{"id":10663,"date":"2007-06-29T00:00:00","date_gmt":"2007-06-29T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:57:24","modified_gmt":"2017-09-15T19:57:24","slug":"pedro-paulo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/pedro-paulo\/","title":{"rendered":"Pedro Paulo"},"content":{"rendered":"<p>Foi em um 29 de junho como hoje \u00e9.<br \/>\nDia de S\u00e3o Pedro e S\u00e3o Paulo &#8212;<br \/>\nque, por sinal, emprestara o nome<br \/>\n\u00e0 cidade onde tudo aconteceu.<br \/>\nNo ano santo de 1939.<\/p>\n<p>I.<\/p>\n<p>Puxa, e l\u00e1 se v\u00e3o 68 anos&#8230;<\/p>\n<p>As festas juninas eram diferentes. As fam\u00edlias se reuniam na rua mesmo, faziam fogueiras junto ao meio-fio, improvisavam comes e bebes em t\u00e1buas sobre cavaletes. Cantavam, dan\u00e7avam, e conversavam. Naquele 29 de junho, feriado \u2013 vale lembrar &#8211;, al\u00e9m da comemora\u00e7\u00e3o de vizinhos e familiares, estava marcado um baile no sal\u00e3o do clube recreativo dos oper\u00e1rios da f\u00e1brica de chap\u00e9us Ramenzzoni, onde trabalhava a menina Yolanda, de 15 para 16 anos, sua irm\u00e3 Odete e o pai Carlito. <\/p>\n<p>Carlos Humberto Vit\u00f3rio Avezzani, o Carlito, era chefe da se\u00e7\u00e3o de Chapelaria. Um cuidadoso artes\u00e3o, no emprego Um pai rigoroso em casa. Mas, gostava de um bom copo de vinho \u2013 um s\u00f3, n\u00e3o; v\u00e1rios \u2013 e farrear com os amigos espalhados pelo bairro do Cambuci.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Pois foi na tarde daquele dia que Carlito, distraidamente, levou um rol de amigos para a comemora\u00e7\u00e3o do dia de S\u00e3o Pedro em frente \u00e0 sua modesta casa de aluguel, na rua Lavap\u00e9s. A esposa Ign\u00eas n\u00e3o gostava nada dessas fanfarronices. Carlito tinha 35 anos, deveria tomar ju\u00edzo e n\u00e3o ficar de trela com essa molecada.<\/p>\n<p>Tinha alguma raz\u00e3o, a senhora. Mas, n\u00e3o toda. <\/p>\n<p>Entre esses, digamos, convidados fanfarr\u00f5es, estava um jovem de 22 anos chamado Aldo, um bamba na arte de valsear \u201ccom rodopio pela direita\u201d e jeito simp\u00e1tico de sorrir sem mostrar os dentes.<\/p>\n<p>Tinha outras qualidades. A saber. Morava perto. L\u00e1 pelos lados da Lins de Vasconcelos. Era de situa\u00e7\u00e3o remediada. Descente de calabreses, torcedor do Palestra e centro-avante do Atlantic. Detalhe: tamb\u00e9m gostava de apostar moderamente no J\u00f3ckey Club. <\/p>\n<p>Um belo curr\u00edculo.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Aldo e Yolanda se viram pela primeira vez naquele dia. Bastou um olhar para que descobrissem que viveriam juntos para toda a vida. Tanto que, no mesmo dia, Aldo passou a chamar o amigo de \u201csogr\u00e3o\u201d. Carlito, registre-se, n\u00e3o gostou nada daquela brincadeira. Percebeu que a filha tamb\u00e9m sorriu a retribuir as aten\u00e7\u00f5es do mo\u00e7o de jaquet\u00e3o bem cortado (o pai era alfaiate) e bigodinho afilado. Para o seu gosto napolitano, a menina j\u00e1 lhe dera liberdade demais. Onde j\u00e1 se viu retribuir um olhar com um sorriso!<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Por isso, tratou de arquitetar rapidamente um plano. N\u00e3o que o Aldo fosse um mal rapaz. Tinha emprego. Trabalhava numa casa de jogo, Casa Lopes. N\u00e3o bebia de cair. Mas, dava seus tragos. E principalmente gostava de dan\u00e7ar, al\u00e9m do que conhecia a fama de namorador.<\/p>\n<p>Carlito tinha para zelar um nome e duas filhas. Chamou Maria, a cunhada mais nova, e lhe deu permiss\u00e3o para levar Yolanda e Odete \u00e0 festa do Ramenzzoni. Aldo n\u00e3o poderia acompanh\u00e1-las. N\u00e3o tinha convite, nem era oper\u00e1rio da f\u00e1brica.<\/p>\n<p>Quando o rapaz soube da tram\u00f3ia do \u201csogr\u00e3o\u201d, ficou furioso. Imaginou a mo\u00e7a a rodopiar pelo sal\u00e3o com outro eventual pretendente. E agora? N\u00e3o podia reclamar. Acabara de conhecer Yolanda, e poderia lhe perder.<\/p>\n<p>Esta vida nos apronta cada uma&#8230; <\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Percebeu a jogada de Carlito. E, mais do que nunca, entendeu que era hora de conquist\u00e1-lo. A filha foi receptiva a seus olhares. Ficou com essa impress\u00e3o. Estaria errado?<\/p>\n<p>N\u00e3o estava. <\/p>\n<p>A impress\u00e3o se confirmou na semana seguinte quando voltaram a se encontrar, ainda que \u00e0 dist\u00e2ncia. Aconteceu o flerte e a promessa de lhe namorar seriamente.