{"id":10662,"date":"2007-06-28T00:00:00","date_gmt":"2007-06-28T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:57:24","modified_gmt":"2017-09-15T19:57:24","slug":"a-varanda-parte-v","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-varanda-parte-v\/","title":{"rendered":"A varanda (Parte V)"},"content":{"rendered":"<p>A novela blogueira chega hoje ao cap\u00edtulo final, com as reflex\u00f5es de um her\u00f3i silencioso: o pai.<\/p>\n<p>CENA 6 \u2013 A vida em tom s\u00e9pia, como se fosse Carlitos&#8230;<\/p>\n<p>Nunca foi de muito falar. <\/p>\n<p>Tamb\u00e9m com tr\u00eas mulheres em casa, pouco lhe sobrava para opini\u00f5es e pareceres. N\u00e3o reclamava. A mulher e as filhas &#8212; al\u00e9m da chacrinha que herdara nos arredores da cidade &#8212; faziam sua plena felicidade. Gostava de estar com elas. Divertia-se. <\/p>\n<p>Ali\u00e1s, sempre lhe aprontavam alguma. Como aquela vez, num shopping da Capital, entraram as tr\u00eas num improvisado est\u00fadio fotogr\u00e1fico e cismaram em tirar uma foto com roupas de \u00e9poca. Foi obrigado a pagar esse mico. Mas, no preciso momento, vestido a car\u00e1ter, imaginou-se o pr\u00f3prio Carlitos. Por isso, arregalou os olhos na hora do flash e se saiu muito bem. Todos que viam a foto da fam\u00edlia elogiavam sua performance em tom s\u00e9pia. <\/p>\n<p>Destacou-se mais do que as tr\u00eas, quem diria? <\/p>\n<p>Ficou melhor caracterizado que Belinha, a mais nova e, c\u00e1 entre n\u00f3s, a mais meiga. Era um doce de menina, carinhosa e sempre lhe dando uma aten\u00e7\u00e3o especial.<\/p>\n<p>Pois n\u00e3o \u00e9 que justamente Belinha estava lhe deixando preocupado. Andava amuada, sempre a cochichar com a m\u00e3e e a irm\u00e3. <\/p>\n<p>Certamente, falavam do rapaz que n\u00e3o aparecera para as festas de fim-de-ano. Nem lembra direito do motivo que a filha alegou para a aus\u00eancia. Ficou feliz, mas n\u00e3o contou para ningu\u00e9m sobre o seu regozijo. Ela teria mais tempo para mim\u00e1-lo e lhe fazer companhia quando ia para a ro\u00e7a nas manh\u00e3s de s\u00e1bado. Era uma del\u00edcia caminhar por aquelas trilhas r\u00fasticas, ouvindo suas hist\u00f3rias de garota destemida a enfrentar os desafios da cidade-grande, onde foi morar quando completou 18 anos. <\/p>\n<p>N\u00e3o sabia dizer se agora ela tinha 23 ou 24. Talvez 25. Estava formada e agora era doutora, mas ainda n\u00e3o estava satisfeita com os rumos profissionais. Era tratada como estagi\u00e1ria. Ora, n\u00e3o sabiam o talento que estavam perdendo.<\/p>\n<p>Quando apareceu com a not\u00edcia do namoro, l\u00f3gico, contou primeiro para a irm\u00e3, depois para a m\u00e3e. Foi o \u00faltimo a saber e por vias indiretas. <\/p>\n<p>N\u00e3o emitiu qualquer coment\u00e1rio. <\/p>\n<p>Primeiro porque sequer sabia quem era o mo\u00e7o. Segundo porque n\u00e3o lhe davam aten\u00e7\u00e3o mesmo se tivesse estudado a \u00e1rvore geneal\u00f3gica da fam\u00edlia do sortudo \u2013 encantar Belinha era mesmo tirar a sorte grande na loteria da vida.<\/p>\n<p>Sempre esquecia o sobrenome italiano do rapaz. Seria um ato falho? <\/p>\n<p>Vamos ser sinceros. N\u00e3o se sentia confort\u00e1vel sempre que os via junto. O mo\u00e7o tinha um jeit\u00e3o s\u00e9rio, respeitoso. A menina era mais arisca. Grudava nele e n\u00e3o largava. De in\u00edcio, ficava sem jeito. Mas, aproveitava a situa\u00e7\u00e3o&#8230; De bobo, ele n\u00e3o tinha nada. <\/p>\n<p>N\u00e3o desgostava dele, n\u00e3o. Ao menos, n\u00e3o usava aqueles bermud\u00f5es pelas canelas, nem o bon\u00e9 com a aba para tr\u00e1s. Parecia um genro normal. O que j\u00e1 era uma not\u00e1vel conquista nesses tempos de MTVs, McDonalds e afins&#8230;<\/p>\n<p>Agora, estavam ali, os dois, na varanda, enredados numa discuss\u00e3o sem fim. Ele pr\u00f3prio &#8211; o pai &#8211; j\u00e1 estava atordoado. N\u00e3o sabia o que pensar. A filha talvez estivesse se precipitando. N\u00e3o seria melhor pensar mais sobre o assunto. Ouvir as explica\u00e7\u00f5es dele&#8230; <\/p>\n<p>Namoravam h\u00e1 tanto tempo&#8230; <\/p>\n<p>P\u00f4xa, essas mulheres nunca est\u00e3o satisfeitas. As tr\u00eas. Eram os amores da sua vida. Mas, quando cismavam com alguma coisa, sai de baixo. Formavam um clube do Bolinha \u00e0s avessas. Sabia o final de mais esse caso especial: o rapag\u00e3o, que agora achava at\u00e9 simp\u00e1tico, estava rifado. Assim como o sonho que ele discretamente acalentava de ser av\u00f4 ainda naquele ano que mal se iniciara. Mas, que prometia fortes emo\u00e7\u00f5es&#8230; <\/p>\n<p>Silenciosamente (ali\u00e1s, como era um h\u00e1bito seu) e sozinho, resolveu brindar, com uma purinha e de uma golada s\u00f3, os inef\u00e1veis des\u00edgnios daquilo que aprendemos a chamar de destino &#8211; inclusive o dele pr\u00f3prio. J\u00e1 vivera tempo suficiente para saber que o amor, mesmo quando acaba, quando provoca dores e afli\u00e7\u00f5es, \u00e9 a mais intensa e poderosa manifesta\u00e7\u00e3o de vida.<\/p>\n<p>Riu de si pr\u00f3prio e de toda a encrenca.<\/p>\n<p>&#8212; Passar\u00e1, passar\u00e1&#8230; &#8211; gostou de repetir baixinho aquela certeza.<\/p>\n<p>Afinal, todos estavam bem. Nada que duas ou tr\u00eas noites de sono pesado n\u00e3o curassem. Eram jovens e logo, logo, recome\u00e7ariam suas vidas como se esse primeiro de janeiro nunca tivesse existido.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A novela blogueira chega hoje ao cap\u00edtulo final, com as reflex\u00f5es de um her\u00f3i silencioso: o pai.<\/p>\n<p>CENA 6 \u2013 A vida em tom s\u00e9pia, como se fosse Carlitos&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10662","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10662","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10662"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10662\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17236,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10662\/revisions\/17236"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10662"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10662"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10662"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}