele com admira\u00e7\u00e3o. N\u00e3o havia nada entre eles ainda. Mas, vira-e-mexe, lembrava uma das suas piadas, citava uma fala, comentava um show que havia assistido e at\u00e9 sua discreta deseleg\u00e2ncia. Ria e viajava s\u00f3 com o olhar. <\/p>\n<p>Percebeu tudo. <\/p>\n<p>Era uma quest\u00e3o de tempo. Mod\u00e9stia \u00e0 parte, tinha uma filha encantadora. Ele n\u00e3o resistiria&#8230;<\/p>\n<p>Dito e feito. Alguns meses depois, veio com a not\u00edcia num final de semana. Havia tomada a iniciativa e foi maravilhoso. Tinha certeza: estava amando. Comemoraram o feito como grandes amigas e brindaram com vinho tinto, embora fizesse um lindo s\u00e1bado de sol. Estava que era s\u00f3 felicidade e logo contou a novidade para a irm\u00e3. Foi uma manh\u00e3 inesquec\u00edvel.<\/p>\n<p>P\u00f4xa, eles se amavam. <\/p>\n<p>Todos viam e comentavam: feitos um para o outro. Ele sabia como cortej\u00e1-la, como faz\u00ea-la feliz. Gra\u00e7as ao bom Deus, estavam todos bem &#8212; inclusive ela, a m\u00e3e.<\/p>\n<p>A roda do tempo revela-se, por vezes, implac\u00e1vel. E gira que gira. Reduz nossas ilus\u00f5es a p\u00f3.<\/p>\n<p>Uma manh\u00e3 \u00e0 toa percebeu que n\u00e3o brigavam. Eram atenciosos um para com o outro. Mas, j\u00e1 n\u00e3o carregavam o intenso brilho da paix\u00e3o. <\/p>\n<p>Conversavam. Ela escutou por escutar. A menina comentava que sentia falta de um trabalho mais realizador, uma carreira pr\u00f3pria da qual podia se orgulhar. Ele, por sua vez, n\u00e3o ficava \u00e0 vontade nesse assunto. Fazia observa\u00e7\u00f5es e restri\u00e7\u00f5es. Dizia saber o que era bom ou ruim para ela. E, a bem da verdade, estava financeiramente equilibrado. Esse neg\u00f3cio de trabalhar era bobagem&#8230;<\/p>\n<p>Conhecia sua menina. Tinha certeza de que ela n\u00e3o estava gostando dessa tutela. No entanto, preferiu n\u00e3o fazer qualquer coment\u00e1rio. <\/p>\n<p>Poderia ser mal-interpretada&#8230;<\/p>\n<p>Colocava-se na pele da menina. Lembrou que, na idade dela, tinha tantos sonhos. Queria ser algu\u00e9m. N\u00e3o se via como uma mera dona-de-casa. Pintava, bordava, declamava, fazia poesias. Chegou at\u00e9 a ensaiar alguns passos de sapateado. Era muito ativa.<\/p>\n<p>Era&#8230; <\/p>\n<p>Pois, casou. A\u00ed, vieram as meninas e tudo mais virou um grande hobby. Uma brincadeira, at\u00e9 certo ponto triste.<\/p>\n<p>Por isso, quando a filha lhe disse que o romance estava por um fio, n\u00e3o se surpreendeu. Teve de esconder uma inoportuna satisfa\u00e7\u00e3o. Mas, entendeu que era preciso coragem. <\/p>\n<p>Enfim, se as coisas j\u00e1 n\u00e3o andavam bem, para que insistir? <\/p>\n<p>Ela e a menina pareciam-se tanto. Talvez fosse essa mesma a decis\u00e3o certa. N\u00e3o que ela pr\u00f3pria, hoje uma respeit\u00e1vel senhora de cinq\u00fcenta e tantos anos, se arrependesse de algo. Era uma mulher realizada. Mas, se tivesse lutado por aqueles ideais, o mundo certamente teria conhecido uma de suas mais sens\u00edveis artistas pl\u00e1sticas. Sua especialidade: pintura em porcelana.<\/p>\n<p>Bem, era hora de pensar na filha. Assim que a menina entrasse, iria ao seu encontro para, num imenso abra\u00e7o, mostrar que ela nunca estar\u00e1 sozinha&#8230; <\/p>\n<p>E, como todos dizem, a vida continua&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A menina entrou chorando. Fim do romance. A irm\u00e3 at\u00e9 ficou feliz com a decis\u00e3o. Mas, foi a m\u00e3e quem entendeu tim-por-tim aquele momento.<\/p>\n<p>CENA 5 \u2013 Cora\u00e7\u00e3o de m\u00e3e&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10661","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10661","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10661"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10661\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17237,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10661\/revisions\/17237"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10661"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10661"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10661"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}