<\/p>\n<p>&#8212; Vou falar com seu pai..<\/p>\n<p>Quando Aldo come\u00e7ou a falar, Carlito fez uma express\u00e3o de desaprova\u00e7\u00e3o. No entanto, algo lhe garantiu que podia confiar no moleque. Era necess\u00e1rios antes lhe \u201cpassar um sab\u00e3o\u201d. Seria o primeiro namorado da menina e ele, Carlito, n\u00e3o estava para brincadeiras. Deu consentimento para que se falassem &#8211; e marcassem os dias que poderiam se encontrar. De prefer\u00eancia na casa dela e sob a vigil\u00e2ncia atenta da irm\u00e3 Odete ou do irm\u00e3o ca\u00e7ula Domingos.<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>Tr\u00eas anos depois, Aldo e Yolanda casaram-se na igreja de S\u00e3o Joaquim, na par\u00f3quia de Nossa Senhora da Gl\u00f3ria. Um casamento simples que resultou em tr\u00eas filhos. Nasceram primeiro as filhas Dorothy e Rosa. Na terceira gravidez de Yolanda, Aldo tinha certeza: seria um menino. Certeza absoluta em tempos que n\u00e3o existia nem a id\u00e9ia dos exames de ultra-sonografia. <\/p>\n<p>&#8212; Que nome vamos dar ao menino?<\/p>\n<p>&#8212; Quem disse que vai ser menino, Aldo? <\/p>\n<p>&#8212; Tenho certeza. Que nome vamos dar?<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o sei. Escolhe voc\u00ea.<\/p>\n<p>&#8212; Eu? Como chama aquele j\u00f3quei que ganhou o Grande Pr\u00eamio Brasil?<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o, n\u00e3o&#8230; Assim n\u00e3o. Deixa&#8230; Eu mesmo escolho.<\/p>\n<p>&#8212; Um nome que seja forte, representativo.<\/p>\n<p>&#8212; Ent\u00e3o, nos conhecemos num dia 29 de junho, lembra?<\/p>\n<p>&#8212; Lembro. Lembro que voc\u00ea me largou sozinho para ir dan\u00e7ar no baile.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o tive culpa, Aldo. Foi meu pai que mandou&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Sei, sim. Mas, o nome. Que nome daremos ao menino.<\/p>\n<p>&#8212; Que tal Pedro Paulo.<\/p>\n<p>&#8212; Pedro Paulo?<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 em homenagem aos santos&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Pedro Paulo? V\u00e1 l\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>VIII.<\/p>\n<p>E assim foi at\u00e9 o dia 4 de dezembro quando o garoto nasceu com 4,3 kg. Era mesmo um menino. Um palestrino. Aldo ficou t\u00e3o feliz, t\u00e3o feliz. Assim que entrou no cart\u00f3rio para registrar a crian\u00e7a, todos o cumprimentaram pelo primog\u00eanito. Parab\u00e9ns para c\u00e1, parab\u00e9ns para l\u00e1. O escriv\u00e3o fez a tradicional pergunta:<\/p>\n<p>&#8212; Ent\u00e3o, que nome vamos dar ao \u2018sofredor\u2019 (\u00f3bvio, que o escriv\u00e3o era corinthiano)?<\/p>\n<p>IX.<\/p>\n<p>Aldo lembrou do 29 de junho. Os olhos e a beleza de Yolanda. S\u00e3o Pedro e S\u00e3o Paulo. A rua embandeirada com bal\u00f5es chinezinhos.  Estava mesmo emocionado. Lembrou mais: da raiva que ficou ao v\u00ea ir para a festa. Inevit\u00e1vel. Pedro Paulo, sim, est\u00e1 bem&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Aldo, acorda! Qual o nome da crian\u00e7a?<\/p>\n<p>&#8212; O nome? Hum, hum. O nome do meu pai&#8230; Rodolfo. Carlos em homenagem ao Carlito, conhece? Que tal Rodolfo Carlos Martino<\/p>\n<p>X.<\/p>\n<p>Quando voltou ao Hospital Maternidade Cruz Azul, Aldo levou a certid\u00e3o e flores. Yolanda sorriu ao ler o nome do filho. Mas, como n\u00e3o sorrir? Como dizer n\u00e3o \u00e0quele marido encantador e turr\u00e3o?<\/p>\n[Texto publicado no livro \u201cVolteios &#8211;  Cr\u00f4nicas, lembran\u00e7as e devaneios\u201d]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi em um 29 de junho como hoje \u00e9.<br \/>\nDia de S\u00e3o Pedro e S\u00e3o Paulo &#8212;<br \/>\nque, por sinal, emprestara o nome<br \/>\n\u00e0 cidade onde tudo aconteceu.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10663","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10663","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10663"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10663\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17235,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10663\/revisions\/17235"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10663"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10663"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10663"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}